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O Charmoso Gatsby



            Nick e Daisy são idênticos quando querem algo, não se importam de não ser exatamente "aquilo" que sempre esperaram, contanto que seja alguma coisa. Em determinado momento, Nick que aparentemente deixou um passado mal resolvido no Oeste se dá conta que não está apaixonado por ninguém, entretanto sente-se feliz por ter Jordan ao seu lado para abraçar e quanto a Daisy, temos a descrição do momento em que precisou esperar por Gatsby: na falta de retorno do seu amado, voltou para festas e agarrou o melhor que pôde ao meio dessa vontade, no caso, o endinheirado Tom, que servia como uma luva para a sua mão por condizer com a sua situação. Afinal, ele era suficientemente rico.
            Quando esboço que são parecidos, admito que talvez não seja algo somente compartilhado por aqueles primos, mas sim, pela geração americana que ali nascia. Viviam o auge. O inicio dos anos 20, que de tão inebriados diante da própria beleza nem conseguiam avistar o urubu voando por cima da neblina que viria em 29. E, no front dessa esperançosa ostentação bem verde e luminosa, temos Gatsby. Tão de acordo com o benquisto pelos seus contemporâneos, ele era amado. Os frequentadores de suas festas chegavam a centenas mesmo sem sequer terem visto o anfitrião, porém diante da intimidade dos espaços lotados e impessoais aparecia-se até sem convite, sentiam-se agradecidos pela hospitalidade, mesmo com o ovacionado dono da casa sendo visto como um homem “que matou um homem”, como diziam por ai. Nesses tempos em que a Lei Seca estava mais fácil de burlar e que todos queriam suas mentes borbulhando, seus pés dançando e as noites intermináveis – não que tenha mudado muita coisa de lá pra cá, momento em que saliento essas pequenas permanências mais cheia de um certo medo bem egoísta acerca do meu próprio tédio, do que por conta daquela altruísta tristeza acerca da humanidade.
            Gatsby é aquele vizinho que a gente quer pedir uma xícara de açúcar, mesmo com três sacos de União na despensa. O charuto cubano apreciado quando se está satisfeito, porque ele em hipótese alguma seria uma busca por consolo, esse papel geralmente fica com o cigarro durante a primeira xícara de café nas manhãs ou na área aberta das boates, quando as músicas e as pessoas parecem mais deprimentes do que você, embora elas estejam sorrindo e dançando. Ele é o riso frouxo quase clandestino que é solto quando se acha cinquenta reais no chão, na mesma semana em que acabou de receber o pagamento, e a descoberta de que o brownie também vem com calda de chocolate quente além daquela bola de sorvete de creme.

Quando a Cor Deprime



            Você provavelmente deve ter uma capa de celular dele, ou uma mala de viagem, talvez um jogo de cartas ou até mesmo um vestido. Estou falando do mundialmente conhecido Romero Britto. O brasileiro de 49 anos que produz uma série de imagens bem coloridas e estilizadas.
            Britto se confessa um artista inspirado pelo Cubismo e a Pop Art. Mesmo eu não gostando muito do movimento que foi a Pop Art, sou solidário à dor que Warhol estaria sentindo caso acompanhasse as pobres produções de Romero Britto “inspiradas” em seu trabalho.
            Não podemos negar que hoje em dia Romero Britto é realmente pop; só acho triste termos alguém como ele sendo chamado de artista. Não só pela pobreza da técnica e dos símbolos que formam os seus quadros, mas pelo completo vazio que existe entre o espectador e sua obra. Vazio esse que deveria ser preenchido por conceitos, discussões, sentidos, emoções.
            Britto diz que sua obra fala sobre a alegria de viver, por isso ele trabalha sempre com cores “alegres” e com formas “felizes”, como gatinhos, coraçõezinhos, solzinhos, marezinhos, florzinhas, eteceterazinho. E não me sinto nem um pouco constrangido em dizer que essa série de “zinhos” mais parece uma decoração para creches e capas de livros de autoajuda. Pobres crianças! Infelizmente, por mais arrogante que pareça, não consigo confiar, gostar ou sentir qualquer outra coisa produtiva frente a uma representação da alegria composta por clichês mal construídos, mal “coloridos”.
            Como podemos comprar um quadro de um cara que diz odiar Caravaggio? “Não gosto por causa da violência extrema. As obras dele sempre retratam pessoas torturadas e gente cortando a garganta umas das outras.” É uma declaração que evidencia buracos enormes na formação de Romero Britto enquanto “artista”. Fica claro que ele não tem a devida noção de arte e conhecimento das questões, discussões e descobertas fundamentais para o mundo que pessoas, como Caravaggio, fizeram. Ou pior, se tem essa noção, ele simplesmente a ignora e a descarta da mesma forma que faz com o valor das cores quando as usa em seus quadros. Essa alegria de viver que ele diz perseguir para fugir dessas “pessoas torturadas” me mostra um pensamento fraco diante das discussões importantes que a arte nos leva, as questões políticas e existenciais. Arte não é um conto de fadas.
            Por sorte, ou só para deixar ainda pior, Romero Britto gosta de Matisse, dizendo que ama suas cores e sua alegria de viver. Alguns podem considerar como um elogio meio raso, mas eu vejo como extremamente agressivo reduzir Matisse, ou qualquer contemporâneo do mesmo, à “alegria de viver”.
            Esse texto, um pouco revoltado e talvez bem arrogante, é uma tentativa de dar o devido respeito aos artistas de verdade; aos que morreram e aos que ainda vivem. Que se mantém discutindo, se empenhando e se rasgando para produzir coisas que façam mais sentido impressas em nossas almas do que em nossos celulares.
            PS: Esse texto não terá nenhuma imagem da obra do Romero Britto, não consigo olhar muito tempo para elas. Por isso decidi ilustra-lo com Caravaggio, quem realmente sabia o que estava fazendo. Judite e Holofernes-1599-óleo sobre tela.

