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Leonor


            É engraçado ver a forma com a qual Leonor interage com o mundo a sua volta, essa curiosidade felina. Fica sentadinha olhando as formigas, vez e outra cheirando e passando-lhes a pata, enquanto as formigas, desnorteadas, tentam fugir e seguir seu rumo. Leonor sempre curva a cabeça para o lado depois que as cheira. Quanto aos pássaros, sempre é um momento mais intenso – já tive de salvar dois desavisados de suas garras e bocarra. Vivo a dizer-lhe que não pode pegar o passarinho, que ela tem sua própria comida, vivo a esquecer-me de que é este o seu instinto. Ao mesmo tempo sinto aquele orgulho materno por ser minha pequenina tão exímia caçadora (menos de baratas, das quais aqui em casa todos correm, exceto minha mãe, sobrando-lhe o trabalho sujo de eliminá-las e limpar as evidências).
            Sempre que acordo cedo venho ao terraço para ficar observando o ritmo do amanhecer, pensando na vida, embalada pelas quimeras de Vênus. Leonor sempre está presente. Corremos uma atrás da outra, abraço-lhe inconvenientemente, cato suas pulgas enquanto tenho de desviar de suas mordidas de indignação. Ficamos sentadas nos encarando, ela fecha os olhos, farejando o ar, seu rosto esboça um deleite secreto, uma forma de sentir o mundo e a vida além das limitações da minha espécie. Tento também farejar o ar de olhos fechados.
            Leonor fica deitada, absorta em seus próprios pensamentos e teorias aos quais nunca terei acesso – quem sabe... Os gatos têm disso, pensar e dormir bastante. Observo Leonor que – quando não está enlouquecida atrás de uma bolinha de papel, ou da sombra que projeto com a minha mão – equilibra-se com o mundo, seu corpo, mente e espírito. Observo minha pequenina e ambos os lados de sua moeda: o lado serelepe e curioso de uma jovem caçadora; o lado místico da gata preta, silenciosa e com um mundo em sua mente.

Quem Quer Entender o Destino, Tem de Sobreviver a Ele




            Eu tinha 14 anos quando um conhecido da época do MSN e Orkut me passou o PDF de um livro que, segundo ele, muito provavelmente me agradaria. Eu já tinha ouvido falar de O Mundo de Sofia, mas não foi através dele que conheci Jostein Gaarder, conheci o autor norueguês através de uma carta escondida sob a manga, o curinga.
            Eu - na época, adolescente extremamente aquariana – comecei a ler O dia do curinga pelo computador, passei uma tarde inteira absorta na história do garoto Hans-Thomas, que sai de Arendal, pequena cidade norueguesa, em direção à Grécia junto com seu pai “à procura da mulher que os deixou oito anos antes”, uma mãe-esposa que se perdeu no mundo para se encontrar, surgindo nesse trajeto acontecimentos aparentemente sem pé, nem cabeça, na vida do menino. Naquela mesma tarde decidi parar de ler o livro, não porque ele era desinteressante ou qualquer coisa do gênero, muito pelo contrário, eu queria ter aquela história em minhas mãos, queria poder folhear e cheirar as páginas que carregavam a história de Hans-Thomas (e das cartas da paciência de Frode, e das várias outras situações que vão se desenrolando na narrativa). Não sei o porquê, mas – apesar de já ter esbarrado com esse livro em diversas livrarias e sebos – só fui lê-lo agora, depois de cinco anos. Se eu, inspirada - ou não - pelo livro, acreditar no destino, direi que esperei o tempo certo, e que ele parou em minhas mãos no momento mais adequado. Como eu acredito, assim o digo.
            Após terminar a leitura do livro – com aquele peso no peito que sempre se sente quando se acaba de ler uma história, a qual achamos que poderia ser para sempre -, percebi que, de fato, aos meus 14 anos, no auge da rebeldia, eu não conseguiria compreender – sem tendências pretensiosas – os pensamentos transmitidos por cada personagem apresentado na história de O Dia do Curinga. Hoje vejo que algumas afirmações feitas pelo jovem Hans-Thomas e seu pai podem soar um tanto peremptórias demais, um tanto insensíveis (quanto à mãe-esposa, mulher perdida no mundo), ou inflexíveis (quanto ao Tempo). Entretanto, nada disso ofusca a beleza dessas próprias reflexões, ou desvaloriza o mérito de tantas outras levantadas. Nessa história você pode perceber que ninguém é obrigado a concordar com qualquer frase dita devido ao efeito filosófico/poético que suas palavras carregam, e toda a leveza da narrativa te mostra que tais frases são apenas isso, apenas reflexões, através das quais o leitor começará a fazer as suas próprias. Essa, porém, não é a única magia do livro.
            A magia – também – está em sua organização, cada capítulo é uma carta do baralho, há inclusive o do curinga, obviamente. Para mim – admiradora de baralhos e de curingas – essa característica já seria o bastante para me encantar... O dia do Curinga carrega um mundo dentro de um mundo, dentro de outro mundo, dentro de outro mundo mais duas vezes, e tudo vem a se encaixar como num quebra-cabeça, como cartas espalhadas aleatoriamente que começam a serem organizadas por uma mão invisível que trança as vidas no Destino. O livro carrega uma história por vezes tão lúdica, tão fantasiosa, que você quer sim se agarrar nessa corda, acreditando com todas as forças na realidade dos peixinhos coloridos, da bebida púrpura. E, ao menos para mim, a grande jogada do curinga é você deslocar daquele universo as capacidades de observação e sensação, trazendo-as para cá. O dia do curinga encanta, porém encanta muito mais àquele que se dá ao prazer de observar, admirar e sentir os pequenos detalhes da vida, do cotidiano.

