
“João Gostoso era carregador de feira
livre e morava no morro da Babilônia num barraco sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de
Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de
Freitas e morreu afogado.” (In: Libertinagem, de Manuel Bandeira)
Todo poeta
seria, no fundo, mentiroso? Ontem, enquanto bebia café e tentava me aquecer, li
as notícias do caderno do dia e lembrei que os jornalistas não mentem. Pois,
por definição, à prosa cabe o fato e à poesia cabe o sentimento. Então,
senti-me sujo e profano - prometendo para mim mesmo, em nome dele, nunca mais
sequer pensar em versos.
Não
consegui. Poucos segundos depois de jurar - deixando claro que acho este o mais
peculiar dos atos humanos -, vi um garoto a chorar desesperadamente, sem nenhum
motivo aparente. Entrei em um êxtase metafísico; senti-me arrebatado pelas
lágrimas do guri e precisei escrever. Era preciso dar vazão àquele grito
oprimido que eu nem sabia o porquê, mas no fundo, também tornara-se meu.
Lembrei
que havia prometido. E eu, como homem, como ser, ainda que jogado à derrelição,
era teu filho e a ti devia respeito. Mas, estava possuído. Era como se eu
tivesse nascido para cometer este pecado. E desatei-me em versos. Mas, no
fundo, não sabia ao certo o quê escrever. Era preciso motivos, dados, fatos,
circunstâncias, horas exatas e a bendita verosimilhança que eu nunca
compreendera. Foge de mim, vades retro, como escrever de maneira lógica se, a
própria vida, em si, não tem lógica, não faz sentido? Há certas coisas que
acontecem e não fazem sentido, e é disso que verdadeiramente a poesia trata.
E descobri
que era esse o meu ofício, o de mentir. Dar sentido, tornar palpável e
material, digerível e aparentemente interessante o que no fundo é incompreensível
e cotidiano. E que se fossemos ofertar uma vaga de emprego para poeta, a maior
qualidade, aquela que diferenciaria todos os candidatos, seria a vileza. É
necessário ser vil. E não me refiro à vileza, aqui, como aquele que nos faz
mal. Digo vileza como sinônimo de oportunismo. Faz-se necessário olhar a vida
com olhos de fome: como se tudo fosse matéria para uma boa poesia.
Logo, se
pensarmos assim, somos todos poetas,
porque todos nós mentimos (até mesmo os jornalistas) sobre os mais diversos
temas, beirando muitas vezes a nossa própria condição humana - que é tão
questionável quanto a poesia. Somos todos “João Gostoso” e somos todos Manuel
Bandeira. À medida que construímos nosso ser, enquanto agentes (em atos,
palavras, situações), damos margem ao fazer poético e à medida que existimos, podemos
dar forma a tudo isso. E é por isso que a experiência da poesia, seja como
autor ou leitor, é tão única e diversa, assim como o fato de existir, seja agindo
de fato ou apenas observando o mundo ao redor.
Por isso
que eu digo: é para se ter cuidado com essas pessoas que nos fazem crer no
amor, na dor e em todos esses lugares comuns à poesia. É tudo uma mentira tão
deliciosa, como aquelas que nos contam nos jornais...

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