A Tábua Esmeralda



            O impacto que me causou a primeira audição de "A tábua de esmeralda" (1974) foi de espanto. Um Jorge Ben místico! Desde a primeira faixa, "Os alquimistas estão chegando os alquimistas", que começa com um "Salve", e depois com o cantor dizendo: "Então tem que dançar DANÇANDO". As faixas têm o balançado típico das canções de Ben, mas com algo sombrio - principalmente no uso dramático das cordas, com arranjos brilhantes de Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard.
            "A tábua de Esmeralda" mostra, em seu som e em suas letras (todas de Ben), a influência do ocultismo e da alquimia, além de exaltar a natureza. O artista (nascido em 22 de março de, possivelmente, 1942, no Rio de Janeiro) estava mergulhado nos estudos sobre o tema, e concebeu um LP inteirinho com essa pegada cósmica. Ouvir esse disco é ter a sensação de estar em outra dimensão.
            Claro que o Jorge Ben puro, romântico e "pegador" está lá, com as graciosas "Menina mulher da pele preta" (regravada recentemente pelo Forroçacana) e "Minha teimosia, uma arma pra te conquistar". Além da fofa "Magnólia", uma pérola que remete ao tema maternidade, chega a emocionar.
            "Eu vou torcer" é uma lista das coisas bonitas pelas quais vale a pena viver, como a paz, o amor, as moças bonitas e as quatro estações (só não concordo quando ele canta "pelo meu mengão", mas o que posso fazer... risos). "O homem da gravata florida" fala de Paracelso (1493-1541), suíço que foi um dos grandes cientistas do mundo - e tinha fama de mago.
            Mas os petardos do disco são: "Zumbi", uma canção de alto impacto que fala da chegada dos escravos ao Brasil (impossível ouvi-la sem se arrepiar); "Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda", inspirado num tratado hermético escrito pelo faraó que dá título à canção, e traduzida pelo famoso ocultista Fulcanelli (que ganhou a coautoria da canção); a genial "Cinco minutos", que fecha o disco com os versos "Pedi você / Prá esperar 5 minutos só / Você foi embora sem me atender" - genial porque a faixa anterior, "Hermes", tem 5 minutos e meio; e a que considero a melhor não só do disco, mas a melhor composição da carreira de Jorge Ben: "Errare humanum est", que dá a impressão que o compositor leu o famoso livro de Erich von Däniken (1935-), "Eram os deuses astronautas?", e "viajou" sobre o tema. O resultado é impressionante. E apresento aqui abaixo.

Completam o disco: "Brother" e "O namorado da viúva".
 "A tábua de esmeralda": disco fundamental para a História da MPB. É inebriante.

Os Suspeitos Usavam Louboutins



Sofia Coppola entende bem do mundo das celebridades. Filha do renomado cineasta Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), esposa de Thomas Mars (vocalista da banda Phoenix), irmã do roteirista Roman Coppola (“Moonrise Kingdom”) e prima do ator Nicolas Cage (“Despedida em Las Vegas”), Sofia está mais do que acostumada com a ostentação de Hollywood. The Bling Ring, seu mais recente filme, conta a história real de uma gangue de adolescentes que se reuniu durante pouco mais de um ano para invadir e roubar mansões de celebridades em Los Angeles. Paris Hilton, Lindsay Lohan, Orlando Bloom, Audrina Patridge e Rachel Bilson estão entre os famosos que foram vítimas dos cinco jovens endinheirados da capital mundial da fama. O grupo não rouba para lucrar em cima dos pertences roubados, mas sim para imitar o lifestyle dessas personalidades que eles tanto admiram. Após invadirem as mansões com relativa facilidade – quem poderia esperar que grandes astros como esses deixassem a chave de casa sob o capacho da porta? -, os adolescentes ficam encantados com o mundaréu de roupas, acessórios, sapatos e joias que essas celebridades acumulam. São tantas coisas, aliás, que Paris Hilton teve a mansão invadida mais de cinco vezes e só notou que havia sido roubada quando dois milhões de dólares em joias desapareceram de seu closet. Sofia Coppola, que desde criança convive nesse mundo das aparências e do luxo ostensivo, acerta em todas as suas escolhas e entrega, por fim, seu melhor filme.
Dizer isso com tamanha segurança não é fácil. Sofia é uma das diretoras mais queridas da atualidade e cada novo trabalho seu é aguardado com ansiedade. Ela, que já venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Encontros e Desencontros” e o Leão de Ouro no Festival de Berlim por “Um Lugar Qualquer”, abriu a edição deste ano de Um Certo Olhar, principal mostra paralela à competição oficial do Festival de Cannes, na França, com “The Bling Ring”. Sofia, na verdade, é a grande responsável por todos os fatores que fizeram deste um filme bem melhor que a encomenda. Para escrever o roteiro, a diretora baseou-se em “Os Suspeitos Usavam Louboutins”, artigo publicado em março de 2010 na revista Vanity Fair pela premiada jornalista Nancy Jo Sales, que se especializou em perfis de celebridades. A matéria foi lançada poucos meses após os membros da gangue terem sido identificados pela polícia de Los Angeles e chamou a atenção de todo o mundo pelo fato de os ladrões serem jovens de aproximadamente 18 anos, nascidos em berço de ouro e frequentadores das casas noturnas mais badaladas da cidade. Além disso, o artigo também chamou a atenção da cineasta, que enxergou nele o potencial necessário para virar um filme típico de Sofia Coppola. Em “The Bling Ring”, a diretora retoma mais uma vez ao seu bom e velho estilo “voyeurístico”. Ela não pretende criticar ou fazer julgamentos morais, ela apenas observa – e essa é justamente sua principal característica e seu maior diferencial. A diretora mostra os personagens como eles são e cabe ao espectador interpretá-los da maneira que achar melhor.
Sofia também é uma cineasta excêntrica nos bastidores. Para preparar o elenco, por exemplo, ela fez os atores roubarem uma casa – na brincadeira, é claro. Segundo a produção, a ideia era observar que tipos de erros o elenco cometia durante o roubo, a fim de que fossem corrigidos para as filmagens soarem o mais natural possível. Emma Watson (a Hermione da série “Harry Potter”), a principal estrela do filme, debruçou-se sobre o papel de Nicki Moore e encarnou-o de forma impecável e até mesmo surpreendente. Para compor a personagem, a atriz admitiu ter ouvido o álbum Femme Fatale, de Britney Spears, e acompanhado diversos reality shows, inclusive “Pretty Wild” - estrelado por Alexis Neiers, a verdadeira Nicki. O resultado é uma típica patricinha de Beverly Hills, com direito à voz enjoada e tudo. Adeus, sotaque britânico. Adeus, Hermione. Emma Watson se revelou, pela primeira vez, uma atriz excepcional e merece todos os elogios que tem recebido. O restante dos atores, Israel Broussard, Katie Chang, Claire Alys Julien e Taissa Farmiga, também fazem bonito. Mas o destaque, inevitavelmente, fica por conta da transformação de Emma Watson.
Tudo é muito bom, tudo está muito bem. Mas há ainda um bônus: a trilha sonora. As músicas que acompanham o filme caem como uma luva tanto para a história quanto para o estilo de Sofia. Artistas como Azealia Banks, M.I.A., Lil’ Wayne e Rye Rye embalam as cenas e as tornam ainda melhores. 

