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Para Não Dizer Que Não Falei de Coisas Boas

 

“Quis pegar entre meus dedos a Manhã. Peguei vento.”
(Manoel de Barros)

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá, na Travessa da Marinha, na beira do rio Cuiabá, em 19 de Dezembro de 1916.  Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense e é conhecido como poeta pantaneiro ou o poeta do Pantanal, pois sempre busca em sua terra a matéria prima para construir a sua literatura. A multissignificação na esfera da poesia instaura novas maneiras de representação e interpretação da vida e da sociedade, e como se sabe, toda obra literária é considerada poética desde que seu criador retire-a do lugar-comum, para apresentá-la no tabuleiro discursivo das sutilezas, ambiguidades e desvios semânticos, de modo a desafiar a sensibilidade e a inteligência do leitor.
A poética de Manoel de Barros investiga os mistérios do mundo, indaga o porquê das cosias, tenta desvendar a mecânica dos movimentos que regem o universo, busca penetrar no hermetismo de ciência sublime, poderosa, mas incapaz de satisfazer as ânsias do coração. Para decifrá-la, apropria-se da sabedoria da infância, reassume o olhar da criança, certo de que apenas a inocência pode desvendar a razão de tantas contradições.
Como o próprio autor diz em seu documentário Só dez por cento é mentira (2009), “tudo que não invento é falso”, e ainda afirma: “tenho uma confissão a fazer: noventa por cento do que escrevo é invenção, só dez por cento é mentira”, assim podemos observar que o conceito de invenção é completamente diferente do de mentira. Ou seja, as suas memórias inventadas são escritas a partir daquilo que ele considera sua matéria primordial: a infância. Certa vez, Manoel decretou que só sabia escrever sobre aquele período e que na verdade ele só tivera infância. E é de lá que vem a sua inspiração. 

Leitores (Que) Formam Leitores

                                                                                                                                                                      Foto: Synne J.
A leitura tem o poder de despertar em nós regiões que estavam até então adormecidas. Tal como o belo príncipe do conto de fadas, o autor inclina-se sobre nós, toca-nos de leve com suas palavras e, de quando em quando, uma lembrança escondida se manifesta, uma sensação ou um sentimento que não saberíamos expressar revela-se com uma nitidez surpreendente. (Michèle Petit in “Os jovens e a leitura”)

Toda vez que começo a pensar no que vou escrever para o Manifesto, muitas ideias vem a minha mente, e me pego embaralhada em meus pensamentos. Mas desde minha ultima postagem já tinha decidido – ou melhor, quase –, o tema escolhido seria: formação de leitores. Como convencer alguém que ler é muito mais que uma obrigação, tampouco um castigo que deva ser cumprido? Ler é entregar-se a um mundo desconhecido (ou muitas vezes reconhecido), ler é aprender com a dor do outro, assim como com a alegria e outras questões. Eu, por exemplo, leio para me tornar uma pessoa melhor.
Como esse espaço não é voltado para Academia e eu não tenho que defender uma tese para ser aprovada, eu decidi escrever sobre o que significa efetivamente esse ato para mim. Não vou me preocupar se estou sendo clichê ou mesmo se não estou tendo embasamento teórico, afinal, uma máxima que sempre defendi é que o primeiro teórico não teve teórico para se basear, não é mesmo?
Brincadeiras a parte, eu venho me perguntando, como pode um país que não lê encher um evento como a Bienal do Livro? Será que não tem alguma coisa errada? Ou será que esse é um dos caminhos? Eu costumo ouvir muito quando percebo jovens lendo Best-sellers (que sim, reconheço ter um pouco de preconceito), que é melhor eles lerem aquilo do que não lerem nada. Também não sei se a solução passa por ai. Pois afinal, que leitores seriam esses que estariam sendo formados?
Um mundo já pronto e entregue de bandeja pode, a princípio, despertar mais interesse. Mas e a sensibilidade de perceber as nuanças que estão entre uma linha e outra? Quando o leitor não é apresentado ou mesmo “preparado”, – pois em alguns momentos é preciso realmente um preparo – sempre vamos dizer que esse ou aquele autor é muito difícil. Ou que eu não quero ler “tristeza”, pois a vida já é muito triste. Sim, mas e ai?
Acredito que a literatura possa ser um entretenimento, sim, como o cinema, a música e outras artes. Acredito, mas não é minha preferência, mas não posso descartar essa função também. Mas, a grande questão é que o mercado quer impor essa maneira como única, e em relação a isso eu discordo piamente e discuto. “Vamos publicar o que vai virar filme”. “Vamos escrever sobre vampiros e outras sagas porque os jovens gostam”. Mas mais uma vez eu repito: o problema é ficar só nisso. O problema é a superfície apenas, que não permite que nos aprofundemos. Isso sim me incomoda muito. Assim como “jovens” escritores que mal leram algum clássico, e já se consideram grandes escritores, pois ser escritor ainda é algo que impressiona. E esquecem a importância da leitura...
Mas como disse no título, esse texto é apenas o começo do debate: parte I. Acredito que a única maneira de formar leitores é sendo leitor, por jovensque de que adianta ter um discurso bonito, apontar uma série de questões se nunca está com um livro em mãos?

