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Ao Mestre Com Carinho


            Lembro-me da primeira vez em que conheci o Bandeira. Fui levado ao ateliê dele por uma amiga, para ver se existia para mim, um buraquinho em uma de suas turmas.  Isso deve fazer uns dois anos e eu não conhecia direito o trabalho do Bandeira, só ouvia falar de como ele era genial. Obviamente não tinha nenhuma vaga para mim, eu deveria esperar o telefonema do mestre se por acaso, um dia, alguém deixasse uma vaga ociosa.
            Dizem que as pessoas mais velhas costumam ter um olhar gentil, calmo, tranquilo. Não vi isso no Bandeira e até hoje não vejo. Eu via sede em seus olhos, agitação, algo fervia nele; não vejo isso em mais ninguém. Era como se ele estivesse animado em ver um aluno novo, louco de vontade de passar tudo que ele sabia. Bandeira está sempre com suas turmas lotadas, e por mais que pensem que por isso ele deve estar cansado, ele mantém essa mesma animação no olhar quando vê alguém novo.
            Bandeira é um professor-pintor que não ensina apenas o seu oficio, mas como se apaixonar pelo mesmo. Talvez por ser uma pessoa muito racional não consiga ver a emoção que passa pros seus alunos. Não é a toa que ele diz que o desenho acontece no olhar; e é o olhar dele que nos motiva a continuar desenhando.
            Por vezes engraçado e até mesmo muito crítico me divirto com seus comentários anti-arte-contemporânea-comercial(izada)-conceitual-demais. Ele mantém seu corpo e seu espaço em uma outra época; não uma do passado, do presente ou do futuro, apenas outra. Alguns já tentaram entender esse espaço comparando seu atelier com o filme Meia Noite em Paris, de tão anacrônicas que as pessoas se sentem ali.
            Bandeira sustenta um método antigo de fazer arte, quase morto. Por isso que o enxergamos esse fazer arte como uma relíquia. Não sei se mesmo admirando eu concorde com tudo que ele diz (acho até que ele não gostaria disso), mas com o Bandeira é muito gostoso discordar, chega a ser divertido. Acho que ele se reconhece como mestre, mas não se preocupa se o seguem ou iniciam uma corrida para supera-lo, ele se mostra apenas disponível e atento.
            Já não vejo mais o Bandeira como um professor, mas como um guia. Com ele, não me preocupo mais com erros e acertos. Pode ser ilusão minha vê-lo como algo eterno, mas eu sinto toda vez que ponho o grafite no papel, que assim que eu errar, ele vai estar bem do lado dizendo: “Você precisa aprender a ver, Camilo...aprender a ver...”

Somos Todos João Gostoso

“João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barraco sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.” (In: Libertinagem, de Manuel Bandeira)

            Todo poeta seria, no fundo, mentiroso? Ontem, enquanto bebia café e tentava me aquecer, li as notícias do caderno do dia e lembrei que os jornalistas não mentem. Pois, por definição, à prosa cabe o fato e à poesia cabe o sentimento. Então, senti-me sujo e profano - prometendo para mim mesmo, em nome dele, nunca mais sequer pensar em versos.
            Não consegui. Poucos segundos depois de jurar - deixando claro que acho este o mais peculiar dos atos humanos -, vi um garoto a chorar desesperadamente, sem nenhum motivo aparente. Entrei em um êxtase metafísico; senti-me arrebatado pelas lágrimas do guri e precisei escrever. Era preciso dar vazão àquele grito oprimido que eu nem sabia o porquê, mas no fundo, também tornara-se meu.
            Lembrei que havia prometido. E eu, como homem, como ser, ainda que jogado à derrelição, era teu filho e a ti devia respeito. Mas, estava possuído. Era como se eu tivesse nascido para cometer este pecado. E desatei-me em versos. Mas, no fundo, não sabia ao certo o quê escrever. Era preciso motivos, dados, fatos, circunstâncias, horas exatas e a bendita verosimilhança que eu nunca compreendera. Foge de mim, vades retro, como escrever de maneira lógica se, a própria vida, em si, não tem lógica, não faz sentido? Há certas coisas que acontecem e não fazem sentido, e é disso que verdadeiramente a poesia trata.
            E descobri que era esse o meu ofício, o de mentir. Dar sentido, tornar palpável e material, digerível e aparentemente interessante o que no fundo é incompreensível e cotidiano. E que se fossemos ofertar uma vaga de emprego para poeta, a maior qualidade, aquela que diferenciaria todos os candidatos, seria a vileza. É necessário ser vil. E não me refiro à vileza, aqui, como aquele que nos faz mal. Digo vileza como sinônimo de oportunismo. Faz-se necessário olhar a vida com olhos de fome: como se tudo fosse matéria para uma boa poesia.
            Logo, se pensarmos assim,  somos todos poetas, porque todos nós mentimos (até mesmo os jornalistas) sobre os mais diversos temas, beirando muitas vezes a nossa própria condição humana - que é tão questionável quanto a poesia. Somos todos “João Gostoso” e somos todos Manuel Bandeira. À medida que construímos nosso ser, enquanto agentes (em atos, palavras, situações), damos margem ao fazer poético e à medida que existimos, podemos dar forma a tudo isso. E é por isso que a experiência da poesia, seja como autor ou leitor, é tão única e diversa, assim como o fato de existir, seja agindo de fato ou apenas observando o mundo ao redor.
            Por isso que eu digo: é para se ter cuidado com essas pessoas que nos fazem crer no amor, na dor e em todos esses lugares comuns à poesia. É tudo uma mentira tão deliciosa, como aquelas que nos contam nos jornais...