         The Bling Ring – A Gangue de Hollywood
é uma análise bastante eficiente do mundo dos famosos de Hollywood, um mundo que nos assusta e nos fascina a um só tempo.

Quem Quer Entender o Destino, Tem de Sobreviver a Ele




            Eu tinha 14 anos quando um conhecido da época do MSN e Orkut me passou o PDF de um livro que, segundo ele, muito provavelmente me agradaria. Eu já tinha ouvido falar de O Mundo de Sofia, mas não foi através dele que conheci Jostein Gaarder, conheci o autor norueguês através de uma carta escondida sob a manga, o curinga.
            Eu - na época, adolescente extremamente aquariana – comecei a ler O dia do curinga pelo computador, passei uma tarde inteira absorta na história do garoto Hans-Thomas, que sai de Arendal, pequena cidade norueguesa, em direção à Grécia junto com seu pai “à procura da mulher que os deixou oito anos antes”, uma mãe-esposa que se perdeu no mundo para se encontrar, surgindo nesse trajeto acontecimentos aparentemente sem pé, nem cabeça, na vida do menino. Naquela mesma tarde decidi parar de ler o livro, não porque ele era desinteressante ou qualquer coisa do gênero, muito pelo contrário, eu queria ter aquela história em minhas mãos, queria poder folhear e cheirar as páginas que carregavam a história de Hans-Thomas (e das cartas da paciência de Frode, e das várias outras situações que vão se desenrolando na narrativa). Não sei o porquê, mas – apesar de já ter esbarrado com esse livro em diversas livrarias e sebos – só fui lê-lo agora, depois de cinco anos. Se eu, inspirada - ou não - pelo livro, acreditar no destino, direi que esperei o tempo certo, e que ele parou em minhas mãos no momento mais adequado. Como eu acredito, assim o digo.
            Após terminar a leitura do livro – com aquele peso no peito que sempre se sente quando se acaba de ler uma história, a qual achamos que poderia ser para sempre -, percebi que, de fato, aos meus 14 anos, no auge da rebeldia, eu não conseguiria compreender – sem tendências pretensiosas – os pensamentos transmitidos por cada personagem apresentado na história de O Dia do Curinga. Hoje vejo que algumas afirmações feitas pelo jovem Hans-Thomas e seu pai podem soar um tanto peremptórias demais, um tanto insensíveis (quanto à mãe-esposa, mulher perdida no mundo), ou inflexíveis (quanto ao Tempo). Entretanto, nada disso ofusca a beleza dessas próprias reflexões, ou desvaloriza o mérito de tantas outras levantadas. Nessa história você pode perceber que ninguém é obrigado a concordar com qualquer frase dita devido ao efeito filosófico/poético que suas palavras carregam, e toda a leveza da narrativa te mostra que tais frases são apenas isso, apenas reflexões, através das quais o leitor começará a fazer as suas próprias. Essa, porém, não é a única magia do livro.
            A magia – também – está em sua organização, cada capítulo é uma carta do baralho, há inclusive o do curinga, obviamente. Para mim – admiradora de baralhos e de curingas – essa característica já seria o bastante para me encantar... O dia do Curinga carrega um mundo dentro de um mundo, dentro de outro mundo, dentro de outro mundo mais duas vezes, e tudo vem a se encaixar como num quebra-cabeça, como cartas espalhadas aleatoriamente que começam a serem organizadas por uma mão invisível que trança as vidas no Destino. O livro carrega uma história por vezes tão lúdica, tão fantasiosa, que você quer sim se agarrar nessa corda, acreditando com todas as forças na realidade dos peixinhos coloridos, da bebida púrpura. E, ao menos para mim, a grande jogada do curinga é você deslocar daquele universo as capacidades de observação e sensação, trazendo-as para cá. O dia do curinga encanta, porém encanta muito mais àquele que se dá ao prazer de observar, admirar e sentir os pequenos detalhes da vida, do cotidiano.