"É Pra Agora, Ou Pra Viagem?"

                                                                                                                                Foto: No Lugar de Sempre, Lalesca Fravoline
            Sento no lugar de sempre, mas hoje é segunda, costumo vir aqui somente nas sextas. Penso na vida, fazendo hora, esperando pelo tempo, os ponteiros escorrendo pela borda do relógio-quadro da existência. Pessoas transitam através do vidro da lanchonete, carregando sobre os seus ombros o peso de suas histórias – verdades e mentiras. Um dos clientes no balcão está inquieto, batendo o pé, tentando ritmar os minutos preguiçosos a sua batida frenética.

            Já é noite, seis horas. Agora são poucas as pessoas passando por essas ruelas, seres vivos com uma alma dentro do corpo (o quê nos confere a vida, o corpo ou a alma?). Fico angustiada com o momento de final de expediente, o lugar se esvaindo, tornando-se deserto, salvo os ecos – ruídos – sociais. Todos numa eterna pressa para voltar ao lar, alguns a quererem um banho, janta e novela, quiçá uma rapidinha de 10 minutos, uma gozada e sonhos sem pesadelos.

            Enquanto isso estou aqui desse outro lado da janela, vidro, vitrine, fazendo hora, pensando na vida, tomando nota de rostos que não me dizem respeito, rostos que nunca imaginei, que carregam vidas incógnitas, às quais eu daria um tempo da minha existência para conhecer.

