
As duas branquelas de bochechas avermelhadas rechonchudas
ávidas a moverem-se juntamente com os sorrisos largos de ambas, estranhamente
largos, se formos resenhar acerca dos assuntos acadêmicos que voam dos lábios
dessas meninas e que matutam seus inquietos miolos cerebrais - incluindo
teorias deleuzianas que mais parecem nunca terem sido entendidas, por isso uma
delas repetia com afinco acreditar que a sociedade calcou um pacto no qual
ninguém comentava a respeito, porque no fundo, seres humanos, sejam eles,
professores ou alunos gênios ou pipoqueiros eruditos, nunca nenhum deles,
haviam honestamente absorvido algo enquanto liam as pomposas e belas frases
compostas pelo filosofo.
Passeando por Sartres e existencialismos, tentavam
identificar as pessoas arquivadas no escaninho, formando catálogos
inconscientes de todas, para acharem um método científico cujo essa
classificação culminasse em uma melhor aplicação das teorias sobre aquele
estado de desespero desconfortante desnorteante que essas inocentes meninas
encontravam-se, todos aqueles textos aristotélicos, uma hora ou outra teriam
que ser digeridos, uma hora ou outra viriam a fazer mal, por isso no frio
daquele 485 buscavam buscavam buscavam, ok, buscavam ansiando um meio exato, um
meio digno de engenheiros, matemáticos e físicos para identificação da
incógnita da questão, nem que essa busca fosse um tanto quanto ardilosa e
imersa em café abandonado na chaleira que esfria ligadamente com o dramático
suspiro pré-encerramento do expediente.
Uma das meninas, a alta, em tom tão alto quanto a sua
altura, dentro do ônibus lia a definição de Paul Tillich, para uma palavra já
citada anteriormente: "Desespero é uma situação extrema ou de 'linha de
fronteira'. Não se pode ir além dela. Sua natureza está indicada na etimologia
da palavra desespero: sem esperança.”. A interpretação gerou aflição, elas
já não sabiam para aonde correr. Logo, elas nadavam em círculos internamente
com seus nervosismos típicos das moças que vivem em um lago, daqueles bem profundos,
essas moças comumente habitam corpos de pequenos peixes; perdidas no escuro das
águas, elas não conseguem ater seus pés nos chãos e os pensamentos, por conta
de distanciarem-se tanto da terra, perdem-se incapacitados de seguir em linha
reta.
Os olhos das raparigas brilham traduzindo curiosidade em
suas pupilas, nessa autoflagelação intelectual que é o poço escolhido para o
repouso dessas ideias oscilantes, ideias atordoantes na insistente busca por
uma conclusão, em uma viagem por aquela tal alegoria de esteriótipos perdidos
no carnaval de personalidades monodimensionais, que para facilitar chamarei de
conhecidos que estudam, trabalham e comem, ao lado dessas supimpas estudantes
que berram demais quando cobiçam respostas.
Desistentes de qualquer objetivo após algumas horas de
conversa, uma delas ao perceber que maior parte dos personagens da trama de
suas rotinas já estavam devidamente classificados conforme cor, tamanho e
quantidade de massa cinzenta encefálica no corpo, arrisca timidamente discorrer
sobre a atitude de ambas, ela tateia pelas arestas devido ao medo de expor mal
a questão. A medida que a pergunta vai possuindo um terreno sem relevos para
cair, cheia de sutilezas, a menina dos cabelos curtos diz:
-
Eu tenho medo, sabe.
-
De que?
- Eu ultimamente olho para as pessoas, e as acho personagens,
cê sabe. Então, o que elas acham de mim? Elas acham algo.
-
Sem dúvidas.
- Aqui, enquanto falo e falo, sabe? Eu fico com medo,
sabe? Porque todos ao nosso redor
avaliam as nossas atitudes e nos colocam em algo. Nós as classificamos, elas
nos classificam.
Houve um breve silêncio entre ambas, que se olharam com
uma espécie de faísca guardadora de um sorriso nas pupilas, aquela chama
responsável pela expressão: “ela sorriu com os olhos”. Portanto, aquele instante
pareceu conscientizador do quão cômico era estar no ônibus caindo no precipício
da contradição, enquanto andavam sobre o terreno das aplicações de pensamentos
muito mal pensados em experimentações muito mal calculadas, entre
etnocentrismos e egocentrismos e outros centrismos, por isso, sorriram com os
lábios, até que, cautelosamente, as seguintes palavras – sem dó – foram
lançadas em uníssono ao vento: “Somos nós, esteriótipos também?”. Esfinge.

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