A Sórdida Vida Dos Hipopótamos Anões da Libéria


                                                                                                                                                                          Foto: Annie Bui

“...os cultos são pessoas muito metidas porque sabem muitas coisas. Sabem coisas das ciências naturais, como que as pombas transmitem doenças nojentas. Também sabem coisas da história, como que os franceses gostam muito de cortar a cabeça dos reis. Por isso os cultos gostam de ser professores (...) Os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida.” (pág. 13)
            A verdade é que sempre julgo um livro pela capa. Já deixei de comprar muitos livros (inclusive grandes clássicos) porque a capa era de gosto duvidoso. Eu sei que é pecado, então, nos vemos no inferno.  Em fato, eu só compro um livro com uma capa de gosto duvidoso se for uma recomendação de alguém no qual em confie cegamente (isso foi um trocadilho) no gosto.
            Mas esse não foi o caso de “Festa No Covil”, que tem artes de capa magníficas poronde seja publicado. Não precisei de recomendações, não li a sinopse, não me importava quem era autor, e se, no final, a história fosse horrível, o livro serviria de inspiração visual na minha estante. Agradeço não ter sido o caso.
            O romance de estreia do mexicano Juan Pablo Villalobos, é muito mais que mais um rostinho bonito na multidão. E é verdade que é o romance de estreia de Villalobos, mas poderia ser o último de sua vida, o ponto alto de sua carreira literária, seu apogeu.
            Tochtli, nosso pequeno protagonista, mora em um palácio que serve como forte para sua proteção, o afastando do mundo e afastando o mundo dele. Proteção essa, necessária, ao considerarmos que Tochtli é o príncipe do narcotráfico mexicano. Afastado do mundo, Tochtli vive como dá. Coleciona chapéus, palavras retiradas de um dicionário e pretende adicionar a coleção de animais selvagens do seu pai, um par de hipopótamos anões da Libéria.
            Poderia inserir aqui mais um milhão das, todas geniais, citações de nosso ingênuo e precoce protagonista. Poderia contar sobre a narrativa quase linear do autor. Poderia tentar explicar o sentido por trás da história de Tochtli. Ou até tentar classificar o romance de Villalobos como narcoliteratura ou conto de fadas. Poderia, mas não vou. Pois nada além da própria leitura de “Festa No Covil”, faria jus à obra.
            Juan Pablo Villalobos, usa o pequeno príncipe do narcotráfico para nos mostrar um mundo desconhecido, um mundo cheio de texturas e relevos, um mundo nefasto, perplexo, patético. Um mundo fulminante