Parem Com o Slut-Shaming

 

            Com toda a polêmica girando ao redor da Miley Cyrus e seu chamado surto, tem ocorrido discussões sérias sobre a quantidade de celebridades que já tiveram algum tipo de reação similar, como Lindsay Lohan ou Britney Spears. Ou até mesmo Marilyn Monroe.
            A exposição midiática pode ser uma arma letal ou uma utilidade, se você souber lidar com todos os custos. As "crianças Disney" sofrem uma exposição precoce ao mundo de Hollywood e, como alguns exemplos mostram, tem consequências drásticas. É difícil lidar. Miley foi Hannah Montana por tanto tempo que talvez essa fosse a forma mais sincera dela se afastar daquilo que já foi. Ou fosse uma reação tardia ao que a mídia faz com seus "brinquedos", ou qualquer outro motivo que ela tenha.
            A grande questão que incomoda é a falta de senso das pessoas em falar disso. A menina não é mais a Hannah Montana. Na verdade, ela nunca foi. A obrigação que ela tem para com seus fãs adolescentes é nula, criada por pais revoltados com a visão que tinham de uma pessoa que nem conhecem sendo modelo de seus filhos. O que a mulher Miley Cyrus faz com a vida dela é problema dela, não de uma filha de alguém que ficará traumatizada com o clipe novo que saiu.
            Não importando se ela está exagerando, saindo do controle ou se perdendo no caminho da exposição extrema, a vida é dela e ela tem direito a escolher o que quiser. Ela, assim como milhares de mulheres que nunca decidiram ser exemplo de nada para ninguém, tem o direito de lamber um martelo em um videoclipe, se assim quiserem.

Sobre ser jovem, inseguro e ainda achar que pode escrever.


            Sobre escrever nem sei tanto, agora sobre reescrever, nossa, que luta. É foda. As ideias começam em um bloquinho maltratado que uso nas aulas ou em um dos três caderninhos que tenho espalhados em cantos estratégicos da minha rotina: um moleskine com uma gravura em estilo
ukiyo-e impressa na capa que deixo no bolso lateral da minha bolsa maior, um bloquinho médio com um poster de “Le Notti di Cabiria” impresso na capa e que fica em cima dos meus DVDs localizados aqui na escrivaninha aonde geralmente escrevo, penso e como, e um terceiro de origem mais pomposa porque foi um presente que um amigo trouxe de Paris com uma gravura do Léonce Burret na capa, por ser menor e no estilo bloco, até me sinto uma jornalista pelo modo rápido que copio o que escuto nele, enquanto ele fica perfeitamente alojado na minha mão. Fora os papéis velhos que uso como rascunho, os caderninhos antigos que dou uma verificada/modificada e os documentos de bloco de notas que salvo com títulos sem pé nem cabeça na minha área de trabalho, são palavras pra tudo quanto é lado e no meio delas, em total desespero, lá estou eu, tentando juntar as ideias que resolveram surgir aos  fragmentos, algumas enquanto eu estava me revirando na cama, outras com a ajuda de algum amigo ou professor durante alguma aula, tête-à-tête de boteco, correria nos transportes públicos, nas imagens ao longo do caminho de casa até o Jardim Botânico.
            Esses dias mesmo, fiquei completamente inspirada quando uma professora afirmou, – com todo aquele gingado que parece vir de brinde com o doutorado – que não existe uma metodologia correta, o que existem são autores que você usa como apoio pra enfrentar os problemas que aparecem. Isso após ela falar de uns três nomes diferentes que abordaram brilhantemente uma mesma questão, enquanto sorria, ela dizia, pra verificarmos incansavelmente, desconfiarmos dos outros e principalmente, do que sai do nosso próprio punho. Senso crítico é como bom senso, faz bem e te deixa bonito na foto.
            Por mais que tenhamos ponderado muito um viés de pensamento ou outro e mesmo o tendo buscado em fontes maravilhosas, precisamos ser críticos em relação a esses nomes muitas vezes imersos em respeito, por um currículo Lattes bem recheado. Precisamos lutar contra o nosso ego de aluno de humanas, ego que nos faz cair na armadilha de achar os comentários alheios infundados ao irem contra os nossos, porque afinal de contas, “somos muito bons no que estamos fazendo”. Ai que geralmente caio. Digo, ao mesmo tempo que necessito de um pouco de convicção no que faço, também preciso de aceitação, mas até aonde essa aceitação é boa para o meu senso crítico? Será que eu percorro o caminho correto ao aceitar tudo que escuto – se é que há um caminho para ser seguido –?

O Grito No Silêncio



            Aos 12 anos assisti, por acaso, um filme sobre um rapaz chamado Matthew Shepard, cuja história foi tão traumática que até hoje não a esqueci. Matthew tinha a idade que tenho hoje, era universitário e inteligente. Um rapaz extremamente comum para sua pequena cidade, se não fosse gay.  O filme começa após a internação em estado grave no hospital local e seus agressores presos. O primeiro choque foi o motivo. Testemunhas declararam que o rapaz em nada importunou os agressores, que retrucaram que ele se insinuara para ambos.
            O rapaz morreu depois de quatro dias internado, com a população dividida entre a barbárie e a revolta. Seus assassinos foram a julgamento, sendo salvos da cadeira elétrica pelos pais do assassinado. Essa cena se repete em tantos lugares que não há palavras que descrevam o horror que a realidade causa.
O Brasil mente em dizer que aceita todos. Aqui, por mais que a mentalidade não seja tão assustadoramente assassina como é em Uganda ou em estados retrógrados dos Estados Unidos, situações de constrangimento, agressão verbal e física as pessoas são frequentes. O motivo: falta de costume. Incômodo pelo diferente. Ignorância.
A solução encontrada pelos ativistas que decidiram colocar a cara à tapas é de simplesmente fazê-los se acostumarem. Um ato poético como um beijaço ou uma intervenção urbana que trouxesse os olhos do espectador para a visão do lutador. A Parada Gay foi o auge da conquista, mas hoje é vista apenas como um carnaval pesado. Não tem feito mais efeito para conscientização.
O medo que tive aos 12 anos ainda existe, assim como as pessoas que causaram esse medo. Mas se o silêncio se mantiver como resposta, nunca existirá o som da mudança.

Vinte e Dois



            - Falta um mês só, como você acertou?
            - É que você tem cara de 22 anos.
            - Sério? Como é a cara dos 22?
            - Fácil de acertar. Acontece que os 22 anos, são os melhores anos.

