Leonor


            É engraçado ver a forma com a qual Leonor interage com o mundo a sua volta, essa curiosidade felina. Fica sentadinha olhando as formigas, vez e outra cheirando e passando-lhes a pata, enquanto as formigas, desnorteadas, tentam fugir e seguir seu rumo. Leonor sempre curva a cabeça para o lado depois que as cheira. Quanto aos pássaros, sempre é um momento mais intenso – já tive de salvar dois desavisados de suas garras e bocarra. Vivo a dizer-lhe que não pode pegar o passarinho, que ela tem sua própria comida, vivo a esquecer-me de que é este o seu instinto. Ao mesmo tempo sinto aquele orgulho materno por ser minha pequenina tão exímia caçadora (menos de baratas, das quais aqui em casa todos correm, exceto minha mãe, sobrando-lhe o trabalho sujo de eliminá-las e limpar as evidências).
            Sempre que acordo cedo venho ao terraço para ficar observando o ritmo do amanhecer, pensando na vida, embalada pelas quimeras de Vênus. Leonor sempre está presente. Corremos uma atrás da outra, abraço-lhe inconvenientemente, cato suas pulgas enquanto tenho de desviar de suas mordidas de indignação. Ficamos sentadas nos encarando, ela fecha os olhos, farejando o ar, seu rosto esboça um deleite secreto, uma forma de sentir o mundo e a vida além das limitações da minha espécie. Tento também farejar o ar de olhos fechados.
            Leonor fica deitada, absorta em seus próprios pensamentos e teorias aos quais nunca terei acesso – quem sabe... Os gatos têm disso, pensar e dormir bastante. Observo Leonor que – quando não está enlouquecida atrás de uma bolinha de papel, ou da sombra que projeto com a minha mão – equilibra-se com o mundo, seu corpo, mente e espírito. Observo minha pequenina e ambos os lados de sua moeda: o lado serelepe e curioso de uma jovem caçadora; o lado místico da gata preta, silenciosa e com um mundo em sua mente.

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