Antes Da Meia-Noite: 18 Anos de Céline e Jessie



            Fui na sessão de 19h de Before Midnight no Estação, ali encontravam-se obviamente diversos homens de terno e algumas mulheres com roupas padronizadas em tons neutros, cabelos em rabo de cavalo, provavelmente refugiavam-se no cinema da chuva e do trânsito que lá fora atormentava. Os casais estavam aos montes, contudo me intrigava a idade deles: todos acima dos 25 anos com suas blusas sociais, relógios de pulso em material metalizado, cansaços, jeito confiante - mesmo assim lento - de caminhar, pequenos sussurros para se comunicarem e sorrisos necessários, sorrisos endereçados exclusivamente para o ouvinte e não para uma plateia invisível, muito destoante daquele outro tipo de sorriso, um sorriso barulhento que é mais comumente observado nos jovens de 16 anos que vemos lotar o cinema do Tijuca com seus diferentes uniformes escolares nas tardes de quarta.
            Os últimos minutos do filme, quando Jesse e Céline começam a brigar são os únicos em que os risos altos são escutados, aparentemente, brigas são motivo de humor, ainda mais diante do público já descrito. Quando as luzes acenderam, dava pra ver um casal satisfeito cujo o homem beijava o rosto da mulher enquanto a abraçava dando a entender que naquele dia só ia caber riso e enquanto eu me direcionava até a porta pude escutar uma mulher de calça marrom e blusa branca falar para a provável namorada, pois estavam de mãos dadas: “você faz igualzinho quando começa”. Já do lado de fora, na minha espera pelo almejado sortilégio de ter acesso ao banheiro, observei um rapaz que ao sair do lado masculino perguntou para a sua esposa ou noiva – esses usavam alianças – visivelmente cansada e sob um salto, se ela queria que ele segurasse a bolsa; o sorriso dele compensava a pitada de mau humor dela, creio, que se dessem bem e só estavam um pouco chateados por conta das filas.
            Richard Linklater consegue criar filmes que facilmente nos insere em seus contextos e sustenta diálogos que não precisam muito dos filmes anteriores para serem absorvidos por manter – mesmo que repetidamente – indagações bastante contemporâneas e algumas até mesmo atemporais sobre as nossas fixações de bar como o meio ambiente, os filhos, o casamento e o feminismo. Embrulhamos nossas dúvidas e as levamos para casa para conseguirmos acompanhar o ritmo em que elas vão surgindo, tendência essa que podemos confirmar em filmes que vão além da trilogia (“Dazed and Confused” de 1993 e “Waking Life” de 2001, por exemplo. Vale salientar a rápida aparição do casal por alguns segundos (vide). Aqui, ao contrário daqueles jovens confusos de 23 anos que tínhamos em 1995, jovens dispostos até mesmo a dar atenção para videntes e cartomantes para quem sabe, terem algumas respostas, temos agora um casal com menos devaneios acerca do destino e mais preocupações com o presente, eles de alguma forma, tentam dialogar sobre como ajeitarem o que possuem. Não é mais uma falação sobre ter filhos ou casar, essas temáticas que pareciam grandes demais, até mesmo distantes demais, tornaram-se reais.
            De início temos Céline estressada com uma medida ambiental que foi negada por não ser esteticamente agradável, frustrada e ainda diante de suas pequenas utopias abafadas para com o meio ambiente, que de 2004 (“Before Sunset”) até 2013 obviamente não melhoraram, entretanto enquanto a esposa está diante do desespero de estar insatisfeita e sem saber qual emprego seguir, Jesse está de bem com a sua vida profissional, seu último livro, não é tão elogiado quanto os dois primeiros que são sobre o casal, mas vai bem, pelo menos para o amigo escritor que o considera “ambicioso”. Pessoalmente, a minha cena predileta é ver Céline sempre preocupada com a sua posição no mundo, reclamando que não queria estar na Grécia, em um país em conflito com as chances de uma revolução ocorrer a qualquer instante, eis então, que temos Jesse com uma toga simbólica, reflexivo, rebatendo a afirmação da esposa com seus prognósticos de que nada ocorrerá, porque nunca ocorre nada.
            Um grande diferencial desse filme, também é a mesclagem de opiniões: Linklater foi bastante ardiloso ao nos colocar diante do jovem casal que jamais poderiam ter sido Céline e Jesse, pois esses dois não deixaram a utopia trabalhar ao trocaram telefones quando se conheceram e a tecnologia também os permitiu ir muito além, pois passam as noites conversando através do computador, até mesmo, dormindo juntos – tecnologia essa que impregna até a postura de Céline, que tem um celular em mãos para flagrar Jesse comendo a maçã da filha deles ou na ajuda para que pessoas unam-se até uma “revolução” eclodir.  Afinal, o jovem casal terá que esperar o destino os guiar ou até o velho medo que não permitiu que Céline e Jesse trocassem cartas ou telefones, aquele medo de se odiarem e enjoarem um do outro antes do tempo, ou que eles dois acabem juntos, enfrentando as miudezas da vida conjunta. Há também o lado idoso que teve o amado levado pela morte, emocionando todos os reclamões.
            Trata-se de um emaranhado de diferenças e experimentações que só conseguem se firmar com sucesso diante do intervalo que há entre um filme e outro, essa trilogia tem a força de ter sido construída após muitas vivências do próprio criador. Céline e Jesse são personagens que com o tempo foram bem talhados, que após os anos juntos deixaram de ser apenas palavras ao vento, agora lidam com o peso e com o convívio de questões que inocentes matutaram sobre algum dia vir a acontecer. Por mais que atualmente a vida deles gire em torno de muitos outros fatores que vão além do encontro no trem, essas ramificações de temas como as gêmeas que casal teve ou o filho de Jesse que está nos Estados Unidos, acabam virando objetos que a gente escuta muito mais sobre do que vê em si, pois na primeira oportunidade todos vão pro plano das palavras e das discussões, na prática, observamos pouco, porque no fundo o tête-à-tête é o charme principal desses dois. E lembrem-se, silêncio no cinema

Vermelho Um Pouco Amargo

                                                                                                                                                                            Foto: Jinax



“Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se – em lágrimas – do paraíso, é condenar-se à liberdade. Houve, e só depois, o tempo da alegria ao enxergar o mundo como o mais absoluto e sucessivo milagre: fogo, terra, água, ar e o impiedoso tempo.” (QUEIRÓS, 2011, p.8)

Vermelho é a minha cor favorita; vermelho é a cor do nosso sangue, a cor da paixão. Mas e quando o vermelho é a cor da dor, é um profundo amargo que nos embaraça e causa uma angústia? O vermelho do tomate que é cortado lentamente e de maneira cirúrgica nos faz sentir como se estivéssemos sendo torturados a cada corte. É exatamente assim que nos percebemos quando lemos “Vermelho Amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós, que nos coloca em uma situação um tanto quanto difícil, pois somos levados por uma espécie de labirinto que em alguns momentos não sabemos como sair. Apenas sabemos que não vamos sair ilesos, e como diz o próprio autor, quando a dor é muita, ele escreve; Mais uma vez a escrita como um dos mecanismos de superação.