Vermelho Um Pouco Amargo

                                                                                                                                                                            Foto: Jinax



“Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se – em lágrimas – do paraíso, é condenar-se à liberdade. Houve, e só depois, o tempo da alegria ao enxergar o mundo como o mais absoluto e sucessivo milagre: fogo, terra, água, ar e o impiedoso tempo.” (QUEIRÓS, 2011, p.8)

Vermelho é a minha cor favorita; vermelho é a cor do nosso sangue, a cor da paixão. Mas e quando o vermelho é a cor da dor, é um profundo amargo que nos embaraça e causa uma angústia? O vermelho do tomate que é cortado lentamente e de maneira cirúrgica nos faz sentir como se estivéssemos sendo torturados a cada corte. É exatamente assim que nos percebemos quando lemos “Vermelho Amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós, que nos coloca em uma situação um tanto quanto difícil, pois somos levados por uma espécie de labirinto que em alguns momentos não sabemos como sair. Apenas sabemos que não vamos sair ilesos, e como diz o próprio autor, quando a dor é muita, ele escreve; Mais uma vez a escrita como um dos mecanismos de superação.

A narrativa conta a história de um menino que perdeu a sua mãe – pelo que parece – muito cedo, e teve que conviver de forma dolorosa com a ausência dessa figura. Em seu lugar, o garoto e seus vários irmãos têm a madrasta, que nem de longe lembra o carinho materno. O pai era alcoólatra, e não dava a devida atenção as suas crianças, deixando-os entregues a sorte. A linguagem do texto é delicada e metafórica, pois a cada fatia de tomate cortada era como se uma decapitação tivesse sendo feita. Os símbolos são recursos dotados de muita significação. E em alguns momentos nos sentimos presos e muito angustiados diante do que estamos lendo. Como podemos observar no fragmento abaixo, a dor é um dos sentimentos que norteará a escrita:

“É preciso muito bem esquecer para experimentar a alegria de novamente lembrar-se. Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles. E a palavra – basta uma só palavra – é flecha para sangrar o abstrato morto. Há, contudo, dores que a palavra não esgota ao dizê-las.” (16-17)

Além dessa incansável sensação de abandono e profunda saudade de uma infância que estaria cheia de possibilidades – se não fosse à má sorte – o desencanto toma conta da narrativa. Em vários momentos percebemos um Bartolomeu incrédulo diante da vida e das próprias relações pessoais, como se o seu sofrimento fosse maior que tudo. Porém há uma esperança: a escrita e seu poder imaginativo para criação. As palavras salvam.

