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O Zaire De Ambroise Ngaimoko.


“Ancorados na filosofia de uma era pré-digital, em que a fotografia era muito mais um evento orquestrado e contido que um mero instantâneo, seus retratos pintam a diversidade de personagens e manifestam a riqueza das relações humanas.”  (Guia da Bienal, p. 76)

            Certos retratos possuem o poder de desnudar o ser humano através de um contato direto, uma abordagem crua e um indivíduo preparado para se mostrar. Claro que o fotografo é o responsável por dar um tratamento adequado para a imagem, escolher o melhor enquadramento, tentar organizar e dosar os fatores que vão compor o todo e dirigir a ação, entretanto, quem está sendo fotografado também precisa estar preparado. Precisa querer transbordar, mesmo sabendo que uma lente observa.
            Acho que a foto logo acima traz uma das minhas imagens prediletas; gosto da senhora que nos encara e nos leva para a cena e da mais nova que ao contrário do olhar calmo da outra, nos dá uma inquietude, como se tivesse sido fotografada sem ter decido que pose fazer. Facilmente somos induzidos a vislumbrar a vida das duas e somos provocados a querer decifrá-las. Acabo até mesmo fascinada com o passar do tempo, com o peso das gerações. Ambroise Ngaimoko tirou retratos desses aos montes, por isso essa minha vontade repentina de escrever mais uma vez sobre ele e sobre essas figuras que nos enchem de vontade de estar ali na cena, só para perguntar como é a vida daquela pessoa diante de nós.
            A partir de agora, sigo com um texto pensado a três cabeças (obrigada Bia, obrigada JP) com a ajuda do catalogo da trigésima Bienal de São Paulo e que agora recorro a ele – o texto, no caso –, para escrever esse novo aqui. Lembro de Ngaimoko ter me intrigado bastante, vindo a lembrar dele folheado o tal catálogo, em um desses dias em busca por alguma inspiração. Ngaimoko é um fotografo angolano responsável por retratar toda uma sociedade do início dos anos 70 até o final dos anos 90, montando uma história através dos personagens que viviam em Kitambo, local no qual, ele estabeleceu o seu estúdio de fotografia: o Studio 3Z. Ah, e um detalhe único do estúdio, foi o emprego de uma técnica inédita, em que dois retratos eram revelados na mesma folha usando duas vezes o mesmo negativo.
            Sua vida profissional foi toda calcada na República Democrática do Congo, país onde desembarcou aos 12 anos, acompanhado de sua mãe e irmãs, como refugiado da guerra da independência angolana, que chegou ao fim apenas em 1974. Trabalhou como mecânico, projecionista de cinema e por conta de um tio, proprietário de dois estúdios fotográficos, acabou parando no ramo da fotografia.
            O estúdio até 1997 manteve o nome de 3Z, simbolizando os três Zaires principais da vida dos que ali viviam, ou seja, o país, a moeda e o rio. Porém, em 1997 juntamente com a mudança do nome, o país de volta para República Democrática do Congo, passando a se chamar 3C ou 3Congos. A mudança de nomes foi necessária para os que viveram sob a ditadura de Mobutu, pois os Zs remetiam a uma lembrança dolorosa.
            O estúdio foi o responsável pela representação do percurso afetivo de indivíduos de uma África marcada por guerras, regime ditatorial e constantes disputas territoriais. Inclusive, pode-se reforçar isso dizendo que o legado deixado pelo Studio 3Z é um rico acervo para compreensão da cultura não só do Kitambo, mas do país como um todo, através dessa parcela humana exibida nos retratos milimetricamente construídos por Ngaimoko ao ser ajudado pela honestidade dos que se colocaram diante dele. Essas imagens de Ngaimoko merecem atenção não apenas pelo seu peso documental ou por juntamente com seu estúdio ter construído uma história africana, mas pela beleza e a potência artística contida nelas. Lembrando também que sua técnica as levou ao status de vanguarda, portanto Ngaimoko – mesmo anos depois e em uma era digital –, merece uma pausa. 

Sobre ser jovem, inseguro e ainda achar que pode escrever.


            Sobre escrever nem sei tanto, agora sobre reescrever, nossa, que luta. É foda. As ideias começam em um bloquinho maltratado que uso nas aulas ou em um dos três caderninhos que tenho espalhados em cantos estratégicos da minha rotina: um moleskine com uma gravura em estilo
ukiyo-e impressa na capa que deixo no bolso lateral da minha bolsa maior, um bloquinho médio com um poster de “Le Notti di Cabiria” impresso na capa e que fica em cima dos meus DVDs localizados aqui na escrivaninha aonde geralmente escrevo, penso e como, e um terceiro de origem mais pomposa porque foi um presente que um amigo trouxe de Paris com uma gravura do Léonce Burret na capa, por ser menor e no estilo bloco, até me sinto uma jornalista pelo modo rápido que copio o que escuto nele, enquanto ele fica perfeitamente alojado na minha mão. Fora os papéis velhos que uso como rascunho, os caderninhos antigos que dou uma verificada/modificada e os documentos de bloco de notas que salvo com títulos sem pé nem cabeça na minha área de trabalho, são palavras pra tudo quanto é lado e no meio delas, em total desespero, lá estou eu, tentando juntar as ideias que resolveram surgir aos  fragmentos, algumas enquanto eu estava me revirando na cama, outras com a ajuda de algum amigo ou professor durante alguma aula, tête-à-tête de boteco, correria nos transportes públicos, nas imagens ao longo do caminho de casa até o Jardim Botânico.
            Esses dias mesmo, fiquei completamente inspirada quando uma professora afirmou, – com todo aquele gingado que parece vir de brinde com o doutorado – que não existe uma metodologia correta, o que existem são autores que você usa como apoio pra enfrentar os problemas que aparecem. Isso após ela falar de uns três nomes diferentes que abordaram brilhantemente uma mesma questão, enquanto sorria, ela dizia, pra verificarmos incansavelmente, desconfiarmos dos outros e principalmente, do que sai do nosso próprio punho. Senso crítico é como bom senso, faz bem e te deixa bonito na foto.
            Por mais que tenhamos ponderado muito um viés de pensamento ou outro e mesmo o tendo buscado em fontes maravilhosas, precisamos ser críticos em relação a esses nomes muitas vezes imersos em respeito, por um currículo Lattes bem recheado. Precisamos lutar contra o nosso ego de aluno de humanas, ego que nos faz cair na armadilha de achar os comentários alheios infundados ao irem contra os nossos, porque afinal de contas, “somos muito bons no que estamos fazendo”. Ai que geralmente caio. Digo, ao mesmo tempo que necessito de um pouco de convicção no que faço, também preciso de aceitação, mas até aonde essa aceitação é boa para o meu senso crítico? Será que eu percorro o caminho correto ao aceitar tudo que escuto – se é que há um caminho para ser seguido –?