            Essa é a fila do banheiro do Bar da Cachaça. Setembro. Lua Crescente. Está bem quente e é quase primavera. Ao meu lado, há um homem apoiado no balcão, às vezes chego a me distrair da conversa sobre idades para ouvi-lo papear com um rapaz que nem do rosto lembro mais, eu não dependo de escrever não, ele diz, eu quero fazer algo diferente no mundo, ele diz. Uma danada confusão de idiomas ao meu redor. O calor clamando pelas chuvas de outubro, pelas chuvas que sempre deixam meu aniversário mais desanimado e o meu nariz constipado enquanto eu me vejo aos 10 anos afirmando que vou escrever coisas, assim, sem buscar subterfúgios ou algum plano B. Narrar a minha infância é sempre reviver imagens, que não consigo achar nem diante das fotografias guardadas debaixo da cama em meio ao pó de uma caixa de sapato. Meu aniversário vai ter primavera e lua cheia. Meu aniversário tá perto, mas não tão perto quanto a parede do bar que tem um texto do senhor, que também já não lembro, mas sei que achei uma merda. Uma puta merda. Dizem que sou compreensiva e gentil, mas no fundo é só fachada. Me vejam bêbada. Acho as coisas uma grande bosta e ironizo conselhos, “Quando eu era jovem, eu tinha umas ideias criativas, queria fazer essas coisas criativas, mas a gente tem é que se bancar antes”, uma porção de professores diziam e eu ironizo, “Mas você quer é morrer de fome?”, alguns conhecidos diziam e eu ironizo. I didn't realise you wrote such bloody awful poetry, Mr. Shankly. Gracejo à beça, mas sei que tô cheia de medo afundada em pequenas evasões.

            É estranho perguntar a idade delas enquanto a minha, aparentemente, está sendo exposta em cada fluído que coloco pra fora. Eu tenho 26, Eu tenho 32 e uma mais maquiada com lábios vermelhos ressaltados pelos cabelos mais curtos do que os meus em qualquer uma das minhas fases de cabelos bem curtos, ela olha pra gente e diz com a sua voz rouca mais vivida do que a da loira com inicio de sinuosas linhas de expressão na testa: “Eu tenho 18”. Como assim 18, menina? 18. 18, 22, 26 e 32,  números. Há algo, ou nos olhos marejados de bebida, ou no sorriso esperançoso da noite, ou até mesmo na voz trêmula porém nem sempre trêmula, ademais cheia de efêmeros momentos de fraquejamento que alertavam estarmos perdidas, morando com os pais e só sabendo fritar ovo, eu sei que nisso tudo, há algo. A idade é diferente, mas há algo, que apesar das divergentes quantidades de maquiagem – nas mais velhas, essas camadas de base iam se dissolvendo como prova da aceitação das imperfeições, vai ver –, que apesar do peso talhado em nossa pele e nas nossas vozes, há algo que está muito mais nos nossos olhares, que me diz que somos mulheres, que somos idênticas, que queremos usar o banheiro e que eu, bem, eu tenho quase 22 anos e é a idade mais feliz do mundo.

            - Por que a mais feliz?
            - Não se preocupe, você irá descobrir.

            Vejo uma foto minha, uma daquelas fotos em que você parece ter exatamente a idade que possui. Um sorriso desprevenido. Aquele sorriso honesto que calha de sair diante de quem você quer se mostrar ou quando, não está muito preocupado em vir a ser qualquer coisa. Uma mão com a metade para dentro do casaco e a outra metade pra fora dele, ela está aberta; voltada pra frente. Eu uso preto, a mesma cor que enquanto teclo vejo serem as que estão em minhas unhas, pára com preto e tenta lilás, a manicure diz. Eu tenho 22 anos, está bem aqui, diante de mim, nessa imagem.

            Cato comida de madrugada revirando a cozinha como se eu fosse uma formiga afoita a recolher migalhas ilícitas que caem no carpete, me alimento de pizza velha e ruim, que pegou todo o sol do dia calorento que passou.  Pela rua, só vi três figuras sumindo entre o amarelo incandescente da noite e dos postes, em suburbanas esquinas. Na minha casa, silêncio. Mas não é o bonito silêncio das ruas que me faz contemplar garotos perdidos, estrelas e a lua que está tímida, é um outro, aquele sem nenhuma crença característico do ponto final, perpétuo e trágico. Sem volta. Está silêncio e eu vou dormir. Está silêncio e eu vou perder o sono com o barulho dos ponteiros do relógio da sala. Está silêncio e estar em casa pode ser bastante claustrofóbico. Insone penso nas cores de Watteau e as situações cheias de supetões de sua época. A quantidade de raptos produzidos no período Rococó. A ilha de Citera vem até mim, mas também penso no sétimo continente de Haneke, porque pensar é o que resta nessas situações.

            O rapto é aquele momento no qual, tudo pode ser modificado sem que você possua a menor chance de caminhar na direção ao contrária, é um momento de total desconforto e perda de chão. Então, por que o fascínio? O corpo pulsa atrás do que não sabe lidar. O corpo quer nos levar até uma ilha com novos costumes, novos deuses, novas certezas. O meu corpo prefere estar em um quadro de Watteau e distante de um filme do Haneke. Meu corpo desliga e dorme. Meu corpo continuará cansado, até mesmo na segunda diante dos barulhos dos aparelhos eletrônicos e dos trilhos de metrô. Esse corpo, vai sentir-se massacrado pela rotina. Posso dormir por 12 horas, mas meu corpo vai doer quando meus olhos caírem sob as pessoas que são outras, mas que parecem as mesmas. Os meus sentidos estão entorpecidos por aquele sacolejo único do vagão. Diante de mim, as figuras bem nítidas. O cara que masca mecanicamente isopor Skinny, um casal cansado que dorme com as mãos repousadas entre as pernas um do outro, um outro rapaz com uma espécie de TOC que o leva a contrair os lábios nas mais ridículas configurações, um homem que reveza a leitura do meia-hora com a leitura das próximas estações enquanto balança a perna, dois amigos de trabalho que falam sobre as mães que já estão mais pra lá do que pra cá e, como promessa de felicidade, estou sentada no mesmo vagão, com os meus 22 anos impressos em meu rosto reluzente por anos dourados. As idades são várias, são números e estamos todos no mesmo vagão. Igualmente catatônicos.

