Arte-Loucura

 
 Após meu último texto, uma amiga questionou certas coisas sobre os limites da arte e a formação dos artistas. Essas questões despertaram em mim uma vontade de discutir sobre a relação entre loucura e arte. Tentar entender, na verdade.
Para iniciar essa discussão, cabe a mim uma posição muito difícil, a de tentar nortear algumas funções da arte. Por medo e incapacidade vou tentar falar de apenas uma, que para mim, é a mais importante.
Se usarmos a imagem clichê, mas muito eficaz, da arte como ponte, elo, link; talvez possamos chegar a algum lugar. Quando digo que vejo a arte como uma ponte que permeia mundos, que os conectam e nos dá a visão deles, atribuo ao artista a construção dessa estrutura portal. É pensando como Da Vinci que vejo a arte como algo mental, complexo, de acesso indefinido e de uma estrutura sólida.
Construir esse caminho, por mais que ele não dure ou se multiplique, é um trabalho que leva tempo, suor, e, não raras vezes dor. Portanto, penso que aqueles ditos loucos não fazem arte e sim algo maior. Não vejo como preconceito meu, mas como uma tentativa de discutir um possível erro de conceito. Será que a expressão dos loucos não seria uma outra coisa?
Quando o artista monta sua obra, a pensa, a estuda, projeta sua exibição, sua forma, cor, etc, mesmo sendo influenciado por uma intuição, ou sendo ele mal formado (no sentido acadêmico da coisa), sua arte ganha uma estrutura minimamente pensada ou intelectualizada. Como disse antes, ele nos dá a visão de um mundo outro, e essa visão é proposta pelo artista para que o público veja.
 Penso que talvez, para a maioria dos loucos, o público não importe tanto e nem essa visão, esse acesso. O louco traduz esses ambientes fora do real de uma forma mais crua. Os deixa livres. Faz isso para se livrar deles, se curar, pela necessidade de respiro desse universo, e, provavelmente, por mais uma dúzia de motivos desconhecidos.
Portanto, é vendo a arte como universal e acessível, que digo que a loucura não faz parte da arte, mas o contrário; a arte sim, rouba, copia e cola coisas que aprende na loucura, assim como faz com tudo que existe. Mas será que a loucura faz arte?
Entendo que é um assunto muito delicado e nem me sinto confortável o bastante para falar sobre isso ou dizer que sei do que estou falando. Mas penso que é através desse desconforto que eu tento procurar respostas para essas questões que parecem ser eternas. 

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