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Ao Mestre Com Carinho


            Lembro-me da primeira vez em que conheci o Bandeira. Fui levado ao ateliê dele por uma amiga, para ver se existia para mim, um buraquinho em uma de suas turmas.  Isso deve fazer uns dois anos e eu não conhecia direito o trabalho do Bandeira, só ouvia falar de como ele era genial. Obviamente não tinha nenhuma vaga para mim, eu deveria esperar o telefonema do mestre se por acaso, um dia, alguém deixasse uma vaga ociosa.
            Dizem que as pessoas mais velhas costumam ter um olhar gentil, calmo, tranquilo. Não vi isso no Bandeira e até hoje não vejo. Eu via sede em seus olhos, agitação, algo fervia nele; não vejo isso em mais ninguém. Era como se ele estivesse animado em ver um aluno novo, louco de vontade de passar tudo que ele sabia. Bandeira está sempre com suas turmas lotadas, e por mais que pensem que por isso ele deve estar cansado, ele mantém essa mesma animação no olhar quando vê alguém novo.
            Bandeira é um professor-pintor que não ensina apenas o seu oficio, mas como se apaixonar pelo mesmo. Talvez por ser uma pessoa muito racional não consiga ver a emoção que passa pros seus alunos. Não é a toa que ele diz que o desenho acontece no olhar; e é o olhar dele que nos motiva a continuar desenhando.
            Por vezes engraçado e até mesmo muito crítico me divirto com seus comentários anti-arte-contemporânea-comercial(izada)-conceitual-demais. Ele mantém seu corpo e seu espaço em uma outra época; não uma do passado, do presente ou do futuro, apenas outra. Alguns já tentaram entender esse espaço comparando seu atelier com o filme Meia Noite em Paris, de tão anacrônicas que as pessoas se sentem ali.
            Bandeira sustenta um método antigo de fazer arte, quase morto. Por isso que o enxergamos esse fazer arte como uma relíquia. Não sei se mesmo admirando eu concorde com tudo que ele diz (acho até que ele não gostaria disso), mas com o Bandeira é muito gostoso discordar, chega a ser divertido. Acho que ele se reconhece como mestre, mas não se preocupa se o seguem ou iniciam uma corrida para supera-lo, ele se mostra apenas disponível e atento.
            Já não vejo mais o Bandeira como um professor, mas como um guia. Com ele, não me preocupo mais com erros e acertos. Pode ser ilusão minha vê-lo como algo eterno, mas eu sinto toda vez que ponho o grafite no papel, que assim que eu errar, ele vai estar bem do lado dizendo: “Você precisa aprender a ver, Camilo...aprender a ver...”