Vinte e Dois



            - Falta um mês só, como você acertou?
            - É que você tem cara de 22 anos.
            - Sério? Como é a cara dos 22?
            - Fácil de acertar. Acontece que os 22 anos, são os melhores anos.

            Essa é a fila do banheiro do Bar da Cachaça. Setembro. Lua Crescente. Está bem quente e é quase primavera. Ao meu lado, há um homem apoiado no balcão, às vezes chego a me distrair da conversa sobre idades para ouvi-lo papear com um rapaz que nem do rosto lembro mais, eu não dependo de escrever não, ele diz, eu quero fazer algo diferente no mundo, ele diz. Uma danada confusão de idiomas ao meu redor. O calor clamando pelas chuvas de outubro, pelas chuvas que sempre deixam meu aniversário mais desanimado e o meu nariz constipado enquanto eu me vejo aos 10 anos afirmando que vou escrever coisas, assim, sem buscar subterfúgios ou algum plano B. Narrar a minha infância é sempre reviver imagens, que não consigo achar nem diante das fotografias guardadas debaixo da cama em meio ao pó de uma caixa de sapato. Meu aniversário vai ter primavera e lua cheia. Meu aniversário tá perto, mas não tão perto quanto a parede do bar que tem um texto do senhor, que também já não lembro, mas sei que achei uma merda. Uma puta merda. Dizem que sou compreensiva e gentil, mas no fundo é só fachada. Me vejam bêbada. Acho as coisas uma grande bosta e ironizo conselhos, “Quando eu era jovem, eu tinha umas ideias criativas, queria fazer essas coisas criativas, mas a gente tem é que se bancar antes”, uma porção de professores diziam e eu ironizo, “Mas você quer é morrer de fome?”, alguns conhecidos diziam e eu ironizo. I didn't realise you wrote such bloody awful poetry, Mr. Shankly. Gracejo à beça, mas sei que tô cheia de medo afundada em pequenas evasões.

            É estranho perguntar a idade delas enquanto a minha, aparentemente, está sendo exposta em cada fluído que coloco pra fora. Eu tenho 26, Eu tenho 32 e uma mais maquiada com lábios vermelhos ressaltados pelos cabelos mais curtos do que os meus em qualquer uma das minhas fases de cabelos bem curtos, ela olha pra gente e diz com a sua voz rouca mais vivida do que a da loira com inicio de sinuosas linhas de expressão na testa: “Eu tenho 18”. Como assim 18, menina? 18. 18, 22, 26 e 32,  números. Há algo, ou nos olhos marejados de bebida, ou no sorriso esperançoso da noite, ou até mesmo na voz trêmula porém nem sempre trêmula, ademais cheia de efêmeros momentos de fraquejamento que alertavam estarmos perdidas, morando com os pais e só sabendo fritar ovo, eu sei que nisso tudo, há algo. A idade é diferente, mas há algo, que apesar das divergentes quantidades de maquiagem – nas mais velhas, essas camadas de base iam se dissolvendo como prova da aceitação das imperfeições, vai ver –, que apesar do peso talhado em nossa pele e nas nossas vozes, há algo que está muito mais nos nossos olhares, que me diz que somos mulheres, que somos idênticas, que queremos usar o banheiro e que eu, bem, eu tenho quase 22 anos e é a idade mais feliz do mundo.

            - Por que a mais feliz?
            - Não se preocupe, você irá descobrir.

            Vejo uma foto minha, uma daquelas fotos em que você parece ter exatamente a idade que possui. Um sorriso desprevenido. Aquele sorriso honesto que calha de sair diante de quem você quer se mostrar ou quando, não está muito preocupado em vir a ser qualquer coisa. Uma mão com a metade para dentro do casaco e a outra metade pra fora dele, ela está aberta; voltada pra frente. Eu uso preto, a mesma cor que enquanto teclo vejo serem as que estão em minhas unhas, pára com preto e tenta lilás, a manicure diz. Eu tenho 22 anos, está bem aqui, diante de mim, nessa imagem.

            Cato comida de madrugada revirando a cozinha como se eu fosse uma formiga afoita a recolher migalhas ilícitas que caem no carpete, me alimento de pizza velha e ruim, que pegou todo o sol do dia calorento que passou.  Pela rua, só vi três figuras sumindo entre o amarelo incandescente da noite e dos postes, em suburbanas esquinas. Na minha casa, silêncio. Mas não é o bonito silêncio das ruas que me faz contemplar garotos perdidos, estrelas e a lua que está tímida, é um outro, aquele sem nenhuma crença característico do ponto final, perpétuo e trágico. Sem volta. Está silêncio e eu vou dormir. Está silêncio e eu vou perder o sono com o barulho dos ponteiros do relógio da sala. Está silêncio e estar em casa pode ser bastante claustrofóbico. Insone penso nas cores de Watteau e as situações cheias de supetões de sua época. A quantidade de raptos produzidos no período Rococó. A ilha de Citera vem até mim, mas também penso no sétimo continente de Haneke, porque pensar é o que resta nessas situações.

            O rapto é aquele momento no qual, tudo pode ser modificado sem que você possua a menor chance de caminhar na direção ao contrária, é um momento de total desconforto e perda de chão. Então, por que o fascínio? O corpo pulsa atrás do que não sabe lidar. O corpo quer nos levar até uma ilha com novos costumes, novos deuses, novas certezas. O meu corpo prefere estar em um quadro de Watteau e distante de um filme do Haneke. Meu corpo desliga e dorme. Meu corpo continuará cansado, até mesmo na segunda diante dos barulhos dos aparelhos eletrônicos e dos trilhos de metrô. Esse corpo, vai sentir-se massacrado pela rotina. Posso dormir por 12 horas, mas meu corpo vai doer quando meus olhos caírem sob as pessoas que são outras, mas que parecem as mesmas. Os meus sentidos estão entorpecidos por aquele sacolejo único do vagão. Diante de mim, as figuras bem nítidas. O cara que masca mecanicamente isopor Skinny, um casal cansado que dorme com as mãos repousadas entre as pernas um do outro, um outro rapaz com uma espécie de TOC que o leva a contrair os lábios nas mais ridículas configurações, um homem que reveza a leitura do meia-hora com a leitura das próximas estações enquanto balança a perna, dois amigos de trabalho que falam sobre as mães que já estão mais pra lá do que pra cá e, como promessa de felicidade, estou sentada no mesmo vagão, com os meus 22 anos impressos em meu rosto reluzente por anos dourados. As idades são várias, são números e estamos todos no mesmo vagão. Igualmente catatônicos.