Leonor


            É engraçado ver a forma com a qual Leonor interage com o mundo a sua volta, essa curiosidade felina. Fica sentadinha olhando as formigas, vez e outra cheirando e passando-lhes a pata, enquanto as formigas, desnorteadas, tentam fugir e seguir seu rumo. Leonor sempre curva a cabeça para o lado depois que as cheira. Quanto aos pássaros, sempre é um momento mais intenso – já tive de salvar dois desavisados de suas garras e bocarra. Vivo a dizer-lhe que não pode pegar o passarinho, que ela tem sua própria comida, vivo a esquecer-me de que é este o seu instinto. Ao mesmo tempo sinto aquele orgulho materno por ser minha pequenina tão exímia caçadora (menos de baratas, das quais aqui em casa todos correm, exceto minha mãe, sobrando-lhe o trabalho sujo de eliminá-las e limpar as evidências).
            Sempre que acordo cedo venho ao terraço para ficar observando o ritmo do amanhecer, pensando na vida, embalada pelas quimeras de Vênus. Leonor sempre está presente. Corremos uma atrás da outra, abraço-lhe inconvenientemente, cato suas pulgas enquanto tenho de desviar de suas mordidas de indignação. Ficamos sentadas nos encarando, ela fecha os olhos, farejando o ar, seu rosto esboça um deleite secreto, uma forma de sentir o mundo e a vida além das limitações da minha espécie. Tento também farejar o ar de olhos fechados.
            Leonor fica deitada, absorta em seus próprios pensamentos e teorias aos quais nunca terei acesso – quem sabe... Os gatos têm disso, pensar e dormir bastante. Observo Leonor que – quando não está enlouquecida atrás de uma bolinha de papel, ou da sombra que projeto com a minha mão – equilibra-se com o mundo, seu corpo, mente e espírito. Observo minha pequenina e ambos os lados de sua moeda: o lado serelepe e curioso de uma jovem caçadora; o lado místico da gata preta, silenciosa e com um mundo em sua mente.

Tia, Você Vai Brincar Com a Gente?



Ao chegar no alto do Morro do Salgueiro, nosso grupo caminhou com calma pelas ruas até o Centro Cultural. As pessoas estavam a nossa espera – principalmente as crianças. Como minha idade mental se iguala a de uma criança de oito anos, fez todo o sentido me designarem para ficar com eles. Fomos eu, um rapaz com a idade mental de três – e corpo de 30 – e uma outra Julia, com uma idade mental mais avançada que a nossa.
            Por duas horas fui chamada de tia por crianças tão adoráveis que não me incomodou. Eles só queriam atenção e proximidade, o que era exatamente o nosso objetivo. Pintamos e colorimos até o fim do dia, com as oito crianças que apareceram.
            No dia seguinte não eram oito, eram trinta. E nessa ficamos eu e Marcelo no dever de entreter. Muita correria e brincadeira de cansar para que ninguém ficasse parado ou triste. Os que não queriam correr desenhavam num cantinho. As brigas eram tão frequentes quanto as corridas, sendo a única resposta que aquelas crianças conheciam para resolver problemas. Fomos tios, professores e juízes. Mas sobrevivemos.
            Enquanto decidíamos como resolver as brigas no dia seguinte, conversamos sobre a atenção que deveríamos dar a eles. Era só isso que queriam e nós não podíamos negar a nenhum. Pensamos e decidimos o que fazer no último dia.
            Vieram mais do que no dia anterior, mas eles sabiam que as brigas não ajudavam em nada quando estavam conosco. Não brigaram. Eles entenderam nosso recado silencioso e se esforçaram tanto quanto nós. Foi uma troca surpreendente. Nesse dia não fomos juízes, fomos cúmplices de um universo que ninguém conhecia até aquele momento.
            O carinho que aquelas pequenas crianças tiveram por pessoas totalmente desconhecidas em tão pouco tempo é a prova de que um pouco de carinho e atenção podem fazer a diferença – para todos.

Última Parada 170 e o Porquê das Cotas

                                                                                                                                                               foto: Karsan Haval

Eu extremamente cansado e de mau humor em uma sexta feira comum, tendo que ir à rodoviária para subir a Serra. O humor só piora quando descubro que não iria de táxi até a rodoviária (mania absurda de besta essa); teria de pegar o 170.

De mochila nas costas pego o ônibus no Flamengo. Do nada o ônibus para no Largo do Machado. Passam-se uns minutos e as pessoas começam a se irritar com o “piloto” –Vambora, piloto! Tá quente aqui.

Eu reparo a polícia do lado de fora e começo a entender a situação – A mulher foi assaltada dentro do ônibus; eu digo para a jovem histérica que passava mal com o calor.

Todo mundo se cala ao entender a história, a polícia entra por trás e pergunta à vítima do assalto –É esse aqui? Antes de ouvir a afirmação dela eu me viro para dizer ao acusado que ele tinha o direito de se recusar à revista, mas me calo.

Me calo porque o garoto é curiosamente negro, visivelmente pobre e muito assustado. Me calo porque quem o revista é um policial ainda mais negro. Me calo ao perceber que obviamente o celular da senhora não está com ele.

E é calado que começo a chorar de ódio daquela mulher e de toda uma parcela calhorda da sociedade que ela representa quando diz: “Na verdade eu suspeitava de um senhor, mas ele já saiu. Era ele quem estava do meu lado.”

Lê-se em letras neon e garrafais na testa da mulher: “NA DÚVIDA ACUSE O POBRE, O PRETO, O INFERIOR". Parafraseando Ferreira Gullar, infelizmente essa mulher é brasileira que nem eu.

Depois desse curta-horror os passageiros soltam algumas frases de deboche à mulher. Ela, inferiormente superior, as ignora. 