da Caravggio



            Ele matou pelo menos cinco pessoas, sendo que uma delas, matou duas ou três vezes. Caravaggio nasceu na Itália em 1571, no Ducado de Milão. Seu nascimento se deu sete anos após a morte de outro artista do qual ele recebeu o mesmo nome: Michelangelo.
            Nos diversos registros existentes é possível encontrar essa faceta assassina de Caravaggio. Talvez vocês só encontrem um único assassinato cometido por ele, mas eu gostaria de falar dos outros que não aparecem, e provar que esse artista genial se deliciava com decapitações.
            Michelangelo Merisi da Caravaggio, além de matar Ranuccio Tomassoni, decapitou pelo menos duas vezes o gigante Golias, uma vez Holofernes, uma vez a famosa Medusa e também São João Batista. É interessante olharmos para essa série de decapitações em especial, para tentar entender essa relação de agonia e prazer entre Caravaggio e a morte. Uma relação que ao mesmo tempo em que visava purgar os pecados do artista, que era usada para assumir seus crimes; também foi a relação que afirmou um espírito assassino e a predileção do mesmo pelo horror.
            Talvez Caravaggio estivesse usando essa sua atração pela morte e pela violência, como um meio de evidenciar essa mesma atração no coração de todo ser humano. Quando olhamos Judite e Holofernes, de 1599, é importante fazer uma pergunta: O que me incomoda mais: o fato de um homem ter a cabeça cortada na minha frente, ou o sangue dele acabar espirrando em mim acidentalmente? Eu não consigo responder essa pergunta, mas tenho certeza de que Judite está cortando a cabeça de Holofernes com todo o cuidado possível para que não caia sangue algum em sua pele. A bela Judite tem nojo e prazer ao cortar a cabeça do condenado. Percebe-se essa mistura de sentimentos quando paramos de observar sua expressão de nojo, para olhar logo abaixo, seus mamilos duros, marcando sua blusa. A velha assistente de Judite pode estar um pouco nervosa, mas a jovem moça está bem tranquila realizando seu desejo.
            Quando eu digo que Caravaggio matou todas essas personagens que estão representadas em seus quadros, eu quero tentar desmistificar essa ideia de que Caravaggio pintava incrivelmente bem, fazendo com que a luz e a sombra criassem um cenário teatral. É óbvio que ele pintava muito bem, mas acho que ele não se preocupava com a teatralização da imagem, mas com a tentativa de torna-la tão real ao ponto de sentir que era ele o carrasco.
            Quando o estudioso Simon Schama nos apresenta um artista que mata a Morte, como no quadro Cabeça de Medusa de 1598, podemos adentrar um pouco mais esse pensamento circular que é a mente de Caravaggio. Porque por mais confuso que pareça, o raciocínio desse artista é bem estruturado e até mesmo irônico. Pois quem, se não ele, para matar aquela que a todos matava? Antes que o chamem de arrogante por decidir o fim da própria Morte, Caravaggio nos mostrou a eternidade da mesma, declarando um detalhe simples: mesmo morta, a Medusa, com seu olhar, continuará matando. Talvez seja através dessa compreensão do ofício da Morte que ele, no ano seguinte, pinta Judite e Holofernes.
            Em 1605/6 ele pinta Davi com a Cabeça de Golias, um quadro misterioso onde ele mesmo se decapita. Caravaggio é a cabeça do gigante cruel nesse quadro. Anos após se declarar assassino pelos braços de Judite. Será que ele aceita as acusações? Aquelas acusações de que ele é realmente um homicida cruel e louco. Não é a toa que esse quadro é pintado na mesma época em que ele mata Ranuccio em uma das suas “diversões” com sua turma.
            Simon Schama vê essa decapitação de Golias como o maior pedido de desculpas feito por Caravaggio. Isso porque o quadro chega às mãos de Scipione Borghese após a morte do artista. Essa obra deveria ter chegado antes da morte de Caravaggio, já que fazia parte de um acordo entre ele e o Cardeal Scipione Borghese que tinha como objetivo livrar o artista das acusações de ter matado Ranuccio. A cabeça de Caravaggio estava posta a prêmio. É por uma brincadeira do destino que a cabeça dele, chega às mãos do cardeal depois de sua morte. Ele não só pede perdão, como se entrega, mostra-se frágil e destruído na imagem de Golias.
            Eu penso um pouco diferente quanto essa necessidade de pedir perdão de Caravaggio. Não creio que alguém como ele tenha se preocupado tanto com essas desculpas. Acho que ele procurava o próprio perdão, algo que viesse de dentro do Deus dele. Não é a toa que durante sua curta passagem pela ordem de São João, ele pinta A Decapitação de São João Batista. Um quadro grandioso e diferente de todas as outras decapitações feitas por ele. A maior cena de suspense da história. João Batista está deitado morto no chão, sua cabeça ainda junto ao corpo, esguicha sangue enquanto espera o carrasco retira-la para por na bandeja de prata de Salomé.
            Dessa vez, ninguém parece nervoso, impassível ou em êxtase. As pessoas estão tristes, confusas e tentam cumprir as ordens à risca para não ter que pensar muito. Acho que Caravaggio também ficou confuso, talvez ele tenha se sentido pela primeira vez, desconfortável com a morte, menos íntimo dela. Com dúvida e culpa, ele assina seu nome no sangue do santo, pede o perdão de Batista, de Deus, dele mesmo. Tenta se limpar com o mesmo sangue que tanto usou.
            Evidenciar o horror nas obras de Caravaggio é uma tarefa simples que qualquer um faz ao olhar para seus quadros que tratam desse assunto. Difícil é entender onde começou, e se um dia terminou essa estreita relação que ele tinha com a Morte e seus comparsas. 

