"O que é a solidão? É viver sem obsessões. Mas na vida às vezes a gente tem que escolher entre esmurrar a ponta de uma faca ou se deixar queimar no fogo." (LEÃO, 2008, p. 51).

Apresentar um autor pouco conhecido é sempre uma tarefa muito árdua, se não um pouco delicada. Quando se trata de um nome conhecido e (re) conhecido do grande público – aliás, quem é esse grande público? – é mais fácil. Pois, apenas ao pronunciar o nome do escritor, o leitor já faz uma ideia do que pensar. Porém, ao anunciarmos um nome como o de Rodrigo de Souza Leão, gera-se um estranhamento. Quem é tal escritor?  O que ele tem para nos oferecer?
Como Rodrigo conseguiu criar mecanismos para que pudesse sobreviver pela sua escrita? Quais os meios de comunicação que fizeram com que novo escritor publicasse e não ficasse apenas nos blogs? Atualmente vivemos em uma época que muitos autores começam escrevendo em sites para que em seguida, às vezes num curto espaço de tempo, publiquem de fato. O escritor contemporâneo parece estar motivado por uma grande urgência em se relacionar com a realidade histórica, estando consciente, entretanto, da impossibilidade de captá-la na sua especificidade atual, em seu presente.
As novas tecnologias oferecem caminhos inéditos para esses esforços, de maneira particular, com os blogs, que facilitam a divulgação dos textos, driblando os mecanismos do mercado tradicional do livro. Apesar de ser esse o grande objetivo dos escritores: ter sua obra impressa, publicada e bem distribuída.
No mercado brasileiro, surgiu, nos últimos anos, outro fenômeno que, em intenso diálogo com as novas formas de realismo, coloca o contato com a realidade atual brasileira como foco principal. Trata-se aqui, de uma literatura que, sem abrir mão da verve comercial, procura refletir os aspectos mais inumanos e marginalizados da realidade social brasileira; nesse caso, um autor estigmatizado como esquizofrênico.
Rodrigo nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de Novembro 1965. Formou-se em jornalismo, foi músico e escreveu vários livros. Também publicou e-books de poesia, dez no total. Seu livro Todos os cachorros são azuis ficou entre os 50 finalistas na edição de 2009 do prêmio Portugal Telecom. A internet era um veículo poderoso para o escritor, que colaborou em diversas revistas eletrônicas, além de possuir um blog, mantido até as vésperas da sua morte, por parada cardíaca, em 2 de julho de 2009.
Em 2008 o autor publicou Todos os cachorros são azuis, livro em que faz alusão a umas de suas internações em razão da esquizofrenia. Através da imagem distorcida de um mundo em crise, o livro constrói e espelha outra realidade articulada segundo uma lógica muito própria, pois sua tessitura dá sentido ao estado patológico do protagonista.
A narrativa escolhida trata de urgência. A urgência de ser em um ambiente de degradação, a urgência de ser para si e para os outros, e talvez isso justifique o uso da primeira pessoa na obra. Em Todos os cachorros são azuis tudo começa com o protagonista engolindo um chip, que será o detonador de uma crise esquizofrênica, culminando com a internação no hospício. O chip no cérebro é um viés de paranoias que a esquizofrenia deflagra. Rodrigo imaginava ter um chip no cérebro, o mesmo que provoca a crise, o que gera a mania de perseguição, a sensação de estar sendo controlado por algo superior. 
O que encontramos na sequência do caso do chip é uma alternância constante entre passado e presente, entremeados pelo caso da internação do principal personagem, longe do que se espera de uma autobiografia tradicional. No início da história o personagem principal não possui um nome.
Um dos símbolos que o personagem principal usa para o resgate de sua infância é um cachorro azul, que também poderia ser de qualquer outra cor. O cachorro aparece em várias passagens do livro. Além do desejo de libertação, outro ponto a se destacar no livro é a relação do narrador/protagonista com os amigos imaginários, Baudelaire e Rimbaud. Dentro do ambiente do hospício e sem o seu cachorro azul, os amigos imaginários são uma forma de escape para o protagonista.
 E nesse labirinto discursivo que configura a obra, envolvida que está por um emaranhado de palavras que dizem e aparentam dizer sempre um algo a mais, é que se busca investigar a escrita, para que assim se possa reconhecer os gestos de silêncios e ouvir até o mais audível grito de socorro, que usam a linguagem como forma de manifestação. E através da imaginação e da linguagem, principalmente a escrita, é possível afirmar que todos os cachorros podem ser azuis ou de qualquer outra cor.




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