A narrativa conta a história de um menino que perdeu a sua mãe – pelo que parece – muito cedo, e teve que conviver de forma dolorosa com a ausência dessa figura. Em seu lugar, o garoto e seus vários irmãos têm a madrasta, que nem de longe lembra o carinho materno. O pai era alcoólatra, e não dava a devida atenção as suas crianças, deixando-os entregues a sorte. A linguagem do texto é delicada e metafórica, pois a cada fatia de tomate cortada era como se uma decapitação tivesse sendo feita. Os símbolos são recursos dotados de muita significação. E em alguns momentos nos sentimos presos e muito angustiados diante do que estamos lendo. Como podemos observar no fragmento abaixo, a dor é um dos sentimentos que norteará a escrita:

“É preciso muito bem esquecer para experimentar a alegria de novamente lembrar-se. Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles. E a palavra – basta uma só palavra – é flecha para sangrar o abstrato morto. Há, contudo, dores que a palavra não esgota ao dizê-las.” (16-17)

Além dessa incansável sensação de abandono e profunda saudade de uma infância que estaria cheia de possibilidades – se não fosse à má sorte – o desencanto toma conta da narrativa. Em vários momentos percebemos um Bartolomeu incrédulo diante da vida e das próprias relações pessoais, como se o seu sofrimento fosse maior que tudo. Porém há uma esperança: a escrita e seu poder imaginativo para criação. As palavras salvam.

 No vídeo abaixo podemos ter uma prévia do que acontece de fato quando o autor se propõe a construir personagens e enredos, para poder dar conta de um universo dentro e fora dele:

   

O Fabulo Oceano de Neil Gaiman

                Não tenho memórias da minha infância. Mal lembro-me daquilo que vejo em fotos. Não sei se a culpa disso é de eu não ter tido uma infância, propriamente dita, para ser lembrada ou se é algo orgânico. O fato é que não me lembro e não existe terapia que me faça ajudar.

                Mas (sendo, ou não, a minha infância real) o caso é que, “O Oceano no Fim do Caminho” à trouxe de volta. Não que eu tenha me lembrado de coisas e causos que aconteceram na virada do milênio. Mas tive a sensação que algo era por ali.  Tive a sensação de que se eu lembrasse de algo, lembraria o suficiente para me identificar com as palavras ali escritas por Neil Gaiman.

                O livro conta a história de um homem de meia idade (homem esse que só fui perceber não ter um nome, quando o livro terminou) que volta, para um funeral, à casa onde morava quando criança. E acaba se deixando levar até o fim de sua antiga rua, para a fazenda onde morava a menina Lettie Hempstock, sua única amiga, além dos livros.

                No clima mais nostálgico possível, ele começa a se lembrar de sua infância e de Lettie. Se lembra que Lettie pertencia à uma família composta só por mulheres e que tinha um lago nos fundos de sua fazenda. Não, não era um lago, era outra coisa. Um mar?! Não, não um mar, era um oceano. Lettie tinha um oceano nos fundos de sua fazenda. Uma lua cheia a brilhar para sempre e fatos sem explicação lógica. E nesse clima nostálgico a história se desenrola e aparecem opalas, tendas, pulgas, suicídios e tudo o que possa ser real para Neil Gaiman. E, acreditem, o Neil Gaiman pode lhe fazer acreditar em qualquer coisa.

                Eu demorei para terminar a leitura de “O Oceano no Fim do Caminho”, que é um livro curto, com suas quase 200 páginas. Demorei porque não queria acabar. Queria acreditar que tudo aquilo fora real para o protagonista. Protagonista esse que poderia ser eu.

                Neil Gaiman escreveu uma perfeita fábula para adultos. Fabula agridoce, perversa e reveladora para um adulto que não conhece seu eu infantil. Para um eu que não entende a diferença entre o real e a fantasia, pois, posto que é só isso, o que é a realidade? 




As Não Tão Raras Flores de Bruno Barreto

            Flores Raras caiu na boca do povo muito antes de sua estreia. Quando ainda estava na fase de pré-produção, o longa teve muitas dificuldades para obter recursos. “O Brasil ainda é um país muito conservador”, resumiu o diretor Bruno Barreto durante uma conferência de imprensa no Festival de Gramado deste ano, onde o filme foi exibido. Segundo ele, a abordagem de um tema considerado tabu afugentou os patrocinadores. “Foi um trabalho muito difícil de ser produzido, pois é uma história que vai contra a corrente”, explicou. “O pessoal de marketing, que é quem decide os patrocínios para os filmes, não quer associar sua marca à homossexualidade”, completou. Para cobrir o orçamento de 13 milhões de reais, Barreto teve de tirar dinheiro do próprio bolso. Hoje, ele enfrenta problemas parecidos na captação de recursos para seu próximo projeto, a comédia “Crô”, inspirada no personagem de Marcelo Serrado na novela global “Fina Estampa”. Mais de um ano depois, Flores Raras saiu e estreou em 150 salas de cinema no primeiro final de semana. O resultado, apesar dos esforços, não é tão bom quanto poderia.

            Este, muito provavelmente, seria o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro caso fosse elegível. Como a maior parte do longa é falada em inglês, ele não poderá concorrer à indicação. Mas se dependesse da vontade do diretor, que já foi indicado em 1998 por “O Que é Isso, Companheiro?” - e chegou inclusive a comparar sua nova empreitada ao premiado O Segredo de Brokeback Mountain -, "Flores Raras" certamente receberia essa e outras indicações. Afinal de contas, trata-se de um filme feito nos moldes para conquistar a tão almejada vaga nos Academy Awards: narrativa quadrada e clássica, com ótimo trabalho de reconstrução de época, boas atuações e um tema polêmico.