Arte-Loucura

 
 Após meu último texto, uma amiga questionou certas coisas sobre os limites da arte e a formação dos artistas. Essas questões despertaram em mim uma vontade de discutir sobre a relação entre loucura e arte. Tentar entender, na verdade.
Para iniciar essa discussão, cabe a mim uma posição muito difícil, a de tentar nortear algumas funções da arte. Por medo e incapacidade vou tentar falar de apenas uma, que para mim, é a mais importante.
Se usarmos a imagem clichê, mas muito eficaz, da arte como ponte, elo, link; talvez possamos chegar a algum lugar. Quando digo que vejo a arte como uma ponte que permeia mundos, que os conectam e nos dá a visão deles, atribuo ao artista a construção dessa estrutura portal. É pensando como Da Vinci que vejo a arte como algo mental, complexo, de acesso indefinido e de uma estrutura sólida.
Construir esse caminho, por mais que ele não dure ou se multiplique, é um trabalho que leva tempo, suor, e, não raras vezes dor. Portanto, penso que aqueles ditos loucos não fazem arte e sim algo maior. Não vejo como preconceito meu, mas como uma tentativa de discutir um possível erro de conceito. Será que a expressão dos loucos não seria uma outra coisa?
Quando o artista monta sua obra, a pensa, a estuda, projeta sua exibição, sua forma, cor, etc, mesmo sendo influenciado por uma intuição, ou sendo ele mal formado (no sentido acadêmico da coisa), sua arte ganha uma estrutura minimamente pensada ou intelectualizada. Como disse antes, ele nos dá a visão de um mundo outro, e essa visão é proposta pelo artista para que o público veja.
 Penso que talvez, para a maioria dos loucos, o público não importe tanto e nem essa visão, esse acesso. O louco traduz esses ambientes fora do real de uma forma mais crua. Os deixa livres. Faz isso para se livrar deles, se curar, pela necessidade de respiro desse universo, e, provavelmente, por mais uma dúzia de motivos desconhecidos.
Portanto, é vendo a arte como universal e acessível, que digo que a loucura não faz parte da arte, mas o contrário; a arte sim, rouba, copia e cola coisas que aprende na loucura, assim como faz com tudo que existe. Mas será que a loucura faz arte?
Entendo que é um assunto muito delicado e nem me sinto confortável o bastante para falar sobre isso ou dizer que sei do que estou falando. Mas penso que é através desse desconforto que eu tento procurar respostas para essas questões que parecem ser eternas. 

