Trabalhar em escritório, too much monkey bussiness, jamais amigo. Admito conhecer aos montes que fogem das saletas separadas por divisórias de alvenaria tão delgadas que qualquer revolta contra a máquina de fax pode acarretar na total destruição dela – seja por um soco do trabalhador-assalariado-proletário-brasileiro-que-não-desiste-nunca, seja pela mesma ser arremessada “acidentalmente” ao horizonte –, nesses ambientes claustrofóbicos creio que o desmoronamento das limitações – as paredes, por exemplo – façam parte do processo primordial para classificar um indivíduo como humano, o processo que chamarei de sentir-se insatisfeito.
Por isso, antes de qualquer insulto direcionado ao funcionário que te atende, pensem cheios de compaixão naquela máquina de fax que trava constantemente, naquele computador que só funciona com Windows 95 e naquele líquido de marca vagabunda que passou por uma diluição homeopática e que um chefe sacana ainda tem coragem de chamar de café, pensem que aquele funcionário guardião dos papéis da burocracia passa horas por dia naquele espaço que te deixa irritado após três minutos. Pensem, mas pensem com carinho.
Para essa situação ir além do seu imaginário, vejam a exposição que fica até 31 de março no CCJF do Rio de Janeiro ou confiram o site-portfólio do artista Jan Banning (link) que resolveu documentar burocratas de cinco continentes; oito países foram selecionados para o projeto (Bolívia, China, Índia, Libéria, Rússia, Lêmen e Estados Unidos), nos quais variados departamentos que podemos classificar como subconjuntos de um conjunto maior que alcunharei de “papelada interminável com um monte de coisa escrita definidora de como as coisas devem ser feitas, para que as engrenagens da sociedade girem”, ou para os mais íntimos: “burocracia”, apenas. Esses subconjuntos podem ser um departamento sobre narcóticos nos Estados Unidos ou um departamento financeiro do antigo secretariado localizado na Índia, porque de regras para as pessoas quebrarem o mundo está cheio.
As fotos seguem um padrão: são quadradas – formato que serve como luva de cetim para o tema –, a preocupação antes da feitura das mesmas era que os funcionários não mudassem nada na sala antes da chegada do fotógrafo, que sentado na cadeira delegada ao cidadão que precisa entrar em contato com o sistema, sentava e batia a foto.
O nosso olhar terá uma oportunidade de estudo ora antropológico, ora histórico e esse estudo acaba nos ajudando a entender as organizações políticas dos países representados. Trata-se de um prazer intelectual imerso em humor ácido avaliar essas fotos que podem passar como simples clichês documentais, porém que pertencem ao domínio das artes antes de qualquer coisa, afinal, trazem consigo o questionamento dos alicerces nos quais a nossa sociedade calcou-se, ao mesmo tempo que carregam beleza, uma beleza da mais singela, aquela que diz respeito a contar a realidade humana.
India – 17/2003 [Pat., SP(n.1962)]
Sushma Prasad (n. 1962) é assistente no Gabinete do
Secretário de Estado de Bihar (população: 83 milhões) na capital, Patna. Ela
foi contratada “por razões humanitárias” por causa da morte de seu marido que
até 1997 trabalhou no mesmo departamento. Salário: 5000 rupias ou 110 doláres.
(fonte: exposição do CCJF RJ)
A
imagem acima destaca-se pelo azul bonito em uma sala sem ornamentos e bastante
sóbria, lotada de uma papelada amarelada que mal cabe nos armários, o pó
apresenta-se como um elemento em destaque e quase decorativo dependendo do
ponto de vista. A sala dessa funcionária indiana entra em perfeito contraste com a sala de uma
funcionária russa, por exemplo. Não somente a sala, há também a Rupia que
quando comparada ao Dólar nos ajuda a compreender questões mais abrangentes
relacionadas a discrepâncias na economia mundial.
Na
confortável posição de meros contemplativos, talvez não façamos sequer ideia de
como é a vida deles, mas essas imagens irão expor uma pergunta para nós que não
importando o nosso lado da mesa, será uma pergunta geradora de desconforto,
desconforto necessário e que deve ser enfrentado. Refletiremos ao lado de Jan
Banning.

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