
O
impacto que me causou a primeira audição de "A tábua de esmeralda"
(1974) foi de espanto. Um Jorge Ben místico! Desde a primeira faixa, "Os
alquimistas estão chegando os alquimistas", que começa com um
"Salve", e depois com o cantor dizendo: "Então tem que dançar
DANÇANDO". As faixas têm o balançado típico das canções de Ben, mas com
algo sombrio - principalmente no uso dramático das cordas, com arranjos
brilhantes de Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard.
"A
tábua de Esmeralda" mostra, em seu som e em suas letras (todas de Ben), a
influência do ocultismo e da alquimia, além de exaltar a natureza. O artista
(nascido em 22 de março de, possivelmente, 1942, no Rio de Janeiro) estava mergulhado nos estudos
sobre o tema, e concebeu um LP inteirinho com essa pegada cósmica. Ouvir esse
disco é ter a sensação de estar em outra dimensão.
Claro
que o Jorge Ben puro, romântico e "pegador" está lá, com as graciosas
"Menina mulher da pele preta" (regravada recentemente pelo
Forroçacana) e "Minha teimosia, uma arma pra te conquistar". Além da
fofa "Magnólia", uma pérola que remete ao tema maternidade, chega a
emocionar.
"Eu
vou torcer" é uma lista das coisas bonitas pelas quais vale a pena viver,
como a paz, o amor, as moças bonitas e as quatro estações (só não concordo
quando ele canta "pelo meu mengão", mas o que posso fazer... risos).
"O homem da gravata florida" fala de Paracelso (1493-1541), suíço que
foi um dos grandes cientistas do mundo - e tinha fama de mago.
Mas
os petardos do disco são: "Zumbi", uma canção de alto impacto que
fala da chegada dos escravos ao Brasil (impossível ouvi-la sem se arrepiar);
"Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda", inspirado num
tratado hermético escrito pelo faraó que dá título à canção, e traduzida pelo
famoso ocultista Fulcanelli (que ganhou a coautoria da canção); a genial
"Cinco minutos", que fecha o disco com os versos "Pedi você /
Prá esperar 5 minutos só / Você foi embora sem me atender" - genial porque
a faixa anterior, "Hermes", tem 5 minutos e meio; e a que considero a
melhor não só do disco, mas a melhor composição da carreira de Jorge Ben:
"Errare humanum est", que dá a impressão que o compositor leu o
famoso livro de Erich von Däniken (1935-), "Eram os deuses
astronautas?", e "viajou" sobre o tema. O resultado é impressionante.
E apresento aqui abaixo.
"A tábua de esmeralda": disco fundamental para a História da MPB. É inebriante.

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