Quando a Cor Deprime



            Você provavelmente deve ter uma capa de celular dele, ou uma mala de viagem, talvez um jogo de cartas ou até mesmo um vestido. Estou falando do mundialmente conhecido Romero Britto. O brasileiro de 49 anos que produz uma série de imagens bem coloridas e estilizadas.
            Britto se confessa um artista inspirado pelo Cubismo e a Pop Art. Mesmo eu não gostando muito do movimento que foi a Pop Art, sou solidário à dor que Warhol estaria sentindo caso acompanhasse as pobres produções de Romero Britto “inspiradas” em seu trabalho.
            Não podemos negar que hoje em dia Romero Britto é realmente pop; só acho triste termos alguém como ele sendo chamado de artista. Não só pela pobreza da técnica e dos símbolos que formam os seus quadros, mas pelo completo vazio que existe entre o espectador e sua obra. Vazio esse que deveria ser preenchido por conceitos, discussões, sentidos, emoções.
            Britto diz que sua obra fala sobre a alegria de viver, por isso ele trabalha sempre com cores “alegres” e com formas “felizes”, como gatinhos, coraçõezinhos, solzinhos, marezinhos, florzinhas, eteceterazinho. E não me sinto nem um pouco constrangido em dizer que essa série de “zinhos” mais parece uma decoração para creches e capas de livros de autoajuda. Pobres crianças! Infelizmente, por mais arrogante que pareça, não consigo confiar, gostar ou sentir qualquer outra coisa produtiva frente a uma representação da alegria composta por clichês mal construídos, mal “coloridos”.
            Como podemos comprar um quadro de um cara que diz odiar Caravaggio? “Não gosto por causa da violência extrema. As obras dele sempre retratam pessoas torturadas e gente cortando a garganta umas das outras.” É uma declaração que evidencia buracos enormes na formação de Romero Britto enquanto “artista”. Fica claro que ele não tem a devida noção de arte e conhecimento das questões, discussões e descobertas fundamentais para o mundo que pessoas, como Caravaggio, fizeram. Ou pior, se tem essa noção, ele simplesmente a ignora e a descarta da mesma forma que faz com o valor das cores quando as usa em seus quadros. Essa alegria de viver que ele diz perseguir para fugir dessas “pessoas torturadas” me mostra um pensamento fraco diante das discussões importantes que a arte nos leva, as questões políticas e existenciais. Arte não é um conto de fadas.
            Por sorte, ou só para deixar ainda pior, Romero Britto gosta de Matisse, dizendo que ama suas cores e sua alegria de viver. Alguns podem considerar como um elogio meio raso, mas eu vejo como extremamente agressivo reduzir Matisse, ou qualquer contemporâneo do mesmo, à “alegria de viver”.
            Esse texto, um pouco revoltado e talvez bem arrogante, é uma tentativa de dar o devido respeito aos artistas de verdade; aos que morreram e aos que ainda vivem. Que se mantém discutindo, se empenhando e se rasgando para produzir coisas que façam mais sentido impressas em nossas almas do que em nossos celulares.
            PS: Esse texto não terá nenhuma imagem da obra do Romero Britto, não consigo olhar muito tempo para elas. Por isso decidi ilustra-lo com Caravaggio, quem realmente sabia o que estava fazendo. Judite e Holofernes-1599-óleo sobre tela.

Última Parada 170 e o Porquê das Cotas

                                                                                                                                                               foto: Karsan Haval

Eu extremamente cansado e de mau humor em uma sexta feira comum, tendo que ir à rodoviária para subir a Serra. O humor só piora quando descubro que não iria de táxi até a rodoviária (mania absurda de besta essa); teria de pegar o 170.

De mochila nas costas pego o ônibus no Flamengo. Do nada o ônibus para no Largo do Machado. Passam-se uns minutos e as pessoas começam a se irritar com o “piloto” –Vambora, piloto! Tá quente aqui.

Eu reparo a polícia do lado de fora e começo a entender a situação – A mulher foi assaltada dentro do ônibus; eu digo para a jovem histérica que passava mal com o calor.

Todo mundo se cala ao entender a história, a polícia entra por trás e pergunta à vítima do assalto –É esse aqui? Antes de ouvir a afirmação dela eu me viro para dizer ao acusado que ele tinha o direito de se recusar à revista, mas me calo.

Me calo porque o garoto é curiosamente negro, visivelmente pobre e muito assustado. Me calo porque quem o revista é um policial ainda mais negro. Me calo ao perceber que obviamente o celular da senhora não está com ele.

E é calado que começo a chorar de ódio daquela mulher e de toda uma parcela calhorda da sociedade que ela representa quando diz: “Na verdade eu suspeitava de um senhor, mas ele já saiu. Era ele quem estava do meu lado.”

