O Zaire De Ambroise Ngaimoko.


“Ancorados na filosofia de uma era pré-digital, em que a fotografia era muito mais um evento orquestrado e contido que um mero instantâneo, seus retratos pintam a diversidade de personagens e manifestam a riqueza das relações humanas.”  (Guia da Bienal, p. 76)

            Certos retratos possuem o poder de desnudar o ser humano através de um contato direto, uma abordagem crua e um indivíduo preparado para se mostrar. Claro que o fotografo é o responsável por dar um tratamento adequado para a imagem, escolher o melhor enquadramento, tentar organizar e dosar os fatores que vão compor o todo e dirigir a ação, entretanto, quem está sendo fotografado também precisa estar preparado. Precisa querer transbordar, mesmo sabendo que uma lente observa.
            Acho que a foto logo acima traz uma das minhas imagens prediletas; gosto da senhora que nos encara e nos leva para a cena e da mais nova que ao contrário do olhar calmo da outra, nos dá uma inquietude, como se tivesse sido fotografada sem ter decido que pose fazer. Facilmente somos induzidos a vislumbrar a vida das duas e somos provocados a querer decifrá-las. Acabo até mesmo fascinada com o passar do tempo, com o peso das gerações. Ambroise Ngaimoko tirou retratos desses aos montes, por isso essa minha vontade repentina de escrever mais uma vez sobre ele e sobre essas figuras que nos enchem de vontade de estar ali na cena, só para perguntar como é a vida daquela pessoa diante de nós.
            A partir de agora, sigo com um texto pensado a três cabeças (obrigada Bia, obrigada JP) com a ajuda do catalogo da trigésima Bienal de São Paulo e que agora recorro a ele – o texto, no caso –, para escrever esse novo aqui. Lembro de Ngaimoko ter me intrigado bastante, vindo a lembrar dele folheado o tal catálogo, em um desses dias em busca por alguma inspiração. Ngaimoko é um fotografo angolano responsável por retratar toda uma sociedade do início dos anos 70 até o final dos anos 90, montando uma história através dos personagens que viviam em Kitambo, local no qual, ele estabeleceu o seu estúdio de fotografia: o Studio 3Z. Ah, e um detalhe único do estúdio, foi o emprego de uma técnica inédita, em que dois retratos eram revelados na mesma folha usando duas vezes o mesmo negativo.
            Sua vida profissional foi toda calcada na República Democrática do Congo, país onde desembarcou aos 12 anos, acompanhado de sua mãe e irmãs, como refugiado da guerra da independência angolana, que chegou ao fim apenas em 1974. Trabalhou como mecânico, projecionista de cinema e por conta de um tio, proprietário de dois estúdios fotográficos, acabou parando no ramo da fotografia.
            O estúdio até 1997 manteve o nome de 3Z, simbolizando os três Zaires principais da vida dos que ali viviam, ou seja, o país, a moeda e o rio. Porém, em 1997 juntamente com a mudança do nome, o país de volta para República Democrática do Congo, passando a se chamar 3C ou 3Congos. A mudança de nomes foi necessária para os que viveram sob a ditadura de Mobutu, pois os Zs remetiam a uma lembrança dolorosa.
            O estúdio foi o responsável pela representação do percurso afetivo de indivíduos de uma África marcada por guerras, regime ditatorial e constantes disputas territoriais. Inclusive, pode-se reforçar isso dizendo que o legado deixado pelo Studio 3Z é um rico acervo para compreensão da cultura não só do Kitambo, mas do país como um todo, através dessa parcela humana exibida nos retratos milimetricamente construídos por Ngaimoko ao ser ajudado pela honestidade dos que se colocaram diante dele. Essas imagens de Ngaimoko merecem atenção não apenas pelo seu peso documental ou por juntamente com seu estúdio ter construído uma história africana, mas pela beleza e a potência artística contida nelas. Lembrando também que sua técnica as levou ao status de vanguarda, portanto Ngaimoko – mesmo anos depois e em uma era digital –, merece uma pausa. 

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