            Acontece que “Flores Raras” é quadrado até demais. Sua primeira parte é apressada e o relacionamento entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares e a poetisa americana Elizabeth Bishop começa de forma abrupta e artificial. Barreto não dá espaço para que a história das duas se desenvolva naturalmente e, num piscar de olhos, elas estão apaixonadas e Lota empenhada na construção de um estúdio para a nova amante – na casa que, aliás, ela dividia com outra mulher até um dia antes. Já a segunda parte, que não fede nem cheira, pelo menos dá espaço para as atrizes brilharem, o que acaba sendo positivo para um filme que não sai da mesmice. A australiana Miranda Otto (O Voo da Fênix) transita muito bem entre o jeito recluso e tímido de Bishop e suas crises de alcoolismo. Glória Pires (com um “quê” de Helena/Cláudio de Se Eu Fosse Você), apesar do inglês esquisito, encarnou perfeitamente os trejeitos da arquiteta que idealizou o Aterro do Flamengo e que apoiou o golpe militar de 1964. Não há dúvida de que elas são o que o filme tem de melhor. Na verdade, Barreto e seus produtores estão tão cientes disso que já sinalizaram campanha para as atrizes na corrida do Oscar. Por isso, o marketing do filme fora do Brasil está cada vez maior e até nome em inglês já tem: “Reaching for the Moon”. Já foi exibido no Festival de Berlim e deverá estrear nos Estados Unidos entre outubro e novembro.

            “Flores Raras” é um conjunto de bons elementos que, somados, resultam num trabalho apenas ok. Falta tempero e falta, principalmente, coragem ao diretor Bruno Barreto para inovar. A história de amor entre esses dois ícones da literatura e da arquitetura mundiais merecia um filme mais ousado.



Título Original: Les Misérables | Dretor: Tom Hooper | Lançamento: Dez/2012

            Sexta-feira, término de Carnaval no Rio de Janeiro. Uns amigos e eu tivemos de fazer uma pesquisa de campo para um dos trabalhos de final de período. Um belo dia, céu azul e sem nuvens, o calor não estava estarrecedor. Terminamos o trabalho, fomos comer algo, e, com uma troca rápida de meia dúzia de palavras, fomos correndo ao cinema mais próximo, sendo Les Misérables o filme sobre o qual eu vinha matutando há um certo tempo, fazendo uma certa questão de vê-lo.
            Atravessamos a rua, a sessão começava às 17:40hrs e o relógio já marcava a hora. Catamos nossas notas e moedas jogadas dentro das bolsas, compramos nossa água e fomos para a sala de exibição, o filme já havia começado há uns cinco minutos. Gosto dessas decisões repentinas, caros caríssimos, de tirar a moeda do bolso e jogar cara e coroa com a vida. E quando isso se mescla com a experiência cinematográfica, tudo parece mais intenso, mais mágico, e Les Misérables conseguiu incorporar-se nessa atmosfera dignamente.
            Pegamos um péssimo lugar na segunda fileira, o telão ficou durante um bom tempo jogando imagens em meus olhos, até chegado o momento no qual minhas pupilas foram se adequando à situação, então aconcheguei-me no banco e fui.
            A complexidade do filme não me permite ousar vir aqui e escrever uma resenha qualquer, ou um resuminho sobre o que se trata a história, é uma experiência altamente sensorial. Les Misérables é radicalmente uma obra do gênero musical, com pouquíssimas falas (que podem ser contadas em uma mão só) e quando você pensa “RÁ! Ele está falando!” surge de algum lugar uma musicalidade na fala da personagem, através da qual se é embalado. Não nego que esse é um filme cansativo e pesado, com dezenas de informações para serem absorvidas – e sentidas – pelo espectador, mas, apesar disso, merece todas as indicações que veio a receber.
            A fotografia retratava em muitas cenas – por exemplo, a das prostitutas no cais (uma das minhas favoritas por sinal) – a decadência de uma França do século XIX, que por sua vez fora realçada pela maquiagem e indumentária excepcionais; achei digníssima a atenção dada à sujeira das roupas e das próprias pessoas, fazendo com que de fato você sentisse uma repulsa por todo aquele nicho. Era quase possível sentir a sujeira e seu cheiro. Outra questão a ser ressaltada, certamente, é sobre os enquadramentos das cenas. Se falarmos do “B, A, BA” superficial, cinema pode ser definido como “técnica de projetar fotogramas de forma rápida e sucessiva para criar a impressão de movimento”, na minha opinião, os enquadramentos de certas cenas de Les Misérables eram capazes de criar uma obra pictórica (ou serem tidos como tal), na verdade. E posso afirmar, com plena convicção, que de todos os filmes que já vi, o dito cujo possui uma cena que entrou para a categoria de “cenas mais belamente enquadradas” (nada de spoiler, acalmem-se).
            A história foi fluindo, densa e vagarosamente - principalmente por causa da passagem de tempo dentro dela mesma, senti como se os anos também estivessem pesando sobre a minha pessoa -, mas fluindo de qualquer forma. Ao contrário de narrativas altamente clássicas que se desenvolvem para chegar num só clímax, Les Misérables possui diversos em sua trajetória. Ele desconstrói – e destrói – nossas esperanças românticas, desestabiliza o espectador e continua a seguir seu rumo, cabendo a nós mesmos termos de nos recompor e segui-lo. Filme difícil, mas instigantemente belo e sensível.
            Não me adentrarei nas questões das próprias personagens, pois acabaria por transformar um post num artigo, e tenho medo de julgá-las mal e de forma superficial, portanto minha opinião aqui publicada refere-se mais à obra como um todo.
            Les Misérables é um filme que lhes indico, caros caríssimos, entretanto, indico para que seja assistido numa sala de cinema. É uma obra grandiosa e pesada, cuja atmosfera e visualidade não cabem numa sala de estar e numa televisão comum, sendo pois, dependente do ritual do telão e da poltrona vermelha (ou azul) mergulhados no escuro do cinema.