Lê-se em letras neon e garrafais na testa da mulher: “NA DÚVIDA ACUSE O POBRE, O PRETO, O INFERIOR". Parafraseando Ferreira Gullar, infelizmente essa mulher é brasileira que nem eu.

Depois desse curta-horror os passageiros soltam algumas frases de deboche à mulher. Ela, inferiormente superior, as ignora. 

Não estou escrevendo isso como crítica, justificativa ou coisa parecida, mas como um relato-desculpa. Me dirijo ao menino revistado nesse momento para pedir perdão por ter me calado, por não ter me indignado, por não ter a capacidade de mudar, pelo menos, a cabeça daquela senhora.

Não posso te prometer que isso não irá acontecer novamente, menino. Porque sabemos que vai. Se não com você, com o seu vizinho, com a sua mãe ou com o meu irmão; com todos aqueles desafortunados e amaldiçoados com a marca da pobreza e da pele negra. Só que diferentemente do pensamento de certos pastores-deputados, essa maldição não vem de Deus, mas de quem o inventou: o homem. 

Mesmo que isso tudo se repita e se perpetue, nas próximas seiscentas vezes eu vou me virar e gritar qualquer coisa que possa ajudar nessa luta da qual todos nós fazemos parte, mas que insistimos em ignorar. 

Mil perdões pelo silêncio.
Um grande abraço.

Retornamos Com Saúde

                                                                                                                                                                           foto: Karsan Haval

Há dois meses que o Brasil criou uma fábrica de polêmicas (essa frase deve ser polêmica). Tudo virou motivo de revoltas e de soluções extremas. Não querendo polemizar demais o que já foi alvo de todas as discussões possíveis, eu gostaria de falar   sobre uma bomba, a que estourou essa semana em cima da classe médica. 

Nossos médicos se mostraram desde o início contra o programa do governo “Mais Médicos”, e apesar de achar os ataques infundados, nunca pensei que a categoria fosse chegar ao ponto de ignorar sua mais importante vocação: a humanidade. É inaceitável o comportamento que alguns médicos brasileiros tiveram na ocasião da chegada dos médicos cubanos, reagindo com vaias e comentários racistas.

Não vou nem entrar no mérito de que o povo brasileiro é um povo muito caloroso, nem, que é um absurdo, logo nós, vaiarmos nossos amigos cubanos, mas sim questionar porque um povo colonizado, constituído por maioria negra se mostra tão racista. Ainda pior que esse racismo é a hipocrisia de uns que dizem se preocupar com algum tipo de escravidão que os cubanos possam sofrer pelo “Mais Médicos”.  E porque aqueles dentre nós que se formaram em medicina, e se dizem médicos, se voltam contra os que vêm aqui em busca de emprego, com o intuito de tapar os enormes buracos que a nossa saúde deixa nas cidades onde pessoas ainda morrem de doenças simples, como sarampo, disenteria, verminose, etc.

Nosso sistema de saúde é realmente muito falho, mas penso que não ajuda muito rebater as poucas propostas promissoras que visam à melhoria desse sistema. A nossa classe médi(c)a é no geral muito elitizada e muito preconceituosa e quer atingir um nível socioeconômico que não inclua a classe pobre. É engraçado e assustador pensar em uma classe tão opressora quanto essa nossa elite, mas ela existe e não se  conforma com o espaço e direitos que as minorias vem ganhando.

Mesmo com o esvaziar das manifestações, a equipe do Manifesto retorna com um olhar voltado para a movimentação das cidades e às discussões sobre as mais diversas pautas, como saúde, educação, mobilidade urbana e etc. Nesse sentido, pedimos desculpas pelo sumiço, na verdade, só demos uma pausa porque engasgamos com a quantidade de coisas para falar. 

