Leitores (Que) Formam Leitores

                                                                                                                                                                      Foto: Synne J.
A leitura tem o poder de despertar em nós regiões que estavam até então adormecidas. Tal como o belo príncipe do conto de fadas, o autor inclina-se sobre nós, toca-nos de leve com suas palavras e, de quando em quando, uma lembrança escondida se manifesta, uma sensação ou um sentimento que não saberíamos expressar revela-se com uma nitidez surpreendente. (Michèle Petit in “Os jovens e a leitura”)

Toda vez que começo a pensar no que vou escrever para o Manifesto, muitas ideias vem a minha mente, e me pego embaralhada em meus pensamentos. Mas desde minha ultima postagem já tinha decidido – ou melhor, quase –, o tema escolhido seria: formação de leitores. Como convencer alguém que ler é muito mais que uma obrigação, tampouco um castigo que deva ser cumprido? Ler é entregar-se a um mundo desconhecido (ou muitas vezes reconhecido), ler é aprender com a dor do outro, assim como com a alegria e outras questões. Eu, por exemplo, leio para me tornar uma pessoa melhor.
Como esse espaço não é voltado para Academia e eu não tenho que defender uma tese para ser aprovada, eu decidi escrever sobre o que significa efetivamente esse ato para mim. Não vou me preocupar se estou sendo clichê ou mesmo se não estou tendo embasamento teórico, afinal, uma máxima que sempre defendi é que o primeiro teórico não teve teórico para se basear, não é mesmo?
Brincadeiras a parte, eu venho me perguntando, como pode um país que não lê encher um evento como a Bienal do Livro? Será que não tem alguma coisa errada? Ou será que esse é um dos caminhos? Eu costumo ouvir muito quando percebo jovens lendo Best-sellers (que sim, reconheço ter um pouco de preconceito), que é melhor eles lerem aquilo do que não lerem nada. Também não sei se a solução passa por ai. Pois afinal, que leitores seriam esses que estariam sendo formados?
Um mundo já pronto e entregue de bandeja pode, a princípio, despertar mais interesse. Mas e a sensibilidade de perceber as nuanças que estão entre uma linha e outra? Quando o leitor não é apresentado ou mesmo “preparado”, – pois em alguns momentos é preciso realmente um preparo – sempre vamos dizer que esse ou aquele autor é muito difícil. Ou que eu não quero ler “tristeza”, pois a vida já é muito triste. Sim, mas e ai?
Acredito que a literatura possa ser um entretenimento, sim, como o cinema, a música e outras artes. Acredito, mas não é minha preferência, mas não posso descartar essa função também. Mas, a grande questão é que o mercado quer impor essa maneira como única, e em relação a isso eu discordo piamente e discuto. “Vamos publicar o que vai virar filme”. “Vamos escrever sobre vampiros e outras sagas porque os jovens gostam”. Mas mais uma vez eu repito: o problema é ficar só nisso. O problema é a superfície apenas, que não permite que nos aprofundemos. Isso sim me incomoda muito. Assim como “jovens” escritores que mal leram algum clássico, e já se consideram grandes escritores, pois ser escritor ainda é algo que impressiona. E esquecem a importância da leitura...
Mas como disse no título, esse texto é apenas o começo do debate: parte I. Acredito que a única maneira de formar leitores é sendo leitor, por jovensque de que adianta ter um discurso bonito, apontar uma série de questões se nunca está com um livro em mãos?

2 comentários:

  1. Louise,perfeito. "O exemplo arrasta." Acredito que o caminho do leitor vai de traçando aos poucos,ele lê exaustivamente os autores da moda,sagas,vampiros e, de repente,essa leitura não mais o satisfaz. Neste momento,é fundamental que seja apresentado aos clássicos da Literatura. Este é o fazer do professor/leitor.
    Minha trajetória de leitora começou com fotonovelas. Depois de tempo,descobri que o "esquema" era o mesmo,procurei a biblioteca de minha escola e comecei a devorar a obra de Machado, José de Alencar, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade.Então,ler literatura de qualidade tornou parte de mim.

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  2. Lembro de quando eu lia as "Sobrinhas da Bruna Onilda", se eu pegar qualquer livro da coleção, vou folhear com enorme carinho. Depois os romances de banca, que me faziam chorar sem parar, esses, também, vira e mexe folheio com carinho. Os suspenses de Sidney Sheldon, como esquecer? Até que, um dia, sem ninguém pedir ou apresentar, procurei livros na parte obscura da biblioteca do colégio, aqueles livros mais grossos e amassados. Fui até eles porque queria qualquer desafio e fiquei apaixonada pelas ilustrações de "Cem Anos de Solidão", que não eram coloridas, eram traços pretos e passavam uma certa melancolia por mais irreais que parecessem ser. Comecei a procurar desafios depois dele, porque lembro de ter sido muito difícil de ler na época, de eu ter relido várias vezes certos capítulos, travei no final e não tive pressa. Ai começaram as buscas pelos livros que não davam pressa. Os que eu queria travar diversas vezes até largá-los sem ter uma certeza completa do mistério ter sido desvendado no final. "O problema é ficar só nisso", você diz e eu concordo, Louise. Acontece que, a gente perde todo o prazer do desafio quando decide parar no que desce facilmente, de vez em quando, faz muito bem não entender as coisas e deixar os teóricos pra lá.

    Falei demais, mas tudo que eu queria mesmo era elogiar esse texto que passa muita honestidade, por isso adoro a sua assinatura. Você enche de verdade as coisas que escreve. (:

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