O Charmoso Gatsby



            Nick e Daisy são idênticos quando querem algo, não se importam de não ser exatamente "aquilo" que sempre esperaram, contanto que seja alguma coisa. Em determinado momento, Nick que aparentemente deixou um passado mal resolvido no Oeste se dá conta que não está apaixonado por ninguém, entretanto sente-se feliz por ter Jordan ao seu lado para abraçar e quanto a Daisy, temos a descrição do momento em que precisou esperar por Gatsby: na falta de retorno do seu amado, voltou para festas e agarrou o melhor que pôde ao meio dessa vontade, no caso, o endinheirado Tom, que servia como uma luva para a sua mão por condizer com a sua situação. Afinal, ele era suficientemente rico.
            Quando esboço que são parecidos, admito que talvez não seja algo somente compartilhado por aqueles primos, mas sim, pela geração americana que ali nascia. Viviam o auge. O inicio dos anos 20, que de tão inebriados diante da própria beleza nem conseguiam avistar o urubu voando por cima da neblina que viria em 29. E, no front dessa esperançosa ostentação bem verde e luminosa, temos Gatsby. Tão de acordo com o benquisto pelos seus contemporâneos, ele era amado. Os frequentadores de suas festas chegavam a centenas mesmo sem sequer terem visto o anfitrião, porém diante da intimidade dos espaços lotados e impessoais aparecia-se até sem convite, sentiam-se agradecidos pela hospitalidade, mesmo com o ovacionado dono da casa sendo visto como um homem “que matou um homem”, como diziam por ai. Nesses tempos em que a Lei Seca estava mais fácil de burlar e que todos queriam suas mentes borbulhando, seus pés dançando e as noites intermináveis – não que tenha mudado muita coisa de lá pra cá, momento em que saliento essas pequenas permanências mais cheia de um certo medo bem egoísta acerca do meu próprio tédio, do que por conta daquela altruísta tristeza acerca da humanidade.
            Gatsby é aquele vizinho que a gente quer pedir uma xícara de açúcar, mesmo com três sacos de União na despensa. O charuto cubano apreciado quando se está satisfeito, porque ele em hipótese alguma seria uma busca por consolo, esse papel geralmente fica com o cigarro durante a primeira xícara de café nas manhãs ou na área aberta das boates, quando as músicas e as pessoas parecem mais deprimentes do que você, embora elas estejam sorrindo e dançando. Ele é o riso frouxo quase clandestino que é solto quando se acha cinquenta reais no chão, na mesma semana em que acabou de receber o pagamento, e a descoberta de que o brownie também vem com calda de chocolate quente além daquela bola de sorvete de creme.

Antes Da Meia-Noite: 18 Anos de Céline e Jessie



            Fui na sessão de 19h de Before Midnight no Estação, ali encontravam-se obviamente diversos homens de terno e algumas mulheres com roupas padronizadas em tons neutros, cabelos em rabo de cavalo, provavelmente refugiavam-se no cinema da chuva e do trânsito que lá fora atormentava. Os casais estavam aos montes, contudo me intrigava a idade deles: todos acima dos 25 anos com suas blusas sociais, relógios de pulso em material metalizado, cansaços, jeito confiante - mesmo assim lento - de caminhar, pequenos sussurros para se comunicarem e sorrisos necessários, sorrisos endereçados exclusivamente para o ouvinte e não para uma plateia invisível, muito destoante daquele outro tipo de sorriso, um sorriso barulhento que é mais comumente observado nos jovens de 16 anos que vemos lotar o cinema do Tijuca com seus diferentes uniformes escolares nas tardes de quarta.
            Os últimos minutos do filme, quando Jesse e Céline começam a brigar são os únicos em que os risos altos são escutados, aparentemente, brigas são motivo de humor, ainda mais diante do público já descrito. Quando as luzes acenderam, dava pra ver um casal satisfeito cujo o homem beijava o rosto da mulher enquanto a abraçava dando a entender que naquele dia só ia caber riso e enquanto eu me direcionava até a porta pude escutar uma mulher de calça marrom e blusa branca falar para a provável namorada, pois estavam de mãos dadas: “você faz igualzinho quando começa”. Já do lado de fora, na minha espera pelo almejado sortilégio de ter acesso ao banheiro, observei um rapaz que ao sair do lado masculino perguntou para a sua esposa ou noiva – esses usavam alianças – visivelmente cansada e sob um salto, se ela queria que ele segurasse a bolsa; o sorriso dele compensava a pitada de mau humor dela, creio, que se dessem bem e só estavam um pouco chateados por conta das filas.
            Richard Linklater consegue criar filmes que facilmente nos insere em seus contextos e sustenta diálogos que não precisam muito dos filmes anteriores para serem absorvidos por manter – mesmo que repetidamente – indagações bastante contemporâneas e algumas até mesmo atemporais sobre as nossas fixações de bar como o meio ambiente, os filhos, o casamento e o feminismo. Embrulhamos nossas dúvidas e as levamos para casa para conseguirmos acompanhar o ritmo em que elas vão surgindo, tendência essa que podemos confirmar em filmes que vão além da trilogia (“Dazed and Confused” de 1993 e “Waking Life” de 2001, por exemplo. Vale salientar a rápida aparição do casal por alguns segundos (vide). Aqui, ao contrário daqueles jovens confusos de 23 anos que tínhamos em 1995, jovens dispostos até mesmo a dar atenção para videntes e cartomantes para quem sabe, terem algumas respostas, temos agora um casal com menos devaneios acerca do destino e mais preocupações com o presente, eles de alguma forma, tentam dialogar sobre como ajeitarem o que possuem. Não é mais uma falação sobre ter filhos ou casar, essas temáticas que pareciam grandes demais, até mesmo distantes demais, tornaram-se reais.
            De início temos Céline estressada com uma medida ambiental que foi negada por não ser esteticamente agradável, frustrada e ainda diante de suas pequenas utopias abafadas para com o meio ambiente, que de 2004 (“Before Sunset”) até 2013 obviamente não melhoraram, entretanto enquanto a esposa está diante do desespero de estar insatisfeita e sem saber qual emprego seguir, Jesse está de bem com a sua vida profissional, seu último livro, não é tão elogiado quanto os dois primeiros que são sobre o casal, mas vai bem, pelo menos para o amigo escritor que o considera “ambicioso”. Pessoalmente, a minha cena predileta é ver Céline sempre preocupada com a sua posição no mundo, reclamando que não queria estar na Grécia, em um país em conflito com as chances de uma revolução ocorrer a qualquer instante, eis então, que temos Jesse com uma toga simbólica, reflexivo, rebatendo a afirmação da esposa com seus prognósticos de que nada ocorrerá, porque nunca ocorre nada.
            Um grande diferencial desse filme, também é a mesclagem de opiniões: Linklater foi bastante ardiloso ao nos colocar diante do jovem casal que jamais poderiam ter sido Céline e Jesse, pois esses dois não deixaram a utopia trabalhar ao trocaram telefones quando se conheceram e a tecnologia também os permitiu ir muito além, pois passam as noites conversando através do computador, até mesmo, dormindo juntos – tecnologia essa que impregna até a postura de Céline, que tem um celular em mãos para flagrar Jesse comendo a maçã da filha deles ou na ajuda para que pessoas unam-se até uma “revolução” eclodir.  Afinal, o jovem casal terá que esperar o destino os guiar ou até o velho medo que não permitiu que Céline e Jesse trocassem cartas ou telefones, aquele medo de se odiarem e enjoarem um do outro antes do tempo, ou que eles dois acabem juntos, enfrentando as miudezas da vida conjunta. Há também o lado idoso que teve o amado levado pela morte, emocionando todos os reclamões.
            Trata-se de um emaranhado de diferenças e experimentações que só conseguem se firmar com sucesso diante do intervalo que há entre um filme e outro, essa trilogia tem a força de ter sido construída após muitas vivências do próprio criador. Céline e Jesse são personagens que com o tempo foram bem talhados, que após os anos juntos deixaram de ser apenas palavras ao vento, agora lidam com o peso e com o convívio de questões que inocentes matutaram sobre algum dia vir a acontecer. Por mais que atualmente a vida deles gire em torno de muitos outros fatores que vão além do encontro no trem, essas ramificações de temas como as gêmeas que casal teve ou o filho de Jesse que está nos Estados Unidos, acabam virando objetos que a gente escuta muito mais sobre do que vê em si, pois na primeira oportunidade todos vão pro plano das palavras e das discussões, na prática, observamos pouco, porque no fundo o tête-à-tête é o charme principal desses dois. E lembrem-se, silêncio no cinema

