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A Sórdida Vida Dos Hipopótamos Anões da Libéria


                                                                                                                                                                          Foto: Annie Bui

“...os cultos são pessoas muito metidas porque sabem muitas coisas. Sabem coisas das ciências naturais, como que as pombas transmitem doenças nojentas. Também sabem coisas da história, como que os franceses gostam muito de cortar a cabeça dos reis. Por isso os cultos gostam de ser professores (...) Os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida.” (pág. 13)
            A verdade é que sempre julgo um livro pela capa. Já deixei de comprar muitos livros (inclusive grandes clássicos) porque a capa era de gosto duvidoso. Eu sei que é pecado, então, nos vemos no inferno.  Em fato, eu só compro um livro com uma capa de gosto duvidoso se for uma recomendação de alguém no qual em confie cegamente (isso foi um trocadilho) no gosto.
            Mas esse não foi o caso de “Festa No Covil”, que tem artes de capa magníficas poronde seja publicado. Não precisei de recomendações, não li a sinopse, não me importava quem era autor, e se, no final, a história fosse horrível, o livro serviria de inspiração visual na minha estante. Agradeço não ter sido o caso.
            O romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos, é muito mais que mais um rostinho bonito na multidão. E é verdade que é o romance de estreia de Villalobos, mas poderia ser o último de sua vida, o ponto alto de sua carreira literária, seu apogeu.
            Tochtli, nosso pequeno protagonista, mora em um palácio que serve como forte para sua proteção, o afastando do mundo e afastando o mundo dele. Proteção essa, necessária, ao considerarmos que Tochtli é o príncipe do narcotráfico mexicano. Afastado do mundo, Tochtli vive como dá. Coleciona chapéus, palavras retiradas de um dicionário e pretende adicionar a coleção de animais selvagens do seu pai, um par de hipopótamos anões da Libéria.
            Poderia inserir aqui mais um milhão das, todas geniais, citações de nosso ingênuo e precoce protagonista. Poderia contar sobre a narrativa quase linear do autor. Poderia tentar explicar o sentido por trás da história de Tochtli. Ou até tentar classificar o romance de Villalobos como narcoliteratura ou conto de fadas. Poderia, mas não vou. Pois nada além da própria leitura de “Festa No Covil”, faria jus à obra.
            Juan Pablo Villalobos, usa o pequeno príncipe do narcotráfico para nos mostrar um mundo desconhecido, um mundo cheio de texturas e relevos, um mundo nefasto, perplexo, patético. Um mundo fulminante

O Fabulo Oceano de Neil Gaiman

                Não tenho memórias da minha infância. Mal lembro-me daquilo que vejo em fotos. Não sei se a culpa disso é de eu não ter tido uma infância, propriamente dita, para ser lembrada ou se é algo orgânico. O fato é que não me lembro e não existe terapia que me faça ajudar.

                Mas (sendo, ou não, a minha infância real) o caso é que, “O Oceano no Fim do Caminho” à trouxe de volta. Não que eu tenha me lembrado de coisas e causos que aconteceram na virada do milênio. Mas tive a sensação que algo era por ali.  Tive a sensação de que se eu lembrasse de algo, lembraria o suficiente para me identificar com as palavras ali escritas por Neil Gaiman.

                O livro conta a história de um homem de meia idade (homem esse que só fui perceber não ter um nome, quando o livro terminou) que volta, para um funeral, à casa onde morava quando criança. E acaba se deixando levar até o fim de sua antiga rua, para a fazenda onde morava a menina Lettie Hempstock, sua única amiga, além dos livros.

                No clima mais nostálgico possível, ele começa a se lembrar de sua infância e de Lettie. Se lembra que Lettie pertencia à uma família composta só por mulheres e que tinha um lago nos fundos de sua fazenda. Não, não era um lago, era outra coisa. Um mar?! Não, não um mar, era um oceano. Lettie tinha um oceano nos fundos de sua fazenda. Uma lua cheia a brilhar para sempre e fatos sem explicação lógica. E nesse clima nostálgico a história se desenrola e aparecem opalas, tendas, pulgas, suicídios e tudo o que possa ser real para Neil Gaiman. E, acreditem, o Neil Gaiman pode lhe fazer acreditar em qualquer coisa.

                Eu demorei para terminar a leitura de “O Oceano no Fim do Caminho”, que é um livro curto, com suas quase 200 páginas. Demorei porque não queria acabar. Queria acreditar que tudo aquilo fora real para o protagonista. Protagonista esse que poderia ser eu.