Amor de Infância, por Camilo Martins









 “Camilo, eu vou sair do hospital bem rapidinho. Eu vou na sua casa pra gente brincar. Ass: Guilhermo”

        Guilhermo saiu do hospital morto, nunca brincou em minha casa e eu nunca mais ouvi sua voz.
      Nós tínhamos cinco ou quatro anos, dois moleques bagunceiros que gostavam das mesmas coisas e dividiam as mesmas namoradas na creche. Governávamos o pátio do recreio, vivíamos grudados e estávamos no inicio do aprendizado sobre ciúmes. 
        Quando Gui Gui ficou doente meu pai, muito sem jeito, me levou para visita-lo. Antes de entrarmos no quarto, ele virou e disse: “Filho, o Gui Gui tá muito dodói, tá usando roupa de hospital e por conta do tratamento ele ficou carequinha. Então não fica reparando e nem comentando isso, tá bom?” Mas crianças se entendem e não precisam desse código de etiqueta que os adultos inventaram. Fora que a saudade que eu tinha do Gui Gui era tão grande que não conseguia nem pensar no estado dele. 
        O sol estava bonito naquela tarde e fazia todas as pedrinhas místicas na janela brilharem. Guilhermo me explicou para que cada uma servia, e até hoje penso que foi com ele que começou a minha paixão pelo universo oculto, místico. 
        Quando ele morreu ficaram, de muitas, três lembranças bem marcadas na minha cabeça: a do marcador de livros com o recadinho de que ele melhoraria, a visita ao hospital e da sua casa vazia, sem ele, sem sol.
        Essa última lembrança da casa eu até hoje não sei dizer se foi um sonho, mas lembro de mim sozinho andando pela casa, pela beira da piscina, em frente à escadaria... Lembro de um dia muito nublado, muito silencioso, muito triste. Não tinha Gui Gui na casa e eu também não o procurava, só tentava lembrar e guardar lembranças. 
        Gui Gui morreu como meu primeiro amor. Talvez até comentem: “Nossa, você se descobriu gay cedo né?” Não sei dizer. Eu descobri o amor muito cedo, aquele amor bonito de criança. Nós não víamos necessidade em nos classificar e nem dar nomes pra relação, a gente vivia junto, só isso. Me descobri também muito homem por ver, sentir e encarar aquela morte da forma que encarei. 
        Confesso sentir saudades até hoje do Gui Gui, mesmo depois de Leonardos, Edsons, Murillos, Fernandos, Gustavos e um Caio. Sinto saudades da imagem que guardei dele, daquele menino que estava sempre do meu lado, que me queria sempre em sua casa e que não pensava em nada que não me incluísse. 
Talvez Gui Gui seja hoje um anjinho que me cerca, um cupido ciumento que só permite poucos namoros em minha vida.
        Espero que depois que ele “melhorou” e saiu do hospital ele tenha ido à minha casa e brincado muito comigo enquanto eu pensava estar sozinho. E espero que além de estar me observando, ele também esteja aguardando o dia em que eu vá retribuir a visita.