Não estou escrevendo isso como crítica, justificativa ou coisa parecida, mas como um relato-desculpa. Me dirijo ao menino revistado nesse momento para pedir perdão por ter me calado, por não ter me indignado, por não ter a capacidade de mudar, pelo menos, a cabeça daquela senhora.

Não posso te prometer que isso não irá acontecer novamente, menino. Porque sabemos que vai. Se não com você, com o seu vizinho, com a sua mãe ou com o meu irmão; com todos aqueles desafortunados e amaldiçoados com a marca da pobreza e da pele negra. Só que diferentemente do pensamento de certos pastores-deputados, essa maldição não vem de Deus, mas de quem o inventou: o homem. 

Mesmo que isso tudo se repita e se perpetue, nas próximas seiscentas vezes eu vou me virar e gritar qualquer coisa que possa ajudar nessa luta da qual todos nós fazemos parte, mas que insistimos em ignorar. 

Mil perdões pelo silêncio.
Um grande abraço.

Reflexões De Um Dia Gelado - Por Dentro e Por Fora

                                                                                                                                                 Foto: Valentin Chenaille

            Com os pés gelados e sentindo a água entrar pela sola gasta, caminhei em direção à segurança de minha casa com passos rápidos e imprecisos. O guarda-chuva em minhas mãos tremia com o frio que me dominava e a força do vento, criando por alguns segundos o medo de o meu pouco peso não conseguir me manter no chão. O caminho longo parecia nunca ter fim, o que me deu tempo para pensar sobre alguma coisa além da dor que sentia nos pés, que a cada passo latejavam pelo frio. Então me lembrei do senhor-que-mora-na-praça e todos os meus problemas desapareceram.

            Aquele senhor nunca me disse seu nome, mas sempre senti por ele um carinho imensurável. Vendia algumas empadas de frango para poder comprar café e comida, e eu e sempre fiz questão de comprá-las quando comia carne. Nunca soube de onde aquelas empadinhas vinham, e a sua dificuldade de falar não ajudaria se perguntasse. Mas não o fazia menos gentil e não me impedia de sorrir ao pegar o embrulho de comida.

            Ao passar pela praça avistei o-senhor-que-mora-na-praça e senti meu peito doer. Estava dormindo embaixo de uma marquise, com um colchonete muito velho e um papelão por cima como cama e uma manta gasta como cobertor. Tinha muito frio e nada que pudesse protegê-lo. Não me aproximei por respeito, não saberia o que fazer. Não tinha um casaco que pudesse entregar naquele momento nem um cobertor inteiro. Não tinha nada além de um guarda-chuva e muita impotência.

            Atravessei a praça sem dor nos pés. Não conseguia sentir nada além do mal-estar de saber que teria uma casa para entrar, um banho quente para me aquecer e uma comida pronta esperando.

            Passei pelo senhor-que-mora-na-praça e tive certeza que a chuva não molha todos.

"É Pra Agora, Ou Pra Viagem?"

                                                                                                                                Foto: No Lugar de Sempre, Lalesca Fravoline
            Sento no lugar de sempre, mas hoje é segunda, costumo vir aqui somente nas sextas. Penso na vida, fazendo hora, esperando pelo tempo, os ponteiros escorrendo pela borda do relógio-quadro da existência. Pessoas transitam através do vidro da lanchonete, carregando sobre os seus ombros o peso de suas histórias – verdades e mentiras. Um dos clientes no balcão está inquieto, batendo o pé, tentando ritmar os minutos preguiçosos a sua batida frenética.

            Já é noite, seis horas. Agora são poucas as pessoas passando por essas ruelas, seres vivos com uma alma dentro do corpo (o quê nos confere a vida, o corpo ou a alma?). Fico angustiada com o momento de final de expediente, o lugar se esvaindo, tornando-se deserto, salvo os ecos – ruídos – sociais. Todos numa eterna pressa para voltar ao lar, alguns a quererem um banho, janta e novela, quiçá uma rapidinha de 10 minutos, uma gozada e sonhos sem pesadelos.

            Enquanto isso estou aqui desse outro lado da janela, vidro, vitrine, fazendo hora, pensando na vida, tomando nota de rostos que não me dizem respeito, rostos que nunca imaginei, que carregam vidas incógnitas, às quais eu daria um tempo da minha existência para conhecer.

Retornamos Com Saúde

                                                                                                                                                                           foto: Karsan Haval

Há dois meses que o Brasil criou uma fábrica de polêmicas (essa frase deve ser polêmica). Tudo virou motivo de revoltas e de soluções extremas. Não querendo polemizar demais o que já foi alvo de todas as discussões possíveis, eu gostaria de falar   sobre uma bomba, a que estourou essa semana em cima da classe médica. 

Nossos médicos se mostraram desde o início contra o programa do governo “Mais Médicos”, e apesar de achar os ataques infundados, nunca pensei que a categoria fosse chegar ao ponto de ignorar sua mais importante vocação: a humanidade. É inaceitável o comportamento que alguns médicos brasileiros tiveram na ocasião da chegada dos médicos cubanos, reagindo com vaias e comentários racistas.

Não vou nem entrar no mérito de que o povo brasileiro é um povo muito caloroso, nem, que é um absurdo, logo nós, vaiarmos nossos amigos cubanos, mas sim questionar porque um povo colonizado, constituído por maioria negra se mostra tão racista. Ainda pior que esse racismo é a hipocrisia de uns que dizem se preocupar com algum tipo de escravidão que os cubanos possam sofrer pelo “Mais Médicos”.  E porque aqueles dentre nós que se formaram em medicina, e se dizem médicos, se voltam contra os que vêm aqui em busca de emprego, com o intuito de tapar os enormes buracos que a nossa saúde deixa nas cidades onde pessoas ainda morrem de doenças simples, como sarampo, disenteria, verminose, etc.

Nosso sistema de saúde é realmente muito falho, mas penso que não ajuda muito rebater as poucas propostas promissoras que visam à melhoria desse sistema. A nossa classe médi(c)a é no geral muito elitizada e muito preconceituosa e quer atingir um nível socioeconômico que não inclua a classe pobre. É engraçado e assustador pensar em uma classe tão opressora quanto essa nossa elite, mas ela existe e não se  conforma com o espaço e direitos que as minorias vem ganhando.

