Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

O Charmoso Gatsby



            Nick e Daisy são idênticos quando querem algo, não se importam de não ser exatamente "aquilo" que sempre esperaram, contanto que seja alguma coisa. Em determinado momento, Nick que aparentemente deixou um passado mal resolvido no Oeste se dá conta que não está apaixonado por ninguém, entretanto sente-se feliz por ter Jordan ao seu lado para abraçar e quanto a Daisy, temos a descrição do momento em que precisou esperar por Gatsby: na falta de retorno do seu amado, voltou para festas e agarrou o melhor que pôde ao meio dessa vontade, no caso, o endinheirado Tom, que servia como uma luva para a sua mão por condizer com a sua situação. Afinal, ele era suficientemente rico.
            Quando esboço que são parecidos, admito que talvez não seja algo somente compartilhado por aqueles primos, mas sim, pela geração americana que ali nascia. Viviam o auge. O inicio dos anos 20, que de tão inebriados diante da própria beleza nem conseguiam avistar o urubu voando por cima da neblina que viria em 29. E, no front dessa esperançosa ostentação bem verde e luminosa, temos Gatsby. Tão de acordo com o benquisto pelos seus contemporâneos, ele era amado. Os frequentadores de suas festas chegavam a centenas mesmo sem sequer terem visto o anfitrião, porém diante da intimidade dos espaços lotados e impessoais aparecia-se até sem convite, sentiam-se agradecidos pela hospitalidade, mesmo com o ovacionado dono da casa sendo visto como um homem “que matou um homem”, como diziam por ai. Nesses tempos em que a Lei Seca estava mais fácil de burlar e que todos queriam suas mentes borbulhando, seus pés dançando e as noites intermináveis – não que tenha mudado muita coisa de lá pra cá, momento em que saliento essas pequenas permanências mais cheia de um certo medo bem egoísta acerca do meu próprio tédio, do que por conta daquela altruísta tristeza acerca da humanidade.
            Gatsby é aquele vizinho que a gente quer pedir uma xícara de açúcar, mesmo com três sacos de União na despensa. O charuto cubano apreciado quando se está satisfeito, porque ele em hipótese alguma seria uma busca por consolo, esse papel geralmente fica com o cigarro durante a primeira xícara de café nas manhãs ou na área aberta das boates, quando as músicas e as pessoas parecem mais deprimentes do que você, embora elas estejam sorrindo e dançando. Ele é o riso frouxo quase clandestino que é solto quando se acha cinquenta reais no chão, na mesma semana em que acabou de receber o pagamento, e a descoberta de que o brownie também vem com calda de chocolate quente além daquela bola de sorvete de creme.