 No vídeo abaixo podemos ter uma prévia do que acontece de fato quando o autor se propõe a construir personagens e enredos, para poder dar conta de um universo dentro e fora dele:

   

Engano reconhecido, por Louise Bastos

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         Querido amigo, ao ler sua carta, mesmo que não escrita diretamente a mim, senti uma imensa vontade de te responder e dividir contigo as minhas angústias também.
         Não sou evangélica, católica ou nenhuma denominação conhecida, porém sou fundamentalista. Mas antes que você se assuste e pense que por algum motivo quero que você se converta a alguma coisa ou mesmo queira você longe de mim, deixe-me explicar:
         Nasci e fui criada em uma família fundamentalista, e assim como sobrenome, isso é algo que a gente carrega, pelo menos foi o que me ensinaram. Desde pequena me ensinaram que não devemos respeitar o direito do outro, que não devemos considerar uma opinião que não seja parecida com a nossa, assim como me ensinaram, caro amigo, que todos os gays vão queimar no inferno. Pois se Deus (todo poderoso e sábio) fez o homem e a mulher, como pode um homem gostar de outro homem, não é mesmo? E uma mulher que não vai servir a um marido e procriar... impensável!
         Porém, de uns tempos pra cá, mesmo sendo fundamentalista, me peguei um pouco confusa: se Deus fez o homem e a mulher, não seria esse mesmo Deus que permitiu ou nos deu um tal de Livre Arbítrio? Aliás, essa matéria é sempre muito pouco explicada, e em alguns casos os nossos orientadores espirituais dizem que é um ledo engano. Imagine se Deus ia nos dar tal liberdade!? Já ouvi muito disso por aqui.
         Agora quanto ao muro que você falou, eu faço parte do outro lado, mas nunca me perguntaram, assim como até agora eu não tinha me tocado, confesso, que estávamos em lados opostos. Nem sabia que tínhamos que escolher em que lado ficar. Inclusive no outro dia ouvi falar que vocês eram um dos responsáveis por não haver paz mundial. É verdade? E como vocês conseguem? Porque confesso que fiquei intrigada. Assim como outros religiosos afirmam que se vocês quiserem acordar no dia seguinte héteros, vocês conseguem, é verdade também? Por que se for, eu como hétero não saberia como deixar de ser, por exemplo. 
         Espero que nossa conversa tenha sido proveitosa pra você, porque pra mim foi muito boa, me fez refletir. Ainda tenho algumas questões: como o fato de uma cor também ser uma questão de azar e a outra de sorte, ouvi isso no outro dia, mas podemos conversar mais pra frente. Mas uma coisa é certa: da minha parte não tem guerra, pois realmente deve ser tudo um engano...
Carta resposta à: "Houve um Engano", por Camilo Martins






Dia 18 de fevereiro de 2013: eis que me encontro na Rodoviária Novo Rio (um dos lugares que mais amo, por sinal!), em uma espera ansiosa pelo ônibus das 23:57,  a caminho de Barbacena....
Eu sei que pode parecer um pouco estranho, e de repente você está se perguntando o que tem essa cidade de tão especial, acertei? Pois bem. Para mim ela abrigou um espaço de muita dor e sofrimento que hoje pode ser lembrado pelo Museu da Loucura, que fica localizado no antigo hospício.
Eu posso estar sendo um pouco repetitiva ao levantar novamente essa questão da loucura, mas esse tema definitivamente me causa um tipo de arrebatamento que não sei explicar. Acredito que por ser algo tão distinto de nossa realidade, de minha realidade, é algo que não sabemos ao certo o que é, e nem como definir exatamente. Seria o outro lado da moeda. Ou um medo de olhar para o espelho e considerar a possibilidade de um dia nos depararmos com algo assustador: nós mesmos. A loucura ao mesmo tempo em que fascina causa aversão, e ninguém está 100% seguro quando o assunto é a mente.
Por conta da “alienação” ser considerada um lado avesso da vida “normal”, pacientes de todas as partes eram abandonados em Barbacena, chegando às dezenas nos “trens de doidos”, que até hoje é lembrado pela população local, como pude constatar. Sem estrutura para receber sua crescente população, o Hospital Colônia se transformou em um verdadeiro depósito de rejeitados. Calcula-se que mais de 60 mil pessoas morreram ali. Todos aqueles que incomodavam a sociedade eram jogados para aquele espaço que oficialmente estava relacionado à cura. Tornou-se um verdadeiro “Cemitério dos vivos”, como diria Lima Barreto.