Mesmo com o esvaziar das manifestações, a equipe do Manifesto retorna com um olhar voltado para a movimentação das cidades e às discussões sobre as mais diversas pautas, como saúde, educação, mobilidade urbana e etc. Nesse sentido, pedimos desculpas pelo sumiço, na verdade, só demos uma pausa porque engasgamos com a quantidade de coisas para falar. 

Ônibus I, por Paula Amparo


       As duas branquelas de bochechas avermelhadas rechonchudas ávidas a moverem-se juntamente com os sorrisos largos de ambas, estranhamente largos, se formos resenhar acerca dos assuntos acadêmicos que voam dos lábios dessas meninas e que matutam seus inquietos miolos cerebrais - incluindo teorias deleuzianas que mais parecem nunca terem sido entendidas, por isso uma delas repetia com afinco acreditar que a sociedade calcou um pacto no qual ninguém comentava a respeito, porque no fundo, seres humanos, sejam eles, professores ou alunos gênios ou pipoqueiros eruditos, nunca nenhum deles, haviam honestamente absorvido algo enquanto liam as pomposas e belas frases compostas pelo filosofo.
      Passeando por Sartres e existencialismos, tentavam identificar as pessoas arquivadas no escaninho, formando catálogos inconscientes de todas, para acharem um método científico cujo essa classificação culminasse em uma melhor aplicação das teorias sobre aquele estado de desespero desconfortante desnorteante que essas inocentes meninas encontravam-se, todos aqueles textos aristotélicos, uma hora ou outra teriam que ser digeridos, uma hora ou outra viriam a fazer mal, por isso no frio daquele 485 buscavam buscavam buscavam, ok, buscavam ansiando um meio exato, um meio digno de engenheiros, matemáticos e físicos para identificação da incógnita da questão, nem que essa busca fosse um tanto quanto ardilosa e imersa em café abandonado na chaleira que esfria ligadamente com o dramático suspiro pré-encerramento do expediente.
      Uma das meninas, a alta, em tom tão alto quanto a sua altura, dentro do ônibus lia a definição de Paul Tillich, para uma palavra já citada anteriormente: "Desespero é uma situação extrema ou de 'linha de fronteira'. Não se pode ir além dela. Sua natureza está indicada na etimologia da palavra desespero: sem esperança.”. A interpretação gerou aflição, elas já não sabiam para aonde correr. Logo, elas nadavam em círculos internamente com seus nervosismos típicos das moças que vivem em um lago, daqueles bem profundos, essas moças comumente habitam corpos de pequenos peixes; perdidas no escuro das águas, elas não conseguem ater seus pés nos chãos e os pensamentos, por conta de distanciarem-se tanto da terra, perdem-se incapacitados de seguir em linha reta.
       Os olhos das raparigas brilham traduzindo curiosidade em suas pupilas, nessa autoflagelação intelectual que é o poço escolhido para o repouso dessas ideias oscilantes, ideias atordoantes na insistente busca por uma conclusão, em uma viagem por aquela tal alegoria de esteriótipos perdidos no carnaval de personalidades monodimensionais, que para facilitar chamarei de conhecidos que estudam, trabalham e comem, ao lado dessas supimpas estudantes que berram demais quando cobiçam respostas.
      Desistentes de qualquer objetivo após algumas horas de conversa, uma delas ao perceber que maior parte dos personagens da trama de suas rotinas já estavam devidamente classificados conforme cor, tamanho e quantidade de massa cinzenta encefálica no corpo, arrisca timidamente discorrer sobre a atitude de ambas, ela tateia pelas arestas devido ao medo de expor mal a questão. A medida que a pergunta vai possuindo um terreno sem relevos para cair, cheia de sutilezas, a menina dos cabelos curtos diz:
-        Eu tenho medo, sabe.
-        De que?
-       Eu ultimamente olho para as pessoas, e as acho personagens, cê sabe. Então, o que elas acham de mim? Elas acham algo.
-        Sem dúvidas.
-       Aqui, enquanto falo e falo, sabe? Eu fico com medo, sabe?  Porque todos ao nosso redor avaliam as nossas atitudes e nos colocam em algo. Nós as classificamos, elas nos classificam.
       Houve um breve silêncio entre ambas, que se olharam com uma espécie de faísca guardadora de um sorriso nas pupilas, aquela chama responsável pela expressão: “ela sorriu com os olhos”. Portanto, aquele instante pareceu conscientizador do quão cômico era estar no ônibus caindo no precipício da contradição, enquanto andavam sobre o terreno das aplicações de pensamentos muito mal pensados em experimentações muito mal calculadas, entre etnocentrismos e egocentrismos e outros centrismos, por isso, sorriram com os lábios, até que, cautelosamente, as seguintes palavras – sem dó – foram lançadas em uníssono ao vento: “Somos nós, esteriótipos também?”. Esfinge.