Os Suspeitos Usavam Louboutins



Sofia Coppola entende bem do mundo das celebridades. Filha do renomado cineasta Francis Ford Coppola (“O Poderoso Chefão”), esposa de Thomas Mars (vocalista da banda Phoenix), irmã do roteirista Roman Coppola (“Moonrise Kingdom”) e prima do ator Nicolas Cage (“Despedida em Las Vegas”), Sofia está mais do que acostumada com a ostentação de Hollywood. The Bling Ring, seu mais recente filme, conta a história real de uma gangue de adolescentes que se reuniu durante pouco mais de um ano para invadir e roubar mansões de celebridades em Los Angeles. Paris Hilton, Lindsay Lohan, Orlando Bloom, Audrina Patridge e Rachel Bilson estão entre os famosos que foram vítimas dos cinco jovens endinheirados da capital mundial da fama. O grupo não rouba para lucrar em cima dos pertences roubados, mas sim para imitar o lifestyle dessas personalidades que eles tanto admiram. Após invadirem as mansões com relativa facilidade – quem poderia esperar que grandes astros como esses deixassem a chave de casa sob o capacho da porta? -, os adolescentes ficam encantados com o mundaréu de roupas, acessórios, sapatos e joias que essas celebridades acumulam. São tantas coisas, aliás, que Paris Hilton teve a mansão invadida mais de cinco vezes e só notou que havia sido roubada quando dois milhões de dólares em joias desapareceram de seu closet. Sofia Coppola, que desde criança convive nesse mundo das aparências e do luxo ostensivo, acerta em todas as suas escolhas e entrega, por fim, seu melhor filme.
Dizer isso com tamanha segurança não é fácil. Sofia é uma das diretoras mais queridas da atualidade e cada novo trabalho seu é aguardado com ansiedade. Ela, que já venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Encontros e Desencontros” e o Leão de Ouro no Festival de Berlim por “Um Lugar Qualquer”, abriu a edição deste ano de Um Certo Olhar, principal mostra paralela à competição oficial do Festival de Cannes, na França, com “The Bling Ring”. Sofia, na verdade, é a grande responsável por todos os fatores que fizeram deste um filme bem melhor que a encomenda. Para escrever o roteiro, a diretora baseou-se em “Os Suspeitos Usavam Louboutins”, artigo publicado em março de 2010 na revista Vanity Fair pela premiada jornalista Nancy Jo Sales, que se especializou em perfis de celebridades. A matéria foi lançada poucos meses após os membros da gangue terem sido identificados pela polícia de Los Angeles e chamou a atenção de todo o mundo pelo fato de os ladrões serem jovens de aproximadamente 18 anos, nascidos em berço de ouro e frequentadores das casas noturnas mais badaladas da cidade. Além disso, o artigo também chamou a atenção da cineasta, que enxergou nele o potencial necessário para virar um filme típico de Sofia Coppola. Em “The Bling Ring”, a diretora retoma mais uma vez ao seu bom e velho estilo “voyeurístico”. Ela não pretende criticar ou fazer julgamentos morais, ela apenas observa – e essa é justamente sua principal característica e seu maior diferencial. A diretora mostra os personagens como eles são e cabe ao espectador interpretá-los da maneira que achar melhor.
Sofia também é uma cineasta excêntrica nos bastidores. Para preparar o elenco, por exemplo, ela fez os atores roubarem uma casa – na brincadeira, é claro. Segundo a produção, a ideia era observar que tipos de erros o elenco cometia durante o roubo, a fim de que fossem corrigidos para as filmagens soarem o mais natural possível. Emma Watson (a Hermione da série “Harry Potter”), a principal estrela do filme, debruçou-se sobre o papel de Nicki Moore e encarnou-o de forma impecável e até mesmo surpreendente. Para compor a personagem, a atriz admitiu ter ouvido o álbum Femme Fatale, de Britney Spears, e acompanhado diversos reality shows, inclusive “Pretty Wild” - estrelado por Alexis Neiers, a verdadeira Nicki. O resultado é uma típica patricinha de Beverly Hills, com direito à voz enjoada e tudo. Adeus, sotaque britânico. Adeus, Hermione. Emma Watson se revelou, pela primeira vez, uma atriz excepcional e merece todos os elogios que tem recebido. O restante dos atores, Israel Broussard, Katie Chang, Claire Alys Julien e Taissa Farmiga, também fazem bonito. Mas o destaque, inevitavelmente, fica por conta da transformação de Emma Watson.
Tudo é muito bom, tudo está muito bem. Mas há ainda um bônus: a trilha sonora. As músicas que acompanham o filme caem como uma luva tanto para a história quanto para o estilo de Sofia. Artistas como Azealia Banks, M.I.A., Lil’ Wayne e Rye Rye embalam as cenas e as tornam ainda melhores. 

         The Bling Ring – A Gangue de Hollywood
é uma análise bastante eficiente do mundo dos famosos de Hollywood, um mundo que nos assusta e nos fascina a um só tempo.