O Tempo e a Fotografia de Michael Wesely



            Uma foto de Michael Wesely espanta ao vermos em sua legenda a data de feitura: 1997 até 1999. Ué, mas a fotografia não é a arte do instante? Essa pergunta é o que me leva até as palavras que ouvi em uma aula: “A fotografia tende ao movimento, ao dinamismo, à duração; enquanto o cinema tende ao retardo e à suspensão”. Olha só a arte subvertendo todo o senso comum e nos traindo de novo.

            Acredito que se trata de um ímpeto, uma vontade humana qualquer de esgotar as experimentações - por sorte e para o bom funcionamento da alma que só sente vontade de levantar o corpo da cama quando estas são inesgotáveis -, ou seja, o quão divertido pode ser subverter os objetos e o esperado, expandindo assim, o horizonte.

            No final do século XIX, por exemplo, existiam diversos fotoclubes para que fossem feitas trocas de descobertas pessoais acerca da fotografia com cada um testando em um canto o que lhe apetecia. Tudo era permitido, não havia certo ou errado, como calham de ser os inícios. Antes de artigos, cânones, delimitações de vertentes e definição de paradigmas, os próprios fotógrafos montavam o seu material indo atrás de itens como lentes, químicos de revelação e papéis fotográficos. Detalhes que tornavam os resultados finais de suas fotografias bastante distintos uns dos outros, porém, no século XX, esse hábito foi perdido com a estandardização e por conta da facilidade de se obter os materiais padronizados: produzidos em larga escala e, consequentemente, mais baratos e amplamente consumidos.

         A foto de Wesely insere-se no fim do século XX, acompanhando o soçobramento de diversos cânones modernistas. Ademais, ela vem como uma peça simbólica para nos questionarmos a respeito da produção contemporânea e percebermos que esse aparato de Wesely, teoricamente tão experimental e inovador, faz um percurso bastante similar ao dos nossos fotógrafos do XIX: a fotografia dita como “experimental”, sempre existiu.

         Há muito sobre essa foto de Wesely pela internet, por isso não sabia como abordá-la de forma diferenciada, me resta, apenas comentar que elas são fotografias feitas durante as reformas na Potsdamer Platz, a longa exposição foi utilizada justamente para incorporar o passar do tempo à foto que nos traz uma história sendo contada de forma singular, seguindo uma forma temporal que não pode ser chamada de fotografia usual, compondo dessa forma, um novo jeito de lidar com o tempo.

Obs.: Um bom questionamento para a imagem-movimento, uma videoarte de Sam Taylor Wood. Clique aqui e assista!

Tesouro Para Um Flâneur, por Paula Amparo


 

          Em uma das minhas constantes passagens pelo Centro, antes de seguir ao meu destino que era o MAM, sempre com a ideia de: “é melhor ir cedo, pode ser perigoso”, fui passear pela Praça Paris, que me fascinou justamente por possuir essa tal ideia de “perigo”, esses ares de Paris, mas não a Paris do cartão postal e da torre Eiffel, ela tem todos os indícios da Paris a margem, aquela homenageada através de palavras por Baudelaire.
            Sentei-me em um banco na lateral da praça, que por conta das poucas árvores boas para sombra preferi não ficar localizada no centro, afinal eram 15 horas e o Sol brilhava com vontade, de início pareceu o tipo de local pouco atraente para um piquenique ou até mesmo para um passeio dominical devido ao fato de estarmos no Rio-40-graus. Não podemos nos dar ao luxo de passear por lugares com poucas árvores provedoras de sombra durante os nossos verões, por isso o receio. Rapidamente, meus olhos que avistavam o jardim foram para o céu, afinal, já que as poucas árvores impedem o “tampamento” dos raios solares, a ausência delas também é útil para total apreciação do céu, contemplei as nuvens com carinho, por uma mera questão pessoal. Elas são inconstantes, por isso gosto delas. Enquanto estava hipnotizada pelo jeito que elas ocupavam o céu em uma bela segunda-feira de Março, aos poucos fui me perdendo naquele espaço.
            Ao descer os olhos completamente desprevenida, reparei em um adulto maltrapilho aparentemente morador de rua, completamente sujo indo em direção a fonte que está localizada no centro da Praça Paris, aquele indivíduo totalmente alheio a mim e a parte do que normalmente vejo em maior quantidade no Centro, que geralmente são os engravatados a lotarem as ruas, principalmente no horário do almoço, quando eles saem dos diversos prédios que ali da Praça mesmo, nos é possível avistar. Enquanto a Praça Paris teve a sua inauguração em 1926, encontro prédios que mostram a inexorabilidade do tempo, a passagem do mesmo em um fluxo de construção da vida; a paisagem muda, afetando e sendo afetada por nós.
            Edifícios como o prédio do BNDES construído nos anos do Chumbo em 1974 com todas as marcas da ditadura militar que essa associação remete divide espaço com prédios cheios de elementos de outras décadas, a paisagem urbana que a Praça Paris me dá, é um percurso histórico que oferece anos de Rio de Janeiro e anos de prédios a crescerem cada vez mais.

