
Não
tenho memórias da minha infância. Mal lembro-me daquilo que vejo em fotos. Não
sei se a culpa disso é de eu não ter tido uma infância, propriamente dita, para
ser lembrada ou se é algo orgânico. O fato é que não me lembro e não existe
terapia que me faça ajudar.
Mas
(sendo, ou não, a minha infância real) o caso é que, “O Oceano no Fim do
Caminho” à trouxe de volta. Não que eu tenha me lembrado de coisas e causos que
aconteceram na virada do milênio. Mas tive a sensação que algo era por ali. Tive a sensação de que se eu lembrasse de
algo, lembraria o suficiente para me identificar com as palavras ali escritas
por Neil Gaiman.
O
livro conta a história de um homem de meia idade (homem esse que só fui
perceber não ter um nome, quando o livro terminou) que volta, para um funeral,
à casa onde morava quando criança. E acaba se deixando levar até o fim de sua antiga
rua, para a fazenda onde morava a menina Lettie Hempstock, sua única amiga,
além dos livros.
No
clima mais nostálgico possível, ele começa a se lembrar de sua infância e de Lettie.
Se lembra que Lettie pertencia à uma família composta só por mulheres e que
tinha um lago nos fundos de sua fazenda. Não, não era um lago, era outra coisa.
Um mar?! Não, não um mar, era um oceano. Lettie tinha um oceano nos fundos de
sua fazenda. Uma lua cheia a brilhar para sempre e fatos sem explicação lógica.
E nesse clima nostálgico a história se desenrola e aparecem opalas, tendas,
pulgas, suicídios e tudo o que possa ser real para Neil Gaiman. E, acreditem, o Neil Gaiman pode lhe fazer acreditar em
qualquer coisa.
Eu
demorei para terminar a leitura de “O Oceano no Fim do Caminho”, que é um livro
curto, com suas quase 200 páginas. Demorei porque não queria acabar. Queria
acreditar que tudo aquilo fora real para o protagonista. Protagonista esse que
poderia ser eu.
Neil Gaiman escreveu uma
perfeita fábula para adultos. Fabula agridoce, perversa e reveladora para um
adulto que não conhece seu eu infantil. Para um eu que não entende a diferença
entre o real e a fantasia, pois, posto que é só isso, o que é a realidade?

Meu filho, te amo. Que Deus permita você ser por toda a eternidade a pessoal maravilhosa e sensível que é hoje. Seu pai.
ResponderExcluir