Schools Are Prisons, diria o punk: por Paula Amparo



Título Original: Aftherschool | Dretor: Antônio Campos | Lançamento: Jan/2008
            Nem vou me apegar a falar do nome brasileiro que está por trás desse filme, pois algumas resenhas da internet já o fazem, sendo assim vamos para a primeira impressão: filme ambientado em cenário asséptico sobre o quanto na adolescência fomos colocados para escanteio dentro de instituições de ensino de merda para que os adultos vivessem suas rotinas – seu empregos, seus problemas, seus salários – com seus filhos suficientemente castrados pelo sistema que presenteia somente o bom comportamento. Afinal, creio que a maioria dos que chegam ao fim do ensino médio concluem nunca haver sido uma questão totalmente dependente de inteligencia e criatividade, receber o diploma.
            Barganhar com professores, respeitar às autoridades, dedicar-se em ser pontual e fazer os trabalhos, esses são alguns pontos associados ao se formar ou não. Ser bom/inteligente, é obter a pontuação requerida para ser aprovado nos exames, se isso não é decorar/treinar uma formula não sei como alcunhar e para tal, faz-se necessário seguir a linha do preestabelecido como correto. Isso variará dependendo do colégio, alguns exigem nota 5 e outros 6, você é o número que merece. Convenhamos, na convenção social mais conhecida como “sobreviver aos anos de escola”, a alforria só é concebida para os “bons indivíduos” ou os espertos suficientes para seguirem o padrão.
            Nos minutos iniciais, vemos essa relação hierárquica contemporânea que oprime diplomaticamente ao dispensar batidas com réguas na mão, substituindo-as por palavras, vejo a citação do coordenador do colégio na reunião matinal com os alunos para a moça que chega um pouco atrasada, ótima para ilustrar as ideias fatalistas sobre o futuro para os que não respeitam a rotina educacional proposta.

“Srta. Jameson, você dormiu bem? Acabou de perder um discurso inspirador sobre avisos, sobre uma possível inspiração para tentar vir a ser algo no futuro, mas eu não me preocuparia, o McDonald's ainda irá contratar pessoas depois da graduação.”

Realmente fazemos escolhas o tempo todo ou o meio nos arremessa em direção ao julgado como mais cômodo e promissor? Os alunos são uniformes, as escalas de cores do filme mostram-se limitadas, vira e mexe podemos ver um vermelho aqui e acolá. “Depois das aulas” segue como mais um corriqueiro relato sobre a geração youtube – ele é de 2008 –, pois já era possível ver o grandioso efeito produzido pelo fácil compartilhamento de imagens na geração da banalização da imagem graças a simples acessibilidade. E a banalização mais comentada, sempre foi a da violência, logo, seguindo o praxe da nossa época, o problema de Robert ficará centralizado no prazer fornecido pela pornografia violenta para ele. Entregando na primeira cena o fim, baseado no prazer-desajuste-social que o protagonista sente ao ver o terror no rosto das mulheres, o filme consegue de certa forma nos fornecer uma abordagem diferente aos temas youtube, violência e adolescência.
            Os indivíduos mostram-se predominantemente apáticos, um verdadeiro acúmulo por todas as partes: as pulsões sexuais e a vontade de socar a cara de alguém, angustiantemente guardadas no anseio por um grito que acaba por ser reprimido, aniquilado, comprimido e não há vontade por parte nem dos pais, nem dos responsáveis pelo colégio interno de ver a implosão desses sentimentos. Creio que esse distanciamento, entre os jovens e os que conseguiram alcançar a idade adulta até serem considerados psicologicamente adequados é bem retratado pelos enquadramentos ora  distantes, como se as peças – as pessoas – estivessem bem fragmentadas no espaço gigantesco no qual ficam largados ao vento qualquer tipo de exposição do verdadeiro eu, ora esses personagens são enquadrados em partes, apenas o pedaço da cabeça, pouco revelados em corpo e essência, demonstrando o distanciamento sob outro ponto de vista.
            Como se previsse o futuro, ele tenta falar com a mãe pelo telefone e ela só pede para seu filho dizer que está bem, ela compõe o arquétipo de um expoente na arte de ignorar, não faz perguntas por curiosidade, mas para cumprir seu papel/dever social. Robert muitas vezes é impedido de se expor (pela mãe, pelos amigos, pelo orientador, por ele mesmo, etc) virando um mistério, vemos suas ações mas não as entendemos por completo, não o vemos por completo. O relacionamento dele com Amy tido como um sexo rápido e cômodo no maior estilo: nós estávamos ali, salientam como os atos acabam por banalizados, tão passageiros quanto a camada superficial de Robert e aqueles tão iguais – como já disse, similares na superfície –, tão uniformizados.
            A base do sistema é desestabilizada quando duas adolescentes morrem de overdose por cocaína, Robert assiste a tudo, o enquadramento da câmera que o filma deixa em suspense o motivo do menino ter ficado parado sem gritar por ajuda. Ele é chamado para fazer um vídeo sobre a morte das gêmeas pois foi o único perto delas no momento final, o que nos leva para outro ponto alto do filme: os cortes que o garoto dá as cenas são criticados, não possuem música, mas são demasiados sinceros com a emblemática cena que só mostra os pais das meninas de costas. E a verdade, como o próprio coordenador do colégio propôs ao dizer que aquela cocaína foi oferecida diariamente, direta ou indiretamente, por todos os que rodearam as gêmeas.
            Os diretores sempre estiveram informados por mais de um ano, mas ignoraram. Desconfiam que a droga veio de dentro do colégio, mas ignoraram. Perceberam os transtornos de Robert, mas ofereceram medicação e ignoraram, para que tudo terminasse em absoluta normalidade obtida através de inúmeros esforços em esconder para debaixo do tapete o que incomoda, todos acabaram oferecendo assim, as costas.


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