A Queda do Arcadismo, por Lalesca Fravoline

        Antes de iniciar o meu singelo devaneio, um tanto leigo, um tanto ousado, ao propor escrever sobre paisagem, gostaria de explicar o que me levou a criar um post sobre tal tema. Quando se passa madrugadas escrevendo ensaios, lendo textos sobre natureza e paisagem, quando alguém lhe apresenta a ideia de que aquela não existe, sendo um conceito criado pelo homem e que varia entre as culturas e épocas, você passa a enxergar com outros olhos o ambiente à sua volta, natural ou artificial. Portanto, desejo tentar expressar e dividir com vocês, caros caríssimos, essa experiência intelectual e, principalmente, sensorial oriunda dessa nova forma de olhar, trazendo para cá o relato da minha visita ao jardim do Palácio do Catete, no qual também se encontra o Museu da República, que localiza-se, obviamente, no Catete, Rio de Janeiro. 
       Acho que o ser humano possui uma forte conexão com o ambiente natural, conscientemente ou não, e a partir do momento em que o Homem abandonou a vida selvagem, passando a viver em sociedade, essa relação, assim como a própria Natureza, tornou-se um tanto mistificada. Entretanto, quando o ser humano aprofundou-se demais no meio artificial, ele teve de trazê-la novamente para junto de si, embora protegido dos riscos reais de se morar num espaço selvagem e hostil. Nesse momento então criou-se os pequenos jardins, inicialmente feitos dentro dos muros das cidades, uma mera lembrança simbólica que poderia ser admitida dentro da civilização.
       Ao caminhar pelo jardim do Palácio, sombreado devido à distribuição das árvores e espaçamento entre suas folhas, percebi algumas pessoas de diversos tipos de faixa-etária, todos aproveitando a sombra e brisa, sentados em banquinhos, ou, no caso das crianças, a correrem pelo chão de terra batida, quase sem pisar no gramado – hoje sei que aquelas plaquinhas de “não pise” postas sobre a grama são ferramentas para uma espécie de castração, pois nos impede de usufruir de mais uma parte do jardim posta ali para nosso conforto e deleite. Meu olhar, analisando tudo ao redor, e já mais treinado depois de estudar tantos textos sobre a relação do homem com o meio e a evolução deste, não me permitiu uma maior absorção naquele ambiente, mesmo que eu soubesse a todo instante que essa era sua intenção e funcionalidade.

Dezenove, por Lalesca Fravoline




“Os 19 anos são uma idade egoísta, que restringe severamente as preocupações da pessoa. Tinha muita coisa na minha frente e era o que me importava. Tinha muita ambição e era o que me importava. Tinha uma máquina de escrever que carregava de uma porra de apartamento para o outro sempre com alguma coisa para fumar no bolso e um sorriso na cara. Os compromissos da meia-idade estavam longe, os ultrajes da idade avançada, além do horizonte.” 
Stephen King sobre os 19 anos, caros caríssimos.

     Ah, os 19... Um ano entre os esperados 18 e o início das duas décadas de vida. Os 19 anos que martelam na cabeça dos jovens anjos e diabos sobre a vida e seus ideais. Se você é jovem ainda, amanhã jovem será...
       Tenho 19 anos (embora devido à minha exímia produção de colágeno posso ser barrada na entrada de algum evento se não apresentar a ID), a faculdade por vezes se torna um bicho de sete cabeças, a perspectiva sobre a vida e o peso dos os anos que estão por vir é uma sombra inconstante. E, numa versão mais rústica e prática que uma máquina de escrever, tenho uns bloquinhos que carrego para cima e para baixo dentro da bolsa, cheios de pensamentos que já nem me lembro mais, de rostos desconhecidos que talvez permeiem minha mente ainda, de rabisco e de letra corrida.
       Aos 19 corro contra o Tempo – corra, coelho branco, pois o relógio está perdido e nunca se atrasa -, por causa ritmo que levamos nessa vida ocidental que me impulsiona, sem carinho ou explicação, para anos à frente, os quais ainda não quero ter. Meus ídolos, precoces demais em vida, também já me deixaram prazos de entregas, ídolos que não respondem às minhas orações quando a inspiração se esconde n’algum lugar que não consigo achar (não o Edgar, esse não, jamais... Edgar é café, luz de vela, noite chuvosa e muita esquizofrenia); ídolos que estão nas minhas paredes, nas quais ponho minhas palavras também, um gracejo ao ego. Assim vou, embrenhando-me nessa corrida ao mesmo tempo que vou contra ela, pois o mundo é grande e minhas pernas, pequeninas. Quero andar devagar no fim das contas, olhar nos olhos dos transeuntes e reparar nas cores da cidade, sentir vertigem quando, pelas ruelas, olhar para cima, buscando o topo dos prédios e o céu entre eles. Respirar o urbano e o natural, vivendo nessa dualidade, em ambos os vícios. É assim que se vive, ao menos como eu tento, olhando para os tantos outros desconhecidos que – mesmo sem a consciência – também são vivos e potencialmente pensantes; olhando para o alto, olhando para baixo, esquerda, direita, 360° se possível. Olhando, e sentindo.
       Dezenove anos, uma ingênua esperança, mas acima de tudo, uma mente perturbada, bloquinho e caneta na bolsa. Paixão.