Antes Da Meia-Noite: 18 Anos de Céline e Jessie



            Fui na sessão de 19h de Before Midnight no Estação, ali encontravam-se obviamente diversos homens de terno e algumas mulheres com roupas padronizadas em tons neutros, cabelos em rabo de cavalo, provavelmente refugiavam-se no cinema da chuva e do trânsito que lá fora atormentava. Os casais estavam aos montes, contudo me intrigava a idade deles: todos acima dos 25 anos com suas blusas sociais, relógios de pulso em material metalizado, cansaços, jeito confiante - mesmo assim lento - de caminhar, pequenos sussurros para se comunicarem e sorrisos necessários, sorrisos endereçados exclusivamente para o ouvinte e não para uma plateia invisível, muito destoante daquele outro tipo de sorriso, um sorriso barulhento que é mais comumente observado nos jovens de 16 anos que vemos lotar o cinema do Tijuca com seus diferentes uniformes escolares nas tardes de quarta.
            Os últimos minutos do filme, quando Jesse e Céline começam a brigar são os únicos em que os risos altos são escutados, aparentemente, brigas são motivo de humor, ainda mais diante do público já descrito. Quando as luzes acenderam, dava pra ver um casal satisfeito cujo o homem beijava o rosto da mulher enquanto a abraçava dando a entender que naquele dia só ia caber riso e enquanto eu me direcionava até a porta pude escutar uma mulher de calça marrom e blusa branca falar para a provável namorada, pois estavam de mãos dadas: “você faz igualzinho quando começa”. Já do lado de fora, na minha espera pelo almejado sortilégio de ter acesso ao banheiro, observei um rapaz que ao sair do lado masculino perguntou para a sua esposa ou noiva – esses usavam alianças – visivelmente cansada e sob um salto, se ela queria que ele segurasse a bolsa; o sorriso dele compensava a pitada de mau humor dela, creio, que se dessem bem e só estavam um pouco chateados por conta das filas.
            Richard Linklater consegue criar filmes que facilmente nos insere em seus contextos e sustenta diálogos que não precisam muito dos filmes anteriores para serem absorvidos por manter – mesmo que repetidamente – indagações bastante contemporâneas e algumas até mesmo atemporais sobre as nossas fixações de bar como o meio ambiente, os filhos, o casamento e o feminismo. Embrulhamos nossas dúvidas e as levamos para casa para conseguirmos acompanhar o ritmo em que elas vão surgindo, tendência essa que podemos confirmar em filmes que vão além da trilogia (“Dazed and Confused” de 1993 e “Waking Life” de 2001, por exemplo. Vale salientar a rápida aparição do casal por alguns segundos (vide). Aqui, ao contrário daqueles jovens confusos de 23 anos que tínhamos em 1995, jovens dispostos até mesmo a dar atenção para videntes e cartomantes para quem sabe, terem algumas respostas, temos agora um casal com menos devaneios acerca do destino e mais preocupações com o presente, eles de alguma forma, tentam dialogar sobre como ajeitarem o que possuem. Não é mais uma falação sobre ter filhos ou casar, essas temáticas que pareciam grandes demais, até mesmo distantes demais, tornaram-se reais.
            De início temos Céline estressada com uma medida ambiental que foi negada por não ser esteticamente agradável, frustrada e ainda diante de suas pequenas utopias abafadas para com o meio ambiente, que de 2004 (“Before Sunset”) até 2013 obviamente não melhoraram, entretanto enquanto a esposa está diante do desespero de estar insatisfeita e sem saber qual emprego seguir, Jesse está de bem com a sua vida profissional, seu último livro, não é tão elogiado quanto os dois primeiros que são sobre o casal, mas vai bem, pelo menos para o amigo escritor que o considera “ambicioso”. Pessoalmente, a minha cena predileta é ver Céline sempre preocupada com a sua posição no mundo, reclamando que não queria estar na Grécia, em um país em conflito com as chances de uma revolução ocorrer a qualquer instante, eis então, que temos Jesse com uma toga simbólica, reflexivo, rebatendo a afirmação da esposa com seus prognósticos de que nada ocorrerá, porque nunca ocorre nada.
            Um grande diferencial desse filme, também é a mesclagem de opiniões: Linklater foi bastante ardiloso ao nos colocar diante do jovem casal que jamais poderiam ter sido Céline e Jesse, pois esses dois não deixaram a utopia trabalhar ao trocaram telefones quando se conheceram e a tecnologia também os permitiu ir muito além, pois passam as noites conversando através do computador, até mesmo, dormindo juntos – tecnologia essa que impregna até a postura de Céline, que tem um celular em mãos para flagrar Jesse comendo a maçã da filha deles ou na ajuda para que pessoas unam-se até uma “revolução” eclodir.  Afinal, o jovem casal terá que esperar o destino os guiar ou até o velho medo que não permitiu que Céline e Jesse trocassem cartas ou telefones, aquele medo de se odiarem e enjoarem um do outro antes do tempo, ou que eles dois acabem juntos, enfrentando as miudezas da vida conjunta. Há também o lado idoso que teve o amado levado pela morte, emocionando todos os reclamões.
            Trata-se de um emaranhado de diferenças e experimentações que só conseguem se firmar com sucesso diante do intervalo que há entre um filme e outro, essa trilogia tem a força de ter sido construída após muitas vivências do próprio criador. Céline e Jesse são personagens que com o tempo foram bem talhados, que após os anos juntos deixaram de ser apenas palavras ao vento, agora lidam com o peso e com o convívio de questões que inocentes matutaram sobre algum dia vir a acontecer. Por mais que atualmente a vida deles gire em torno de muitos outros fatores que vão além do encontro no trem, essas ramificações de temas como as gêmeas que casal teve ou o filho de Jesse que está nos Estados Unidos, acabam virando objetos que a gente escuta muito mais sobre do que vê em si, pois na primeira oportunidade todos vão pro plano das palavras e das discussões, na prática, observamos pouco, porque no fundo o tête-à-tête é o charme principal desses dois. E lembrem-se, silêncio no cinema