Título Original: Les adieux à la reine | Dretor: Benoît Jacquot | Lançamento: Mar/2012




“Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e a grande moderação à mesa geralmente anuncia costumes dissimulados e almas duplas.” 
Jean-Jacques Rousseau

O horror ao vazio do período Rococó nunca sairá de moda, o requisitamos em nossas vidas e obras, somos uns saudosistas pelo o que não tivemos, por isso as constantes visitas a esses tempos. Não o superamos, honestamente. Isso explica o sucesso atual do cabelo rosa algodão doce de Elizabeth Banks em Jogos Vorazes. Amamos o excesso visual, consequentemente, amamos a volta de Maria Antonieta - em um filme francês dessa vez, o “Adeus, minha rainha” de 2012 baseado no romance escrito em 2002 por Chantal Thomas. Trata-se de diversas vias a terminarem em um simbolo só.
No lugar da leveza de um quadro de Fragonard com seus amantes roubando beijos arriscados e as festas galantes nos jardins, temos o desfalecimento da vida em corte. O filme muitas vezes narrado em nervosas madrugadas iluminadas por velas, mostra a angústia dos dias antes da Revolução Francesa através do olhar de Sidonie Laborde, uma fictícia criada encarregada da biblioteca real cujo ofício é narrar livros para a rainha.
A câmera muitas vezes faz o percurso por detrás das costas de Laborde, andando pelo palácio em completa crise, a criada vira o público dos nobres misturados aos servos pelos corredores para trocarem informações a respeito do que acontece do lado de fora do mundo deles, um mundo no qual eles sempre pareceram imunes. O sentir-se pequeno ao ponto de ficar igual a todos os demais, emoldurado pelo medo daqueles que sentem o poder esvaindo de suas mãos sobrecarrega essas cenas.
Após o povo invadir a Bastilha, uma lista com mais de 200 nomes que devem ir para a forca aparece tornando-se impulsionadora para fuga dos nobres, eles abandonam assim, a rainha para trás vendo soçobrar o seu antes seguro status social. O filme é uma extensão de um momento abordado rapidamente no filme de Coppola, o momento em que têm-se uma Antonieta mais madura presenciando somente a crise de seu reinado. Há uma cena incrível no nível do fim de “Ligações Perigosas”, cujo a rainha após encarar austeramente os da corte ao lado do rei, dirigi-se para um local reservado ao lado de Polignac, ao ficar segura dos olhares remove a maquiagem de sua face substituindo a expressão fria por um choro guardado, começando a ser ela mesma; tirando de si, as famosas máscaras sociais do período Rococó e a latente necessidade de manter uma imagem.
São as sutilezas secundárias do desenrolar da trama que compõe o charme desse filme, uma delas é ver a criada sendo apoiada na escolha de “Confissões” de Rousseau para uma leitura tranquila no qual a rainha fosse deleitar-se, e lembrar que um dos maiores endossadores do discurso iluminista também era admirado por alguns de seus escritos na corte – grifando aqui, que a famosa citação dos brioches nunca foi de Antonieta (Fonte). A rainha, é um bebê mimado igual a famosa Antonieta de Coppola, o amor por moda é ressaltado quando a mesma tem uma ideia para um novo vestido: reúne-se nas cenas a belas roupas, os belos cabelos e a bela arquitetura, mas as famosas farras da corte francesa não acham espaço para instalar-se nessa ruína.
O filme poderia passar em branco, todavia torna-se interessante por abordar a suposta bissexualidade da rainha, assunto pouco discutido. O alvo para essas divagações é a Madame de Polignac, amiga intima ganhadora de diversas regalias para ela e a família, após uma repentina união com Antonieta. O último desejo da rainha é tirá-la do caos, o método para tal, trata-se de mais uma especulação atingida com a magia do cinema capaz de devanear até tornar interessante o que poderia ser estupidamente banal.


Título Original: Django Unchained | Autor: Quentin Tarantino | Lançamento: Jan/2013
            Depois de explodir um cinema com Hitler e os principais nomes do alto comando nazista dentro em "Bastardos Inglórios", Quentin Tarantino volta às telonas com mais um capítulo da história reescrito - à sua maneira, claro. Agora é a vez de escravos do sul dos Estados Unidos se vingarem de seus opressores. "Django Livre" tem muito do cinema de Tarantino, mas, como não podia deixar de ser, carrega uma tonelada de referências dos filmes que o diretor assistia quando ainda era um "rato de locadora".

            Aqui encontramos de tudo um pouco: dos westerns spaghetti de Corbucci até "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas. Tudo junto e misturado em mais uma daquelas bagunças tarantinescas que os fãs tanto amam, com banhos de sangue, diálogos longos, muita referência pop e edição ágil. Não há ninguém - repito, NINGUÉM - que faça um cinema tão original e autoral quanto Quentin Tarantino. 



           Mas aqui o destaque também é dividido com o elenco. Jamie Foxx, Christoph Waltz (indicado ao Oscar), Leonardo DiCaprio (indicado ao Globo de Ouro) e Samuel L. Jackson dão um show. Todos eles, sem exceção.

           Não está no nível de trabalhos anteriores do diretor, como "Pulp Fiction" e "Kill Bill", mas é sempre bom ver um cineasta com tanto talento em sua melhor forma. Agora, nos resta esperar pelo seu próximo filme. E a pergunta que fica é: quem Tarantino mandará pelos ares? Façam suas apostas. Ele está mais inspirado do que nunca.