                Neil Gaiman escreveu uma perfeita fábula para adultos. Fabula agridoce, perversa e reveladora para um adulto que não conhece seu eu infantil. Para um eu que não entende a diferença entre o real e a fantasia, pois, posto que é só isso, o que é a realidade? 




O Livro Mais Triste Do Mundo, por Luca Weingärtner

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foto: Elizaveta Porodina

“Medo é algo que, hoje, apenas lembro de ter tido. Tenho temores, confesso, mas temer não é o mesmo que sentir medo. [...] Eu, eu tenho certeza que estou morrendo, chego a sentir as dores que um dia me levarão daqui, mas nadinha me amedronta. E é por causa dessa minha estranha forma de leveza que, às vezes, não creio estar realmente viva.” (pág. 46 e 47)

            Sim, eu sei que o título parece presunçoso. E seria (afinal eu não li todos os livros do mundo) se essa afirmação fosse minha, mas não é. Essa afirmação é da própria autora. Não da Fernanda Young, da Adriana-Daiane-Carina-Renata-Daniela-Creuza-Fernanda-Anne-Bianca-Francine-Thereza-Reticências (que, por motivos estéticos, chamarei de “a protagonista”). E, sofro em dizer, talvez ela tenha razão.
            “Tudo Que Você Não Soube”, é o sétimo romance publicado da autora Fernanda Young. E traz, em primeira pessoa, as revelações da vida de uma mulher, já madura, que escreve para o seu pai moribundo. Pai esse, que ela – a protagonista – não vê há anos, e quando descobre que o tempo dele está acabando, resolve jogar, cuspir, vomitar pra ele toda a sua vida, seus segredos e suas dores.
            Não existem conflitos a serem solucionados neste livro. O livro é um relato, uma catarse. Palavras, que formam frases, que formam parágrafos, que formam capítulos, que formam um livro e trazem com ele a dor. Só a dor. Sem culpa, sem arrependimentos, sem perdão. Dor! Na sua mais pura, e primitiva, forma.
            A autora consegue, em menos de 150 páginas, nos conectar com a protagonista de uma forma tão anormal, que chega a ser ridículo. Talvez – e eu disse talvez – seja aí que more toda a tristeza desse tal livro mais triste do mundo. Na identificação. Talvez, se identificar com tanta dor, seja mais triste do que a própria dor relatada por ela – a protagonista. Triste, não?! Pois é.
            Não quero, e não irei, falar sobre a trama. Sobre o martelo, sobre o alemão, a praia, o sangue, as punições. Na verdade, não acho que irei falar sobre mais nada. Pronto, é isso. Não irei mais falar sobre nada. Já disse tudo o que tinha pra dizer, irei desligar o computador e reler o livro. Até toda essa dor, da identificação, passar.

Obrigado por me ouvir.

Nós Estamos Aqui, Luca Weingärtner



São Paulo. 
Sábado, dia 09 de março de 2013. 
Reunimos-nos com um sentimento em comum: a indignação – em parceira com a raiva, o ódio e o medo (que meus Deuses me perdoem). 
Por quê? Bom, porque, há dois dias (07) foi eleito como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) o pastor Marco Feliciano, do Partido Social Cristão. O mesmo pastor que, publicamente, fez declarações racistas e homofóbicas (alegando a sua fé). O mesmo pastor que criou polêmica ao aparecer em um vídeo pedindo a senha do cartão de crédito de um fiel e dizendo que, se o fiel não desse a senha, depois não adiantaria reclamar se o milagre não acontecesse (vídeo). O pastor que disse, depois de ter sido eleito, que na sua comissão irá tratar negros e gays como se fossem pessoas normais. Como se fossem pessoas normais. Mas tudo isso vocês já sabem. Tudo isso já foi dito.
Então, vou falar sobre o que vocês não sabem. Nós estamos aqui. E aí. E lá. Por todo o lado (em mais de 10 cidades no Brasil, em Londres, em Nova York). Nós estamos gritando. E nós não somos poucos (eu estava lá, e garanto que foram mais do que as 2 mil pessoas que a mídia alegou). Nós somos muitos e, mesmo assim, somos um só. E entendam que, nós, continuaremos aqui (e ali). Gritando! Até sermos ouvidos. Até eles ficarem surdos. Então, obrigado, meus caros militantes. Muito obrigado.