Houve Um Engano, por Camilo Martins




     Caros amigos evangélicos, protestantes e fundamentalistas; estou escrevendo para vocês no dia de hoje para pedir ajuda, para contar uma história. 
     Quando Deus criou o céu, a Terra, a flor e a gente, ele criou para que todos esses quatro elementos vivessem juntos, em harmonia, em vida. Peço a licença para lembrar esse fato um pouco óbvio e que é do conhecimento de todos vocês, lidos, letrados e talentosos. 
     Andando por aí esses dias, ouvindo algumas falas de pessoas que vocês elegeram como representantes, vendo algumas imagens de pessoas mortas pelo simples fato delas serem o que hoje chamamos de homossexuais; eu pensei: “Deve ser bobeira minha, essas coisas não estão acontecendo.”. Foi justo no momento em que pensei nisso que dei de cara com um portão enorme, grandão mesmo. Nesse portão, trancado, encontrava-se a seguinte frase: “Em nome de Deus”. Eu confesso que fiquei muito assustado e quando olhei ao meu redor todos vocês, amigos religiosos, tinham sumido.
     Meio tonto e bem confuso eu resolvi sentar em frente ao portão. Nisso passa um amigo meu e me diz que vocês construíram esse portão, construíram um novo Deus e uma nova lei, separando o mundo. O mundo desde então está assim: Gays para um lado e religiosos para o outro. Tem gente me falando que é uma guerra, que é um combate, que é injustiça... Eu sinceramente não quero acreditar nisso, eu estou acreditando que é só um engano, que vocês só pensam diferente e por acaso essa muralha apareceu. Afinal, Deus não nos fez juntos? Iguais? Vocês sabem disso, não é? Quer dizer, vocês estudam isso todos os dias, muito mais que eu. 
     Eu não estou aqui para criar intrigas nem nada, mas vocês acreditam que me falaram que estão matando gays em nome de Deus? Sabia que falam por aí que seus representantes nos puseram como marginais? E coisas ainda pior, puseram os marginais como “seres impossíveis de se amar da mesma forma que amamos os homens”. Me desculpem por falar tudo isso, mas foi culpa desse portão, dessa murada nebulosa e fantasmagórica que surgiu. As pessoas não param de falar que vocês fazem coisas absurdas em nome de Deus, em nome do nosso Deus.
     Se nos interpretaram como guerra, por favor, nos perdoem, nós ainda somos amigos, irmãos, filhos da mesma estrela, criação da mesma força. Se o portão é de vocês, por favor, o esqueçam e voltem pra gente, estamos tristes, sozinhos e com saudades. 
     Em nome de Deus, abram essa porta. 


Posso não falar de coisa boa? Posso falar de dor, de morte? Porque eu não estou com cabeça pra falar de outra coisa que não seja morte, que não seja sobre a santa suja de sangue. Uma certa Santa Maria que virou demônio, sombra, falso milagre.

Já faz uns dias que Santa Maria viu queimar mais de duzentas pessoas. Nem tem uma semana direito... Tudo parece pouco e pequeno diante de tanta dor. E quando eu digo dor, eu quero falar de toda a dor; a dor dos pais das vítimas, a dor da carne queimando, a dor do pisoteamento desesperado, a dor do sufocamento, a dor de sobreviver. A boate virou um campo de sacrifício humano para a Santa Deusa Maria; um inferno. 

O interessante em tudo isso é que percebi que não existe nada mais terrivelmente solidário que a morte. Sabe a corrente do bem? A Morte age da mesma forma; ela mata um, esse um mata outro, que mata outro... Por isso que alguns pais se mataram, pensam em se matar. Por conta dessa força encantadora que faz da Morte a melhor dos profissionais.

O que me incomoda agora não é mais a quantidade de mortes, mas a quantidade de sobreviventes, a quantidade de dor que todos os que foram e os que um dia irão estão sentindo.
Não sei dizer palavras nem imagens diante dessas mortes. Não sei encarar esse país, esse mundo, essa gente que mata e deixa matar. 

Minha religião e todas as outras no mundo explicam essa Santa (com nome de virgem) de uma forma muito única e às vezes até bonita. Eu não quero explicar nada e sinceramente, não quero explicações. Eu quero chorar, eu quero doer, para ver se assim divido e alivio o peso daquela gente toda. Gostaria que todos pudessem fazer isso comigo. Não mais rezar, nem acender velas, apenas chorar como forma de oração, como forma de respeito; para entendermos que uma casa de alegrias virou cemitério. 

Carpinejar disse com muita emoção: “Morri em Santa Maria.” E com toda a licença eu digo que ontem, hoje e amanhã, eu sobrevivi em Santa Maria, o que para mim, é muito pior. 

Texto escrito em 07/02/2013, por Camilo Martins.