A Queda do Arcadismo, por Lalesca Fravoline

        Antes de iniciar o meu singelo devaneio, um tanto leigo, um tanto ousado, ao propor escrever sobre paisagem, gostaria de explicar o que me levou a criar um post sobre tal tema. Quando se passa madrugadas escrevendo ensaios, lendo textos sobre natureza e paisagem, quando alguém lhe apresenta a ideia de que aquela não existe, sendo um conceito criado pelo homem e que varia entre as culturas e épocas, você passa a enxergar com outros olhos o ambiente à sua volta, natural ou artificial. Portanto, desejo tentar expressar e dividir com vocês, caros caríssimos, essa experiência intelectual e, principalmente, sensorial oriunda dessa nova forma de olhar, trazendo para cá o relato da minha visita ao jardim do Palácio do Catete, no qual também se encontra o Museu da República, que localiza-se, obviamente, no Catete, Rio de Janeiro. 
       Acho que o ser humano possui uma forte conexão com o ambiente natural, conscientemente ou não, e a partir do momento em que o Homem abandonou a vida selvagem, passando a viver em sociedade, essa relação, assim como a própria Natureza, tornou-se um tanto mistificada. Entretanto, quando o ser humano aprofundou-se demais no meio artificial, ele teve de trazê-la novamente para junto de si, embora protegido dos riscos reais de se morar num espaço selvagem e hostil. Nesse momento então criou-se os pequenos jardins, inicialmente feitos dentro dos muros das cidades, uma mera lembrança simbólica que poderia ser admitida dentro da civilização.
       Ao caminhar pelo jardim do Palácio, sombreado devido à distribuição das árvores e espaçamento entre suas folhas, percebi algumas pessoas de diversos tipos de faixa-etária, todos aproveitando a sombra e brisa, sentados em banquinhos, ou, no caso das crianças, a correrem pelo chão de terra batida, quase sem pisar no gramado – hoje sei que aquelas plaquinhas de “não pise” postas sobre a grama são ferramentas para uma espécie de castração, pois nos impede de usufruir de mais uma parte do jardim posta ali para nosso conforto e deleite. Meu olhar, analisando tudo ao redor, e já mais treinado depois de estudar tantos textos sobre a relação do homem com o meio e a evolução deste, não me permitiu uma maior absorção naquele ambiente, mesmo que eu soubesse a todo instante que essa era sua intenção e funcionalidade.

      O jardim do Palácio possui a proposta daqueles primeiros, criados por volta dos séculos XVI e XVII (salvo engano), buscando passar a ideia de uma natureza ainda não domesticada, um bosque contido pelas grades, dentro da cidade. Além da disposição da vegetação em prol dessa ideia, havia também alguns marrecos soltos pelo jardim. A natureza estava ali então, fauna e flora, vivendo de forma harmoniosa, e – acima de tudo – à disposição do homem. Representando isso, talvez de forma clara demais para um olhar treinado, há algumas estátuas de crianças domando, ou matando, animais, bestas selvagens. Vê-se ali então a supremacia do Homem sobre a Natureza, entretanto, através do simples fato da existência do jardim, vê-se também a necessidade daquele de trazer para junto de si um remanescente de uma vida natural, embora, como disse anteriormente, sem os riscos reais oferecidos pela mesma de fato. O jardim é uma ilusão, uma ferramenta para saciar nossa nostalgia por uma vida, idealizada assumidamente pelo Romantismo, na natureza. A floresta, o bosque, foram transformados em lugares mágicos, protegidos dos horrores da civilização, no qual o indivíduo seria livre e seus segredos, guardados. Já no Barroco a aristocracia da corte vivia numa eterna idealização e desejo de fuga para uma vida campestre pueril, livre das tensões dos jogos de poder hierárquicos, embora sem reconhecer a realidade levada pelos camponeses cujas vidas ainda eram assombradas pelas ideias remanescentes do período feudal. Havia o desejo de se retomar aos primórdios, mas que se mantinha apenas no campo das projeções, sendo então saciado pela arte.


        Essa conexão, ou a necessidade desta, se estabelece não somente com a natureza racionalizada, como também, principalmente poderia dizer, com a mistificação desta. O misticismo engloba a natureza, responde os receios inconscientes que ela nos desperta. Além de ser representado na forma de esculturas de seres feéricos que ornamentam as praças e jardins, ele pode ser sentido através da simples esperança que se tem ao frequentar tal ambiente em prol de uma tranquilidade que o “mundo urbano” não possui, pois o refúgio possui uma aura envolvente que não sabemos explicar, mas que talvez, devido a esse misticismo, nós mesmos tenhamos criados. O jardim é uma bolha alimentada pelas ideias racionais e místicas que rondam a real Natureza.

       Por ter sido construído na época – meados do século XIX - para uma propriedade privada, o local possui um ar muito mais intimista, utilizando-se de uma estética romântica que, por sua vez, trazia a proposta de reviver os ideais que os primeiros parques públicos possuíam, os quais eram frequentados por pessoas que buscavam ali, já dizia Rubens, nosso professor, confraternizações sexuais. Pode-se perceber nitidamente essa função das praças públicas através do filme The Libertine, no qual o aristocrata e boêmio inglês, Conde de Rochester - interpretado por Johnny Depp - faz uma caminhada por uma praça que está envolvida em névoas, criando uma aura onírica e revelando de corte em corte diversas orgias. Trazendo para a contemporaneidade, ainda vemos casais utilizarem-se desse tipo de espaço público para seus encontros amorosos – e, quiçá, para as tais confraternizações.

       De qualquer forma, toda a magnitude da flora, e o simbolismo das esculturas e outras construções, demonstram o poder do proprietário do Palácio – o qual, segundo fontes, era um barão dono de fazendas de café. A dominação da natureza também representa um grande poder político; posso citar como exemplo Luís XIV que, através de Versailles, demonstrou a proporção de todo o poderio de seu reinado. O Rei Sol controlava não somente seu povo, seu Estado, como também toda a natureza exposta em Versailles. Entretanto, devo ressaltar, há uma diferença estética quanto aos jardins de Luís XIV e o do Palácio, pois naquele a proposta era trazer para o convívio social uma natureza civilizada, nitidamente controlada e pensada pelo homem em cada milímetro. 

       O passeio pelo jardim foi uma viagem ao Romantismo, à idealização da vida e do amor, à melancolia de um dia nublado. A proposta de naturalidade fez-se sentir, pois todos os elementos são muito bem dispostos e encaixados, como se estivessem sempre estado ali. Uma de suas entradas dá para a avenida principal, um contraste entre a paisagem urbana e a paisagem “natural” se estabelece, e ali você encontra um ponto de fuga, um despertar do inconsciente dessa necessidade que temos de estabelecermos, mesmo que infimamente, nossa conexão com a natureza, realizando-a num ambiente totalmente planejado.

       Terminou então a visita, minha perspectiva não mais sendo baseada numa relação na qual cabia a mim o papel passivo nessa troca sensorial. Agora era eu a observadora, fazendo trocas ativas com o meio e seus símbolos.

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