Ligue Por Uma História, por Paula Amparo


Havia um filme misterioso na minha lista do torrent que eu baixei antes do recesso, mas que acabei assistindo durante o feriado, sem nenhum tipo de informação a respeito e eu adoro quando isso acontece. O filme é de 1979, pré o efeito gigantesco das redes sociais. Quando no filme era narrado que os dois passavam até 12 horas no telefone, pensei que era exagero, mas me toquei que hoje em dia passamos 12 horas sentados em frente ao computador conversando com pessoas que só existem naquele espaço virtual.
Le   LeNavire Night ao pé da letra significa “O navio da noite”, mas se formos até o mundo subjetivo, podemos associar esse tal navio ao rumo desses dois seres que jamais se tocaram - em determinado momento no filme, temos a voz de narração afirmando: “Le Navire Night está parado sobre o mar. Ele não tem mais nenhum curso. Nenhuma rota.“. Eles se conhecem apenas no escuro, na noite. As ligações partem de F, ela é a única que consegue iniciar o contato devido ao fato de não ter passado para ele nenhuma informação como o nome todo ou o telefone, essas ligações não possuem curso, estão flutuando e ninguém sabe até aonde elas podem ir. 

Na sinopse do filme, anuncia que são imagens de Paris no crepúsculo, tal informação pode ser levada a sério, inclusive ratifico que o filme segue bastante pictórico para os fãs de paisagens e por mais estranho que pareça, esse tipo de narrativa não cansa. Ela é necessária, afinal, os personagens só se conhecem por conta das vozes e dos locais públicos onde os encontros são marcados, mas que por diversos fatores nunca chegam a serem concretizados. 

O atores são encantadores. A atriz, que tem olhos que eu vou classificar como em “formato de peixe” nos observa, e somos automaticamente absortos em uma bolha de placidez, uma espécie de serenidade, ainda mais com a palavra que é dita claramente enquanto ela nos observa: “Nada. Nenhuma imagem.”.

Ônibus I, por Paula Amparo


       As duas branquelas de bochechas avermelhadas rechonchudas ávidas a moverem-se juntamente com os sorrisos largos de ambas, estranhamente largos, se formos resenhar acerca dos assuntos acadêmicos que voam dos lábios dessas meninas e que matutam seus inquietos miolos cerebrais - incluindo teorias deleuzianas que mais parecem nunca terem sido entendidas, por isso uma delas repetia com afinco acreditar que a sociedade calcou um pacto no qual ninguém comentava a respeito, porque no fundo, seres humanos, sejam eles, professores ou alunos gênios ou pipoqueiros eruditos, nunca nenhum deles, haviam honestamente absorvido algo enquanto liam as pomposas e belas frases compostas pelo filosofo.
      Passeando por Sartres e existencialismos, tentavam identificar as pessoas arquivadas no escaninho, formando catálogos inconscientes de todas, para acharem um método científico cujo essa classificação culminasse em uma melhor aplicação das teorias sobre aquele estado de desespero desconfortante desnorteante que essas inocentes meninas encontravam-se, todos aqueles textos aristotélicos, uma hora ou outra teriam que ser digeridos, uma hora ou outra viriam a fazer mal, por isso no frio daquele 485 buscavam buscavam buscavam, ok, buscavam ansiando um meio exato, um meio digno de engenheiros, matemáticos e físicos para identificação da incógnita da questão, nem que essa busca fosse um tanto quanto ardilosa e imersa em café abandonado na chaleira que esfria ligadamente com o dramático suspiro pré-encerramento do expediente.
      Uma das meninas, a alta, em tom tão alto quanto a sua altura, dentro do ônibus lia a definição de Paul Tillich, para uma palavra já citada anteriormente: "Desespero é uma situação extrema ou de 'linha de fronteira'. Não se pode ir além dela. Sua natureza está indicada na etimologia da palavra desespero: sem esperança.”. A interpretação gerou aflição, elas já não sabiam para aonde correr. Logo, elas nadavam em círculos internamente com seus nervosismos típicos das moças que vivem em um lago, daqueles bem profundos, essas moças comumente habitam corpos de pequenos peixes; perdidas no escuro das águas, elas não conseguem ater seus pés nos chãos e os pensamentos, por conta de distanciarem-se tanto da terra, perdem-se incapacitados de seguir em linha reta.
       Os olhos das raparigas brilham traduzindo curiosidade em suas pupilas, nessa autoflagelação intelectual que é o poço escolhido para o repouso dessas ideias oscilantes, ideias atordoantes na insistente busca por uma conclusão, em uma viagem por aquela tal alegoria de esteriótipos perdidos no carnaval de personalidades monodimensionais, que para facilitar chamarei de conhecidos que estudam, trabalham e comem, ao lado dessas supimpas estudantes que berram demais quando cobiçam respostas.
      Desistentes de qualquer objetivo após algumas horas de conversa, uma delas ao perceber que maior parte dos personagens da trama de suas rotinas já estavam devidamente classificados conforme cor, tamanho e quantidade de massa cinzenta encefálica no corpo, arrisca timidamente discorrer sobre a atitude de ambas, ela tateia pelas arestas devido ao medo de expor mal a questão. A medida que a pergunta vai possuindo um terreno sem relevos para cair, cheia de sutilezas, a menina dos cabelos curtos diz:
-        Eu tenho medo, sabe.
-        De que?
-       Eu ultimamente olho para as pessoas, e as acho personagens, cê sabe. Então, o que elas acham de mim? Elas acham algo.
-        Sem dúvidas.
-       Aqui, enquanto falo e falo, sabe? Eu fico com medo, sabe?  Porque todos ao nosso redor avaliam as nossas atitudes e nos colocam em algo. Nós as classificamos, elas nos classificam.
       Houve um breve silêncio entre ambas, que se olharam com uma espécie de faísca guardadora de um sorriso nas pupilas, aquela chama responsável pela expressão: “ela sorriu com os olhos”. Portanto, aquele instante pareceu conscientizador do quão cômico era estar no ônibus caindo no precipício da contradição, enquanto andavam sobre o terreno das aplicações de pensamentos muito mal pensados em experimentações muito mal calculadas, entre etnocentrismos e egocentrismos e outros centrismos, por isso, sorriram com os lábios, até que, cautelosamente, as seguintes palavras – sem dó – foram lançadas em uníssono ao vento: “Somos nós, esteriótipos também?”. Esfinge.

