

Posso não falar de coisa boa? Posso falar de dor, de morte? Porque eu não estou com cabeça pra falar de outra coisa que não seja morte, que não seja sobre a santa suja de sangue. Uma certa Santa Maria que virou demônio, sombra, falso milagre.
Já faz uns dias que Santa Maria viu queimar mais de duzentas pessoas. Nem tem uma semana direito... Tudo parece pouco e pequeno diante de tanta dor. E quando eu digo dor, eu quero falar de toda a dor; a dor dos pais das vítimas, a dor da carne queimando, a dor do pisoteamento desesperado, a dor do sufocamento, a dor de sobreviver. A boate virou um campo de sacrifício humano para a Santa Deusa Maria; um inferno.
O interessante em tudo isso é que percebi que não existe nada mais terrivelmente solidário que a morte. Sabe a corrente do bem? A Morte age da mesma forma; ela mata um, esse um mata outro, que mata outro... Por isso que alguns pais se mataram, pensam em se matar. Por conta dessa força encantadora que faz da Morte a melhor dos profissionais.
O que me incomoda agora não é mais a quantidade de mortes, mas a quantidade de sobreviventes, a quantidade de dor que todos os que foram e os que um dia irão estão sentindo.
Não sei dizer palavras nem imagens diante dessas mortes. Não sei encarar esse país, esse mundo, essa gente que mata e deixa matar.
Minha religião e todas as outras no mundo explicam essa Santa (com nome de virgem) de uma forma muito única e às vezes até bonita. Eu não quero explicar nada e sinceramente, não quero explicações. Eu quero chorar, eu quero doer, para ver se assim divido e alivio o peso daquela gente toda. Gostaria que todos pudessem fazer isso comigo. Não mais rezar, nem acender velas, apenas chorar como forma de oração, como forma de respeito; para entendermos que uma casa de alegrias virou cemitério.
Carpinejar disse com muita emoção: “Morri em Santa Maria.” E com toda a licença eu digo que ontem, hoje e amanhã, eu sobrevivi em Santa Maria, o que para mim, é muito pior.
Texto escrito em 07/02/2013, por Camilo Martins.

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