Título Original: Les Misérables | Dretor: Tom Hooper | Lançamento: Dez/2012

            Sexta-feira, término de Carnaval no Rio de Janeiro. Uns amigos e eu tivemos de fazer uma pesquisa de campo para um dos trabalhos de final de período. Um belo dia, céu azul e sem nuvens, o calor não estava estarrecedor. Terminamos o trabalho, fomos comer algo, e, com uma troca rápida de meia dúzia de palavras, fomos correndo ao cinema mais próximo, sendo Les Misérables o filme sobre o qual eu vinha matutando há um certo tempo, fazendo uma certa questão de vê-lo.
            Atravessamos a rua, a sessão começava às 17:40hrs e o relógio já marcava a hora. Catamos nossas notas e moedas jogadas dentro das bolsas, compramos nossa água e fomos para a sala de exibição, o filme já havia começado há uns cinco minutos. Gosto dessas decisões repentinas, caros caríssimos, de tirar a moeda do bolso e jogar cara e coroa com a vida. E quando isso se mescla com a experiência cinematográfica, tudo parece mais intenso, mais mágico, e Les Misérables conseguiu incorporar-se nessa atmosfera dignamente.
            Pegamos um péssimo lugar na segunda fileira, o telão ficou durante um bom tempo jogando imagens em meus olhos, até chegado o momento no qual minhas pupilas foram se adequando à situação, então aconcheguei-me no banco e fui.
            A complexidade do filme não me permite ousar vir aqui e escrever uma resenha qualquer, ou um resuminho sobre o que se trata a história, é uma experiência altamente sensorial. Les Misérables é radicalmente uma obra do gênero musical, com pouquíssimas falas (que podem ser contadas em uma mão só) e quando você pensa “RÁ! Ele está falando!” surge de algum lugar uma musicalidade na fala da personagem, através da qual se é embalado. Não nego que esse é um filme cansativo e pesado, com dezenas de informações para serem absorvidas – e sentidas – pelo espectador, mas, apesar disso, merece todas as indicações que veio a receber.
            A fotografia retratava em muitas cenas – por exemplo, a das prostitutas no cais (uma das minhas favoritas por sinal) – a decadência de uma França do século XIX, que por sua vez fora realçada pela maquiagem e indumentária excepcionais; achei digníssima a atenção dada à sujeira das roupas e das próprias pessoas, fazendo com que de fato você sentisse uma repulsa por todo aquele nicho. Era quase possível sentir a sujeira e seu cheiro. Outra questão a ser ressaltada, certamente, é sobre os enquadramentos das cenas. Se falarmos do “B, A, BA” superficial, cinema pode ser definido como “técnica de projetar fotogramas de forma rápida e sucessiva para criar a impressão de movimento”, na minha opinião, os enquadramentos de certas cenas de Les Misérables eram capazes de criar uma obra pictórica (ou serem tidos como tal), na verdade. E posso afirmar, com plena convicção, que de todos os filmes que já vi, o dito cujo possui uma cena que entrou para a categoria de “cenas mais belamente enquadradas” (nada de spoiler, acalmem-se).
            A história foi fluindo, densa e vagarosamente - principalmente por causa da passagem de tempo dentro dela mesma, senti como se os anos também estivessem pesando sobre a minha pessoa -, mas fluindo de qualquer forma. Ao contrário de narrativas altamente clássicas que se desenvolvem para chegar num só clímax, Les Misérables possui diversos em sua trajetória. Ele desconstrói – e destrói – nossas esperanças românticas, desestabiliza o espectador e continua a seguir seu rumo, cabendo a nós mesmos termos de nos recompor e segui-lo. Filme difícil, mas instigantemente belo e sensível.
            Não me adentrarei nas questões das próprias personagens, pois acabaria por transformar um post num artigo, e tenho medo de julgá-las mal e de forma superficial, portanto minha opinião aqui publicada refere-se mais à obra como um todo.
            Les Misérables é um filme que lhes indico, caros caríssimos, entretanto, indico para que seja assistido numa sala de cinema. É uma obra grandiosa e pesada, cuja atmosfera e visualidade não cabem numa sala de estar e numa televisão comum, sendo pois, dependente do ritual do telão e da poltrona vermelha (ou azul) mergulhados no escuro do cinema.