Schools Are Prisons, diria o punk: por Paula Amparo



Título Original: Aftherschool | Dretor: Antônio Campos | Lançamento: Jan/2008
            Nem vou me apegar a falar do nome brasileiro que está por trás desse filme, pois algumas resenhas da internet já o fazem, sendo assim vamos para a primeira impressão: filme ambientado em cenário asséptico sobre o quanto na adolescência fomos colocados para escanteio dentro de instituições de ensino de merda para que os adultos vivessem suas rotinas – seu empregos, seus problemas, seus salários – com seus filhos suficientemente castrados pelo sistema que presenteia somente o bom comportamento. Afinal, creio que a maioria dos que chegam ao fim do ensino médio concluem nunca haver sido uma questão totalmente dependente de inteligencia e criatividade, receber o diploma.
            Barganhar com professores, respeitar às autoridades, dedicar-se em ser pontual e fazer os trabalhos, esses são alguns pontos associados ao se formar ou não. Ser bom/inteligente, é obter a pontuação requerida para ser aprovado nos exames, se isso não é decorar/treinar uma formula não sei como alcunhar e para tal, faz-se necessário seguir a linha do preestabelecido como correto. Isso variará dependendo do colégio, alguns exigem nota 5 e outros 6, você é o número que merece. Convenhamos, na convenção social mais conhecida como “sobreviver aos anos de escola”, a alforria só é concebida para os “bons indivíduos” ou os espertos suficientes para seguirem o padrão.
            Nos minutos iniciais, vemos essa relação hierárquica contemporânea que oprime diplomaticamente ao dispensar batidas com réguas na mão, substituindo-as por palavras, vejo a citação do coordenador do colégio na reunião matinal com os alunos para a moça que chega um pouco atrasada, ótima para ilustrar as ideias fatalistas sobre o futuro para os que não respeitam a rotina educacional proposta.

“Srta. Jameson, você dormiu bem? Acabou de perder um discurso inspirador sobre avisos, sobre uma possível inspiração para tentar vir a ser algo no futuro, mas eu não me preocuparia, o McDonald's ainda irá contratar pessoas depois da graduação.”

Realmente fazemos escolhas o tempo todo ou o meio nos arremessa em direção ao julgado como mais cômodo e promissor? Os alunos são uniformes, as escalas de cores do filme mostram-se limitadas, vira e mexe podemos ver um vermelho aqui e acolá. “Depois das aulas” segue como mais um corriqueiro relato sobre a geração youtube – ele é de 2008 –, pois já era possível ver o grandioso efeito produzido pelo fácil compartilhamento de imagens na geração da banalização da imagem graças a simples acessibilidade. E a banalização mais comentada, sempre foi a da violência, logo, seguindo o praxe da nossa época, o problema de Robert ficará centralizado no prazer fornecido pela pornografia violenta para ele. Entregando na primeira cena o fim, baseado no prazer-desajuste-social que o protagonista sente ao ver o terror no rosto das mulheres, o filme consegue de certa forma nos fornecer uma abordagem diferente aos temas youtube, violência e adolescência.
            Os indivíduos mostram-se predominantemente apáticos, um verdadeiro acúmulo por todas as partes: as pulsões sexuais e a vontade de socar a cara de alguém, angustiantemente guardadas no anseio por um grito que acaba por ser reprimido, aniquilado, comprimido e não há vontade por parte nem dos pais, nem dos responsáveis pelo colégio interno de ver a implosão desses sentimentos. Creio que esse distanciamento, entre os jovens e os que conseguiram alcançar a idade adulta até serem considerados psicologicamente adequados é bem retratado pelos enquadramentos ora  distantes, como se as peças – as pessoas – estivessem bem fragmentadas no espaço gigantesco no qual ficam largados ao vento qualquer tipo de exposição do verdadeiro eu, ora esses personagens são enquadrados em partes, apenas o pedaço da cabeça, pouco revelados em corpo e essência, demonstrando o distanciamento sob outro ponto de vista.
            Como se previsse o futuro, ele tenta falar com a mãe pelo telefone e ela só pede para seu filho dizer que está bem, ela compõe o arquétipo de um expoente na arte de ignorar, não faz perguntas por curiosidade, mas para cumprir seu papel/dever social. Robert muitas vezes é impedido de se expor (pela mãe, pelos amigos, pelo orientador, por ele mesmo, etc) virando um mistério, vemos suas ações mas não as entendemos por completo, não o vemos por completo. O relacionamento dele com Amy tido como um sexo rápido e cômodo no maior estilo: nós estávamos ali, salientam como os atos acabam por banalizados, tão passageiros quanto a camada superficial de Robert e aqueles tão iguais – como já disse, similares na superfície –, tão uniformizados.
            A base do sistema é desestabilizada quando duas adolescentes morrem de overdose por cocaína, Robert assiste a tudo, o enquadramento da câmera que o filma deixa em suspense o motivo do menino ter ficado parado sem gritar por ajuda. Ele é chamado para fazer um vídeo sobre a morte das gêmeas pois foi o único perto delas no momento final, o que nos leva para outro ponto alto do filme: os cortes que o garoto dá as cenas são criticados, não possuem música, mas são demasiados sinceros com a emblemática cena que só mostra os pais das meninas de costas. E a verdade, como o próprio coordenador do colégio propôs ao dizer que aquela cocaína foi oferecida diariamente, direta ou indiretamente, por todos os que rodearam as gêmeas.
            Os diretores sempre estiveram informados por mais de um ano, mas ignoraram. Desconfiam que a droga veio de dentro do colégio, mas ignoraram. Perceberam os transtornos de Robert, mas ofereceram medicação e ignoraram, para que tudo terminasse em absoluta normalidade obtida através de inúmeros esforços em esconder para debaixo do tapete o que incomoda, todos acabaram oferecendo assim, as costas.


Bureaucratics, de Jean Banning - Por Paula Amparo

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              Trabalhar em escritório, too much monkey bussiness, jamais amigo. Admito conhecer aos montes que fogem das saletas separadas por divisórias de alvenaria tão delgadas que qualquer revolta contra a máquina de fax pode acarretar na total destruição dela – seja por um soco do trabalhador-assalariado-proletário-brasileiro-que-não-desiste-nunca, seja pela mesma ser arremessada “acidentalmente” ao horizonte –, nesses ambientes claustrofóbicos creio que o desmoronamento das limitações – as paredes, por exemplo – façam parte do processo primordial para classificar um indivíduo como humano, o processo que chamarei de sentir-se insatisfeito.
Por isso, antes de qualquer insulto direcionado ao funcionário que te atende, pensem cheios de compaixão naquela máquina de fax que trava constantemente, naquele computador que só funciona com Windows 95 e naquele líquido de marca vagabunda que passou por uma diluição homeopática e que um chefe sacana ainda tem coragem de chamar de café, pensem que aquele funcionário guardião dos papéis da burocracia passa horas por dia naquele espaço que te deixa irritado após três minutos. Pensem, mas pensem com carinho.
Para essa situação ir além do seu imaginário, vejam a exposição que fica até 31 de março no CCJF do Rio de Janeiro ou confiram o site-portfólio do artista Jan Banning (link) que resolveu documentar burocratas de cinco continentes; oito países foram selecionados para o projeto (Bolívia, China, Índia, Libéria, Rússia, Lêmen e Estados Unidos), nos quais variados departamentos que podemos classificar como subconjuntos de um conjunto maior que alcunharei de “papelada interminável com um monte de coisa escrita definidora de como as coisas devem ser feitas, para que as engrenagens da sociedade girem”, ou para os mais íntimos: “burocracia”, apenas. Esses subconjuntos podem ser um departamento sobre narcóticos nos Estados Unidos ou um departamento financeiro do antigo secretariado localizado na Índia, porque de regras para as pessoas quebrarem o mundo está cheio.
As fotos seguem um padrão: são quadradas – formato que serve como luva de cetim para o tema –, a preocupação antes da feitura das mesmas era que os funcionários não mudassem nada na sala antes da chegada do fotógrafo, que sentado na cadeira delegada ao cidadão que precisa entrar em contato com o sistema, sentava e batia a foto.
O nosso olhar terá uma oportunidade de estudo ora antropológico, ora histórico e esse estudo acaba nos ajudando a entender as organizações políticas dos países representados. Trata-se de um prazer intelectual imerso em humor ácido avaliar essas fotos que podem passar como simples clichês documentais, porém que pertencem ao domínio das artes antes de qualquer coisa, afinal, trazem consigo o questionamento dos alicerces nos quais a nossa sociedade calcou-se, ao mesmo tempo que carregam beleza, uma beleza da mais singela, aquela que diz respeito a contar a realidade humana. 
India – 17/2003 [Pat., SP(n.1962)]
Sushma Prasad (n. 1962) é assistente no Gabinete do Secretário de Estado de Bihar (população: 83 milhões) na capital, Patna. Ela foi contratada “por razões humanitárias” por causa da morte de seu marido que até 1997 trabalhou no mesmo departamento. Salário: 5000 rupias ou 110 doláres.
(fonte: exposição do CCJF RJ)