As Não Tão Raras Flores de Bruno Barreto

            Flores Raras caiu na boca do povo muito antes de sua estreia. Quando ainda estava na fase de pré-produção, o longa teve muitas dificuldades para obter recursos. “O Brasil ainda é um país muito conservador”, resumiu o diretor Bruno Barreto durante uma conferência de imprensa no Festival de Gramado deste ano, onde o filme foi exibido. Segundo ele, a abordagem de um tema considerado tabu afugentou os patrocinadores. “Foi um trabalho muito difícil de ser produzido, pois é uma história que vai contra a corrente”, explicou. “O pessoal de marketing, que é quem decide os patrocínios para os filmes, não quer associar sua marca à homossexualidade”, completou. Para cobrir o orçamento de 13 milhões de reais, Barreto teve de tirar dinheiro do próprio bolso. Hoje, ele enfrenta problemas parecidos na captação de recursos para seu próximo projeto, a comédia “Crô”, inspirada no personagem de Marcelo Serrado na novela global “Fina Estampa”. Mais de um ano depois, Flores Raras saiu e estreou em 150 salas de cinema no primeiro final de semana. O resultado, apesar dos esforços, não é tão bom quanto poderia.

            Este, muito provavelmente, seria o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro caso fosse elegível. Como a maior parte do longa é falada em inglês, ele não poderá concorrer à indicação. Mas se dependesse da vontade do diretor, que já foi indicado em 1998 por “O Que é Isso, Companheiro?” - e chegou inclusive a comparar sua nova empreitada ao premiado O Segredo de Brokeback Mountain -, "Flores Raras" certamente receberia essa e outras indicações. Afinal de contas, trata-se de um filme feito nos moldes para conquistar a tão almejada vaga nos Academy Awards: narrativa quadrada e clássica, com ótimo trabalho de reconstrução de época, boas atuações e um tema polêmico.

