
“Nada, no estado
atual da ciência, permite afirmar a superioridade ou inferioridade intelectual
de uma raça em relação a outra. […] Existem muito mais culturas humanas do que
raças humanas.”
Claude Lévi-Strauss
O francês Thomas Balmès durante um ano documentou a vida de 4 crianças começando por filmar as mães grávidas fazendo os preparativos para a chegada dos personagens principais da trama “bebês” de 2010, eis que surgem os contrastes das barrigas na alternação das imagens: ora vemos a mãe africana pintando a sua com uma espécie de tinta vermelha, ora a mãe japonesa fazendo carinho na dela. Somos soterrados pelas galhofas infantis, porém, essa atmosfera descontraída permeada por fofura ambientada em belas imagens torna possível a compreensão de diferentes mundos por quem está assistindo a saga dos pequenos. Creio que Balmès usou uma sutileza deveras elegante para se expressar deixando bastante espaço para o pensamento livre, que corre solto enquanto formulamos opiniões através das instruções totalmente imparciais do longa. Imergir em “bebês” é um processo de autoanálise incrível, diria, necessário.
Temos Ponijão da Namíbia vivendo com outras crianças e mães em uma comunidade tribal, os homens raramente são vistos perto de seus filhos. Essas mães são retratadas como um grupo de mulheres sentadas a maior parte do filme observando seus filhos e cozinhando, não dá para saber quem é mãe de quem, as tarefas são exercidas coletivamente. Ponijão brinca com barro e “briga” com as outras crianças tornando suas brincadeiras mais brutas do que o rotulado como aceitável por nós, todavia, as mães nem se incomodam e os pimpolhos rapidamente ficam de bem. Na Mongólia aparece Bayar morador da zona rural levando sua infância rodeada por animais e claro, seus vários irmãos. Há uma cena em que Bayar leva uma lambida do cachorro, mesmo assim ninguém corre para passar álcool em gel nele, o que nos leva a imaginar o que fariam as mães de um contexto urbano característico das metrópoles mundiais que aflitas, sobem na cadeira mais próxima ao avistarem uma barata.
Representando esse tal contexto urbano há Hattie (EUA). Têm-se uma cena bastante marcante na qual a mãe de Hattie lê um livro chamado “Como ser a mãe que você deseja”, já em outra Hattie dá um pequeno tapa no rosto de sua mãe e a mãe reage mostrando para a filha um livro chamado “Sem bater”, a menina que mal sabe ler tenta entender a imagem na capa. Mesmo com todos os esforços dos pais de primeira viagem para educarem a filha da forma mais diplomática possível, algumas situações fogem do manual os deixando desastrados na hora de serem os pais que desejam, a falta de habilidade dos pais nessa área presenteia a pequena com o tombo mais memorável do documentário.
A outra família apegada à tecnologia é de Tóquio, pais de Mari. Mari se irrita brincando em um quarto repleto de brinquedos porque não consegue encaixar uma peça em um deles, exibindo demasiado nervosismo. Longe de tantos recursos para divertimento compostos de plástico, Bayar passa o dia explorando a fazenda, vivenciando aventuras incentivadora de acidentes, mas sempre saindo ileso delas: estresse passa longe do vocabulário quando nos referimos ao seu jeito de interagir com objetos.
A mãe norte-americana diante da televisão encara-se no documentário, como se de fato contemplasse pela primeira vez a si mesma: sentiu-se mal ao perceber o excesso de coisas que poderiam ser triviais ao desenvolvimento de Hattie, conclusão ratificada após assistir as mães da Namíbia. Na nossa sociedade atual, o essencial – comida e conforto – encontra-se de fácil, basta uma ida nossa ao mercado e temos comida congelada que após 10 minutos no micro-ondas está pronta, nosso jeito de obter o que desejamos é completamente diferente ao jeito dos moradores de uma sociedade tribal. Sobreviver não faz parte do nosso interesse primordial, já não precisamos inventar teorias para garantir nossa segurança – prédios com câmera, policiais na rua e comida estocada na geladeira – fazendo-se comum vermos como indispensáveis símbolos que dependendo do ponto de vista são totalmente descartáveis.
No ambiente cultural no qual uma sociedade tribal está organizada, pode-se considerar besteira ler livros sobre “educar crianças”, contudo para uma mãe norte-americana absurdo seria deixar o seu filho rolar na lama. Eventos cotidianos intrínsecos à nossa natureza – tal como o corriqueiro ato de procriar – comprova que olhar a sociedade do outro é benéfico para entendermos a nós mesmos e principalmente, avaliarmos nossas prioridades. Obrigada Bàlmes, por essa reflexão.




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