            A imagem acima destaca-se pelo azul bonito em uma sala sem ornamentos e bastante sóbria, lotada de uma papelada amarelada que mal cabe nos armários, o pó apresenta-se como um elemento em destaque e quase decorativo dependendo do ponto de vista. A sala dessa funcionária indiana  entra em perfeito contraste com a sala de uma funcionária russa, por exemplo. Não somente a sala, há também a Rupia que quando comparada ao Dólar nos ajuda a compreender questões mais abrangentes relacionadas a discrepâncias na economia mundial.
            Na confortável posição de meros contemplativos, talvez não façamos sequer ideia de como é a vida deles, mas essas imagens irão expor uma pergunta para nós que não importando o nosso lado da mesa, será uma pergunta geradora de desconforto, desconforto necessário e que deve ser enfrentado. Refletiremos ao lado de Jan Banning.
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Babies, Por Paula Amparo



“Nada, no estado atual da ciência, permite afirmar a superioridade ou inferioridade intelectual de uma raça em relação a outra. […] Existem muito mais culturas humanas do que raças humanas.”
Claude Lévi-Strauss

O francês Thomas Balmès durante um ano documentou a vida de 4 crianças começando por filmar as mães grávidas fazendo os preparativos para a chegada dos personagens principais da trama “bebês” de 2010, eis que surgem os contrastes das barrigas na alternação das imagens: ora vemos a mãe africana pintando a sua com uma espécie de tinta vermelha, ora a mãe japonesa fazendo carinho na dela. Somos soterrados pelas galhofas infantis, porém, essa atmosfera descontraída permeada por fofura ambientada em belas imagens torna possível a compreensão de diferentes mundos por quem está assistindo a saga dos pequenos. Creio que Balmès usou uma sutileza deveras elegante para se expressar deixando bastante espaço para o pensamento livre, que corre solto enquanto formulamos opiniões através das instruções totalmente imparciais do longa. Imergir em “bebês” é um processo de autoanálise incrível, diria, necessário.
Temos Ponijão da Namíbia vivendo com outras crianças e mães em uma comunidade tribal, os homens raramente são vistos perto de seus filhos. Essas mães são retratadas como um grupo de mulheres sentadas a maior parte do filme observando seus filhos e cozinhando, não dá para saber quem é mãe de quem, as tarefas são exercidas coletivamente. Ponijão brinca com barro e “briga” com as outras crianças tornando suas brincadeiras mais brutas do que o rotulado como aceitável por nós, todavia, as mães nem se incomodam e os pimpolhos rapidamente ficam de bem. Na Mongólia aparece Bayar morador da zona rural levando sua infância rodeada por animais e claro, seus vários irmãos. Há uma cena em que Bayar leva uma lambida do cachorro, mesmo assim ninguém corre para passar álcool em gel nele, o que nos leva a imaginar o que fariam as mães de um contexto urbano característico das metrópoles mundiais que aflitas, sobem na cadeira mais próxima ao avistarem uma barata.
Representando esse tal contexto urbano há Hattie (EUA). Têm-se uma cena bastante marcante na qual a mãe de Hattie lê um livro chamado “Como ser a mãe que você deseja”, já em outra Hattie dá um pequeno tapa no rosto de sua mãe e a mãe reage mostrando para a filha um livro chamado “Sem bater”, a menina que mal sabe ler tenta entender a imagem na capa. Mesmo com todos os esforços dos pais de primeira viagem para educarem a filha da forma mais diplomática possível, algumas situações fogem do manual os deixando desastrados na hora de serem os pais que desejam, a falta de habilidade dos pais nessa área presenteia a pequena com o tombo mais memorável do documentário.
A outra família apegada à tecnologia é de Tóquio, pais de Mari. Mari se irrita brincando em um quarto repleto de brinquedos porque não consegue encaixar uma peça em um deles, exibindo demasiado nervosismo. Longe de tantos recursos para divertimento compostos de plástico, Bayar passa o dia explorando a fazenda, vivenciando aventuras incentivadora de acidentes, mas sempre saindo ileso delas: estresse passa longe do vocabulário quando nos referimos ao seu jeito de interagir com objetos.
  A mãe norte-americana diante da televisão encara-se no documentário, como se de fato  contemplasse pela primeira vez a si mesma: sentiu-se mal ao perceber o excesso de coisas que poderiam ser triviais ao desenvolvimento de Hattie, conclusão ratificada após assistir as mães da Namíbia. Na nossa sociedade atual, o essencial – comida e conforto – encontra-se de fácil, basta uma ida nossa ao mercado e temos comida congelada que após 10 minutos no micro-ondas está pronta, nosso jeito de obter o que desejamos é completamente diferente ao jeito dos moradores de uma sociedade tribal. Sobreviver não faz parte do nosso interesse primordial, já não precisamos inventar teorias para garantir nossa segurança – prédios com câmera,  policiais na rua e comida estocada na geladeira – fazendo-se comum vermos como indispensáveis símbolos que dependendo do ponto de vista são totalmente descartáveis.
No ambiente cultural no qual uma sociedade tribal está organizada, pode-se considerar besteira ler livros sobre “educar crianças”, contudo para uma mãe norte-americana absurdo seria deixar o seu filho rolar na lama. Eventos cotidianos intrínsecos à nossa natureza – tal como o corriqueiro ato de procriar – comprova que olhar a sociedade do outro é benéfico para entendermos a nós mesmos e principalmente, avaliarmos nossas prioridades. Obrigada Bàlmes, por essa reflexão.