Engano reconhecido, por Louise Bastos

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         Querido amigo, ao ler sua carta, mesmo que não escrita diretamente a mim, senti uma imensa vontade de te responder e dividir contigo as minhas angústias também.
         Não sou evangélica, católica ou nenhuma denominação conhecida, porém sou fundamentalista. Mas antes que você se assuste e pense que por algum motivo quero que você se converta a alguma coisa ou mesmo queira você longe de mim, deixe-me explicar:
         Nasci e fui criada em uma família fundamentalista, e assim como sobrenome, isso é algo que a gente carrega, pelo menos foi o que me ensinaram. Desde pequena me ensinaram que não devemos respeitar o direito do outro, que não devemos considerar uma opinião que não seja parecida com a nossa, assim como me ensinaram, caro amigo, que todos os gays vão queimar no inferno. Pois se Deus (todo poderoso e sábio) fez o homem e a mulher, como pode um homem gostar de outro homem, não é mesmo? E uma mulher que não vai servir a um marido e procriar... impensável!
         Porém, de uns tempos pra cá, mesmo sendo fundamentalista, me peguei um pouco confusa: se Deus fez o homem e a mulher, não seria esse mesmo Deus que permitiu ou nos deu um tal de Livre Arbítrio? Aliás, essa matéria é sempre muito pouco explicada, e em alguns casos os nossos orientadores espirituais dizem que é um ledo engano. Imagine se Deus ia nos dar tal liberdade!? Já ouvi muito disso por aqui.
         Agora quanto ao muro que você falou, eu faço parte do outro lado, mas nunca me perguntaram, assim como até agora eu não tinha me tocado, confesso, que estávamos em lados opostos. Nem sabia que tínhamos que escolher em que lado ficar. Inclusive no outro dia ouvi falar que vocês eram um dos responsáveis por não haver paz mundial. É verdade? E como vocês conseguem? Porque confesso que fiquei intrigada. Assim como outros religiosos afirmam que se vocês quiserem acordar no dia seguinte héteros, vocês conseguem, é verdade também? Por que se for, eu como hétero não saberia como deixar de ser, por exemplo. 
         Espero que nossa conversa tenha sido proveitosa pra você, porque pra mim foi muito boa, me fez refletir. Ainda tenho algumas questões: como o fato de uma cor também ser uma questão de azar e a outra de sorte, ouvi isso no outro dia, mas podemos conversar mais pra frente. Mas uma coisa é certa: da minha parte não tem guerra, pois realmente deve ser tudo um engano...
Carta resposta à: "Houve um Engano", por Camilo Martins

Houve Um Engano, por Camilo Martins




     Caros amigos evangélicos, protestantes e fundamentalistas; estou escrevendo para vocês no dia de hoje para pedir ajuda, para contar uma história. 
     Quando Deus criou o céu, a Terra, a flor e a gente, ele criou para que todos esses quatro elementos vivessem juntos, em harmonia, em vida. Peço a licença para lembrar esse fato um pouco óbvio e que é do conhecimento de todos vocês, lidos, letrados e talentosos. 
     Andando por aí esses dias, ouvindo algumas falas de pessoas que vocês elegeram como representantes, vendo algumas imagens de pessoas mortas pelo simples fato delas serem o que hoje chamamos de homossexuais; eu pensei: “Deve ser bobeira minha, essas coisas não estão acontecendo.”. Foi justo no momento em que pensei nisso que dei de cara com um portão enorme, grandão mesmo. Nesse portão, trancado, encontrava-se a seguinte frase: “Em nome de Deus”. Eu confesso que fiquei muito assustado e quando olhei ao meu redor todos vocês, amigos religiosos, tinham sumido.
     Meio tonto e bem confuso eu resolvi sentar em frente ao portão. Nisso passa um amigo meu e me diz que vocês construíram esse portão, construíram um novo Deus e uma nova lei, separando o mundo. O mundo desde então está assim: Gays para um lado e religiosos para o outro. Tem gente me falando que é uma guerra, que é um combate, que é injustiça... Eu sinceramente não quero acreditar nisso, eu estou acreditando que é só um engano, que vocês só pensam diferente e por acaso essa muralha apareceu. Afinal, Deus não nos fez juntos? Iguais? Vocês sabem disso, não é? Quer dizer, vocês estudam isso todos os dias, muito mais que eu. 
     Eu não estou aqui para criar intrigas nem nada, mas vocês acreditam que me falaram que estão matando gays em nome de Deus? Sabia que falam por aí que seus representantes nos puseram como marginais? E coisas ainda pior, puseram os marginais como “seres impossíveis de se amar da mesma forma que amamos os homens”. Me desculpem por falar tudo isso, mas foi culpa desse portão, dessa murada nebulosa e fantasmagórica que surgiu. As pessoas não param de falar que vocês fazem coisas absurdas em nome de Deus, em nome do nosso Deus.
     Se nos interpretaram como guerra, por favor, nos perdoem, nós ainda somos amigos, irmãos, filhos da mesma estrela, criação da mesma força. Se o portão é de vocês, por favor, o esqueçam e voltem pra gente, estamos tristes, sozinhos e com saudades. 
     Em nome de Deus, abram essa porta. 

Dezenove, por Lalesca Fravoline




“Os 19 anos são uma idade egoísta, que restringe severamente as preocupações da pessoa. Tinha muita coisa na minha frente e era o que me importava. Tinha muita ambição e era o que me importava. Tinha uma máquina de escrever que carregava de uma porra de apartamento para o outro sempre com alguma coisa para fumar no bolso e um sorriso na cara. Os compromissos da meia-idade estavam longe, os ultrajes da idade avançada, além do horizonte.” 
Stephen King sobre os 19 anos, caros caríssimos.

     Ah, os 19... Um ano entre os esperados 18 e o início das duas décadas de vida. Os 19 anos que martelam na cabeça dos jovens anjos e diabos sobre a vida e seus ideais. Se você é jovem ainda, amanhã jovem será...
       Tenho 19 anos (embora devido à minha exímia produção de colágeno posso ser barrada na entrada de algum evento se não apresentar a ID), a faculdade por vezes se torna um bicho de sete cabeças, a perspectiva sobre a vida e o peso dos os anos que estão por vir é uma sombra inconstante. E, numa versão mais rústica e prática que uma máquina de escrever, tenho uns bloquinhos que carrego para cima e para baixo dentro da bolsa, cheios de pensamentos que já nem me lembro mais, de rostos desconhecidos que talvez permeiem minha mente ainda, de rabisco e de letra corrida.
       Aos 19 corro contra o Tempo – corra, coelho branco, pois o relógio está perdido e nunca se atrasa -, por causa ritmo que levamos nessa vida ocidental que me impulsiona, sem carinho ou explicação, para anos à frente, os quais ainda não quero ter. Meus ídolos, precoces demais em vida, também já me deixaram prazos de entregas, ídolos que não respondem às minhas orações quando a inspiração se esconde n’algum lugar que não consigo achar (não o Edgar, esse não, jamais... Edgar é café, luz de vela, noite chuvosa e muita esquizofrenia); ídolos que estão nas minhas paredes, nas quais ponho minhas palavras também, um gracejo ao ego. Assim vou, embrenhando-me nessa corrida ao mesmo tempo que vou contra ela, pois o mundo é grande e minhas pernas, pequeninas. Quero andar devagar no fim das contas, olhar nos olhos dos transeuntes e reparar nas cores da cidade, sentir vertigem quando, pelas ruelas, olhar para cima, buscando o topo dos prédios e o céu entre eles. Respirar o urbano e o natural, vivendo nessa dualidade, em ambos os vícios. É assim que se vive, ao menos como eu tento, olhando para os tantos outros desconhecidos que – mesmo sem a consciência – também são vivos e potencialmente pensantes; olhando para o alto, olhando para baixo, esquerda, direita, 360° se possível. Olhando, e sentindo.
       Dezenove anos, uma ingênua esperança, mas acima de tudo, uma mente perturbada, bloquinho e caneta na bolsa. Paixão.