            Acontece que “Flores Raras” é quadrado até demais. Sua primeira parte é apressada e o relacionamento entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares e a poetisa americana Elizabeth Bishop começa de forma abrupta e artificial. Barreto não dá espaço para que a história das duas se desenvolva naturalmente e, num piscar de olhos, elas estão apaixonadas e Lota empenhada na construção de um estúdio para a nova amante – na casa que, aliás, ela dividia com outra mulher até um dia antes. Já a segunda parte, que não fede nem cheira, pelo menos dá espaço para as atrizes brilharem, o que acaba sendo positivo para um filme que não sai da mesmice. A australiana Miranda Otto (O Voo da Fênix) transita muito bem entre o jeito recluso e tímido de Bishop e suas crises de alcoolismo. Glória Pires (com um “quê” de Helena/Cláudio de Se Eu Fosse Você), apesar do inglês esquisito, encarnou perfeitamente os trejeitos da arquiteta que idealizou o Aterro do Flamengo e que apoiou o golpe militar de 1964. Não há dúvida de que elas são o que o filme tem de melhor. Na verdade, Barreto e seus produtores estão tão cientes disso que já sinalizaram campanha para as atrizes na corrida do Oscar. Por isso, o marketing do filme fora do Brasil está cada vez maior e até nome em inglês já tem: “Reaching for the Moon”. Já foi exibido no Festival de Berlim e deverá estrear nos Estados Unidos entre outubro e novembro.

            “Flores Raras” é um conjunto de bons elementos que, somados, resultam num trabalho apenas ok. Falta tempero e falta, principalmente, coragem ao diretor Bruno Barreto para inovar. A história de amor entre esses dois ícones da literatura e da arquitetura mundiais merecia um filme mais ousado.


Ligue Por Uma História, por Paula Amparo


Havia um filme misterioso na minha lista do torrent que eu baixei antes do recesso, mas que acabei assistindo durante o feriado, sem nenhum tipo de informação a respeito e eu adoro quando isso acontece. O filme é de 1979, pré o efeito gigantesco das redes sociais. Quando no filme era narrado que os dois passavam até 12 horas no telefone, pensei que era exagero, mas me toquei que hoje em dia passamos 12 horas sentados em frente ao computador conversando com pessoas que só existem naquele espaço virtual.
Le   LeNavire Night ao pé da letra significa “O navio da noite”, mas se formos até o mundo subjetivo, podemos associar esse tal navio ao rumo desses dois seres que jamais se tocaram - em determinado momento no filme, temos a voz de narração afirmando: “Le Navire Night está parado sobre o mar. Ele não tem mais nenhum curso. Nenhuma rota.“. Eles se conhecem apenas no escuro, na noite. As ligações partem de F, ela é a única que consegue iniciar o contato devido ao fato de não ter passado para ele nenhuma informação como o nome todo ou o telefone, essas ligações não possuem curso, estão flutuando e ninguém sabe até aonde elas podem ir. 

Na sinopse do filme, anuncia que são imagens de Paris no crepúsculo, tal informação pode ser levada a sério, inclusive ratifico que o filme segue bastante pictórico para os fãs de paisagens e por mais estranho que pareça, esse tipo de narrativa não cansa. Ela é necessária, afinal, os personagens só se conhecem por conta das vozes e dos locais públicos onde os encontros são marcados, mas que por diversos fatores nunca chegam a serem concretizados. 

O atores são encantadores. A atriz, que tem olhos que eu vou classificar como em “formato de peixe” nos observa, e somos automaticamente absortos em uma bolha de placidez, uma espécie de serenidade, ainda mais com a palavra que é dita claramente enquanto ela nos observa: “Nada. Nenhuma imagem.”.