“Nós, pessoas razoáveis, não somos entendidas.”
Frase do filme “A Voz da Lua” de Fellini.

Odeio ecochatos e marx-chatos. Eles falam muito. Falam, falam, falam. O problema não é nem o tema; acho importante usar menos inseticida nas baratas, menos agrotóxicos na frutas, menos couro nos sapatos, menos carne na mesa, menos dióxido de enxofre nas chuvas, menos hormônios no leite, menos matadores de golfinhos no Japão, menos esgoto na Baía de Guanabara, menos  pele de chinchila nos casacos e claro, mais empregos decentes porque todo homem possui direito ao trabalho.
Agora, o que não entendo é a baixaria. Nunca tive forças para briga, confusão, dormir em ocupação, comício, passeata e todo o mimimi por trás de defender uma causa. Já fui, já participei, mas nunca senti o conforto de estar completamente dentro, sempre fora. Deslocada por não crer. Vivendo com os meus “poréns” tão característicos das contradições humanas em busca da utópica liberdade. Em busca de dias melhores, sorrisos melhores, amores melhores.
Pior do que a baixaria, só as pessoas. Toda a incoerência de reunião no qual uma boa-moça-usando-saia-da-Cantão berra que o inimigo é a burguesia ou o rapaz-adidas-no-pé com um poster do Che Guevara no quarto. Maldizem a si mesmos, jogam-se no bueiro daqueles que só possuem o direito de serem ovelhas: Ovelhas da Adidas, do Fidel e das empresas que propagandeiam o nosso dever de fechar a torneira para escovarmos os dentes, enquanto eles por direitos de estarem pagando-melhor-do-que-você liberam um montão de dióxido de carbono por uma chaminé cinza e feia.
Aí está a preguiça, está todo mundo tão certo das coisas. Não classifique meu discurso como o gracejo sofista da menina incapaz de desagradar os que pensam diferente dela, é que às vezes, eu honestamente não vejo verdade ou mentira, justamente por não ter nem ao menos pensado a respeito. Por ora, prefiro só escutar, sorrir e balançar levemente a cabeça. Se nada sei, mantenho a possibilidade de alguma coisa levar para digerir-refletir-contextualizar, muito obrigada por tudo, na minha casa.
Localizada na posição mais equidistante das ideias escolho sinceramente ficar a margem da própria vida pelo privilégio de mudar a opinião toda semana, tateando esse escuro-abismo de cair, misturar-se até diluir, no devastador mundo das reflexões incessantes. Sinto-me demasiado nova para ser adepta das escolhas perpétuas, não quero e não posso – jamais – fechar-me para tudo que ainda está por vir, e o que vem saltitando e cantando parece tão maravilhoso, que acaba por ficar o desejo de após beber vitamina de morango em uma manhã de sábado abraçar logo em seguida essa tal magia, afinal, já disse que acredito em utopias, né? Quem sabe, até faço uma escolha quando eu estiver preparada para sair da metade do caminho.




Título Original: Les adieux à la reine | Dretor: Benoît Jacquot | Lançamento: Mar/2012




“Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e a grande moderação à mesa geralmente anuncia costumes dissimulados e almas duplas.” 
Jean-Jacques Rousseau

O horror ao vazio do período Rococó nunca sairá de moda, o requisitamos em nossas vidas e obras, somos uns saudosistas pelo o que não tivemos, por isso as constantes visitas a esses tempos. Não o superamos, honestamente. Isso explica o sucesso atual do cabelo rosa algodão doce de Elizabeth Banks em Jogos Vorazes. Amamos o excesso visual, consequentemente, amamos a volta de Maria Antonieta - em um filme francês dessa vez, o “Adeus, minha rainha” de 2012 baseado no romance escrito em 2002 por Chantal Thomas. Trata-se de diversas vias a terminarem em um simbolo só.
No lugar da leveza de um quadro de Fragonard com seus amantes roubando beijos arriscados e as festas galantes nos jardins, temos o desfalecimento da vida em corte. O filme muitas vezes narrado em nervosas madrugadas iluminadas por velas, mostra a angústia dos dias antes da Revolução Francesa através do olhar de Sidonie Laborde, uma fictícia criada encarregada da biblioteca real cujo ofício é narrar livros para a rainha.
A câmera muitas vezes faz o percurso por detrás das costas de Laborde, andando pelo palácio em completa crise, a criada vira o público dos nobres misturados aos servos pelos corredores para trocarem informações a respeito do que acontece do lado de fora do mundo deles, um mundo no qual eles sempre pareceram imunes. O sentir-se pequeno ao ponto de ficar igual a todos os demais, emoldurado pelo medo daqueles que sentem o poder esvaindo de suas mãos sobrecarrega essas cenas.
Após o povo invadir a Bastilha, uma lista com mais de 200 nomes que devem ir para a forca aparece tornando-se impulsionadora para fuga dos nobres, eles abandonam assim, a rainha para trás vendo soçobrar o seu antes seguro status social. O filme é uma extensão de um momento abordado rapidamente no filme de Coppola, o momento em que têm-se uma Antonieta mais madura presenciando somente a crise de seu reinado. Há uma cena incrível no nível do fim de “Ligações Perigosas”, cujo a rainha após encarar austeramente os da corte ao lado do rei, dirigi-se para um local reservado ao lado de Polignac, ao ficar segura dos olhares remove a maquiagem de sua face substituindo a expressão fria por um choro guardado, começando a ser ela mesma; tirando de si, as famosas máscaras sociais do período Rococó e a latente necessidade de manter uma imagem.
São as sutilezas secundárias do desenrolar da trama que compõe o charme desse filme, uma delas é ver a criada sendo apoiada na escolha de “Confissões” de Rousseau para uma leitura tranquila no qual a rainha fosse deleitar-se, e lembrar que um dos maiores endossadores do discurso iluminista também era admirado por alguns de seus escritos na corte – grifando aqui, que a famosa citação dos brioches nunca foi de Antonieta (Fonte). A rainha, é um bebê mimado igual a famosa Antonieta de Coppola, o amor por moda é ressaltado quando a mesma tem uma ideia para um novo vestido: reúne-se nas cenas a belas roupas, os belos cabelos e a bela arquitetura, mas as famosas farras da corte francesa não acham espaço para instalar-se nessa ruína.
O filme poderia passar em branco, todavia torna-se interessante por abordar a suposta bissexualidade da rainha, assunto pouco discutido. O alvo para essas divagações é a Madame de Polignac, amiga intima ganhadora de diversas regalias para ela e a família, após uma repentina união com Antonieta. O último desejo da rainha é tirá-la do caos, o método para tal, trata-se de mais uma especulação atingida com a magia do cinema capaz de devanear até tornar interessante o que poderia ser estupidamente banal.