“Nós, pessoas razoáveis, não somos entendidas.”
Frase do filme “A Voz da Lua” de Fellini.

Odeio ecochatos e marx-chatos. Eles falam muito. Falam, falam, falam. O problema não é nem o tema; acho importante usar menos inseticida nas baratas, menos agrotóxicos na frutas, menos couro nos sapatos, menos carne na mesa, menos dióxido de enxofre nas chuvas, menos hormônios no leite, menos matadores de golfinhos no Japão, menos esgoto na Baía de Guanabara, menos  pele de chinchila nos casacos e claro, mais empregos decentes porque todo homem possui direito ao trabalho.
Agora, o que não entendo é a baixaria. Nunca tive forças para briga, confusão, dormir em ocupação, comício, passeata e todo o mimimi por trás de defender uma causa. Já fui, já participei, mas nunca senti o conforto de estar completamente dentro, sempre fora. Deslocada por não crer. Vivendo com os meus “poréns” tão característicos das contradições humanas em busca da utópica liberdade. Em busca de dias melhores, sorrisos melhores, amores melhores.
Pior do que a baixaria, só as pessoas. Toda a incoerência de reunião no qual uma boa-moça-usando-saia-da-Cantão berra que o inimigo é a burguesia ou o rapaz-adidas-no-pé com um poster do Che Guevara no quarto. Maldizem a si mesmos, jogam-se no bueiro daqueles que só possuem o direito de serem ovelhas: Ovelhas da Adidas, do Fidel e das empresas que propagandeiam o nosso dever de fechar a torneira para escovarmos os dentes, enquanto eles por direitos de estarem pagando-melhor-do-que-você liberam um montão de dióxido de carbono por uma chaminé cinza e feia.
Aí está a preguiça, está todo mundo tão certo das coisas. Não classifique meu discurso como o gracejo sofista da menina incapaz de desagradar os que pensam diferente dela, é que às vezes, eu honestamente não vejo verdade ou mentira, justamente por não ter nem ao menos pensado a respeito. Por ora, prefiro só escutar, sorrir e balançar levemente a cabeça. Se nada sei, mantenho a possibilidade de alguma coisa levar para digerir-refletir-contextualizar, muito obrigada por tudo, na minha casa.
Localizada na posição mais equidistante das ideias escolho sinceramente ficar a margem da própria vida pelo privilégio de mudar a opinião toda semana, tateando esse escuro-abismo de cair, misturar-se até diluir, no devastador mundo das reflexões incessantes. Sinto-me demasiado nova para ser adepta das escolhas perpétuas, não quero e não posso – jamais – fechar-me para tudo que ainda está por vir, e o que vem saltitando e cantando parece tão maravilhoso, que acaba por ficar o desejo de após beber vitamina de morango em uma manhã de sábado abraçar logo em seguida essa tal magia, afinal, já disse que acredito em utopias, né? Quem sabe, até faço uma escolha quando eu estiver preparada para sair da metade do caminho.





Posso não falar de coisa boa? Posso falar de dor, de morte? Porque eu não estou com cabeça pra falar de outra coisa que não seja morte, que não seja sobre a santa suja de sangue. Uma certa Santa Maria que virou demônio, sombra, falso milagre.

Já faz uns dias que Santa Maria viu queimar mais de duzentas pessoas. Nem tem uma semana direito... Tudo parece pouco e pequeno diante de tanta dor. E quando eu digo dor, eu quero falar de toda a dor; a dor dos pais das vítimas, a dor da carne queimando, a dor do pisoteamento desesperado, a dor do sufocamento, a dor de sobreviver. A boate virou um campo de sacrifício humano para a Santa Deusa Maria; um inferno. 

O interessante em tudo isso é que percebi que não existe nada mais terrivelmente solidário que a morte. Sabe a corrente do bem? A Morte age da mesma forma; ela mata um, esse um mata outro, que mata outro... Por isso que alguns pais se mataram, pensam em se matar. Por conta dessa força encantadora que faz da Morte a melhor dos profissionais.

O que me incomoda agora não é mais a quantidade de mortes, mas a quantidade de sobreviventes, a quantidade de dor que todos os que foram e os que um dia irão estão sentindo.
Não sei dizer palavras nem imagens diante dessas mortes. Não sei encarar esse país, esse mundo, essa gente que mata e deixa matar. 

Minha religião e todas as outras no mundo explicam essa Santa (com nome de virgem) de uma forma muito única e às vezes até bonita. Eu não quero explicar nada e sinceramente, não quero explicações. Eu quero chorar, eu quero doer, para ver se assim divido e alivio o peso daquela gente toda. Gostaria que todos pudessem fazer isso comigo. Não mais rezar, nem acender velas, apenas chorar como forma de oração, como forma de respeito; para entendermos que uma casa de alegrias virou cemitério. 

Carpinejar disse com muita emoção: “Morri em Santa Maria.” E com toda a licença eu digo que ontem, hoje e amanhã, eu sobrevivi em Santa Maria, o que para mim, é muito pior. 

Texto escrito em 07/02/2013, por Camilo Martins.