Para preservar e defender a memória e a história da cidade e de todos aqueles condenados à exclusão, foi inaugurado no dia 16 de Agosto de 1996 o Museu da Loucura. No antigo Hospital Colônia de Barbacena, hoje totalmente restaurado e adaptado para finalidades culturais, é contada uma história de quase um século de sofrimentos e estigmas. Através de objetos, documentos, fotografias e sons, o Museu nada mais é que um tributo às dezenas de vítimas do lendário Hospital.
E conhecer um local como esse para mim foi algo fora do comum, pois vendo aquelas imagens eu pude perceber que realmente muito sofrimento e muitas injustiças foram cometidas em prol de um “bem maior”. E a partir disso pude me perceber de outra forma, me reencontrar com a minha própria existência, ou pelo menos parte dela.









"O que é a solidão? É viver sem obsessões. Mas na vida às vezes a gente tem que escolher entre esmurrar a ponta de uma faca ou se deixar queimar no fogo." (LEÃO, 2008, p. 51).

Apresentar um autor pouco conhecido é sempre uma tarefa muito árdua, se não um pouco delicada. Quando se trata de um nome conhecido e (re) conhecido do grande público – aliás, quem é esse grande público? – é mais fácil. Pois, apenas ao pronunciar o nome do escritor, o leitor já faz uma ideia do que pensar. Porém, ao anunciarmos um nome como o de Rodrigo de Souza Leão, gera-se um estranhamento. Quem é tal escritor?  O que ele tem para nos oferecer?
Como Rodrigo conseguiu criar mecanismos para que pudesse sobreviver pela sua escrita? Quais os meios de comunicação que fizeram com que novo escritor publicasse e não ficasse apenas nos blogs? Atualmente vivemos em uma época que muitos autores começam escrevendo em sites para que em seguida, às vezes num curto espaço de tempo, publiquem de fato. O escritor contemporâneo parece estar motivado por uma grande urgência em se relacionar com a realidade histórica, estando consciente, entretanto, da impossibilidade de captá-la na sua especificidade atual, em seu presente.
As novas tecnologias oferecem caminhos inéditos para esses esforços, de maneira particular, com os blogs, que facilitam a divulgação dos textos, driblando os mecanismos do mercado tradicional do livro. Apesar de ser esse o grande objetivo dos escritores: ter sua obra impressa, publicada e bem distribuída.
No mercado brasileiro, surgiu, nos últimos anos, outro fenômeno que, em intenso diálogo com as novas formas de realismo, coloca o contato com a realidade atual brasileira como foco principal. Trata-se aqui, de uma literatura que, sem abrir mão da verve comercial, procura refletir os aspectos mais inumanos e marginalizados da realidade social brasileira; nesse caso, um autor estigmatizado como esquizofrênico.
Rodrigo nasceu no Rio de Janeiro, em 4 de Novembro 1965. Formou-se em jornalismo, foi músico e escreveu vários livros. Também publicou e-books de poesia, dez no total. Seu livro Todos os cachorros são azuis ficou entre os 50 finalistas na edição de 2009 do prêmio Portugal Telecom. A internet era um veículo poderoso para o escritor, que colaborou em diversas revistas eletrônicas, além de possuir um blog, mantido até as vésperas da sua morte, por parada cardíaca, em 2 de julho de 2009.