Schools Are Prisons, diria o punk: por Paula Amparo



Título Original: Aftherschool | Dretor: Antônio Campos | Lançamento: Jan/2008
            Nem vou me apegar a falar do nome brasileiro que está por trás desse filme, pois algumas resenhas da internet já o fazem, sendo assim vamos para a primeira impressão: filme ambientado em cenário asséptico sobre o quanto na adolescência fomos colocados para escanteio dentro de instituições de ensino de merda para que os adultos vivessem suas rotinas – seu empregos, seus problemas, seus salários – com seus filhos suficientemente castrados pelo sistema que presenteia somente o bom comportamento. Afinal, creio que a maioria dos que chegam ao fim do ensino médio concluem nunca haver sido uma questão totalmente dependente de inteligencia e criatividade, receber o diploma.
            Barganhar com professores, respeitar às autoridades, dedicar-se em ser pontual e fazer os trabalhos, esses são alguns pontos associados ao se formar ou não. Ser bom/inteligente, é obter a pontuação requerida para ser aprovado nos exames, se isso não é decorar/treinar uma formula não sei como alcunhar e para tal, faz-se necessário seguir a linha do preestabelecido como correto. Isso variará dependendo do colégio, alguns exigem nota 5 e outros 6, você é o número que merece. Convenhamos, na convenção social mais conhecida como “sobreviver aos anos de escola”, a alforria só é concebida para os “bons indivíduos” ou os espertos suficientes para seguirem o padrão.
            Nos minutos iniciais, vemos essa relação hierárquica contemporânea que oprime diplomaticamente ao dispensar batidas com réguas na mão, substituindo-as por palavras, vejo a citação do coordenador do colégio na reunião matinal com os alunos para a moça que chega um pouco atrasada, ótima para ilustrar as ideias fatalistas sobre o futuro para os que não respeitam a rotina educacional proposta.

“Srta. Jameson, você dormiu bem? Acabou de perder um discurso inspirador sobre avisos, sobre uma possível inspiração para tentar vir a ser algo no futuro, mas eu não me preocuparia, o McDonald's ainda irá contratar pessoas depois da graduação.”

Realmente fazemos escolhas o tempo todo ou o meio nos arremessa em direção ao julgado como mais cômodo e promissor? Os alunos são uniformes, as escalas de cores do filme mostram-se limitadas, vira e mexe podemos ver um vermelho aqui e acolá. “Depois das aulas” segue como mais um corriqueiro relato sobre a geração youtube – ele é de 2008 –, pois já era possível ver o grandioso efeito produzido pelo fácil compartilhamento de imagens na geração da banalização da imagem graças a simples acessibilidade. E a banalização mais comentada, sempre foi a da violência, logo, seguindo o praxe da nossa época, o problema de Robert ficará centralizado no prazer fornecido pela pornografia violenta para ele. Entregando na primeira cena o fim, baseado no prazer-desajuste-social que o protagonista sente ao ver o terror no rosto das mulheres, o filme consegue de certa forma nos fornecer uma abordagem diferente aos temas youtube, violência e adolescência.
            Os indivíduos mostram-se predominantemente apáticos, um verdadeiro acúmulo por todas as partes: as pulsões sexuais e a vontade de socar a cara de alguém, angustiantemente guardadas no anseio por um grito que acaba por ser reprimido, aniquilado, comprimido e não há vontade por parte nem dos pais, nem dos responsáveis pelo colégio interno de ver a implosão desses sentimentos. Creio que esse distanciamento, entre os jovens e os que conseguiram alcançar a idade adulta até serem considerados psicologicamente adequados é bem retratado pelos enquadramentos ora  distantes, como se as peças – as pessoas – estivessem bem fragmentadas no espaço gigantesco no qual ficam largados ao vento qualquer tipo de exposição do verdadeiro eu, ora esses personagens são enquadrados em partes, apenas o pedaço da cabeça, pouco revelados em corpo e essência, demonstrando o distanciamento sob outro ponto de vista.
            Como se previsse o futuro, ele tenta falar com a mãe pelo telefone e ela só pede para seu filho dizer que está bem, ela compõe o arquétipo de um expoente na arte de ignorar, não faz perguntas por curiosidade, mas para cumprir seu papel/dever social. Robert muitas vezes é impedido de se expor (pela mãe, pelos amigos, pelo orientador, por ele mesmo, etc) virando um mistério, vemos suas ações mas não as entendemos por completo, não o vemos por completo. O relacionamento dele com Amy tido como um sexo rápido e cômodo no maior estilo: nós estávamos ali, salientam como os atos acabam por banalizados, tão passageiros quanto a camada superficial de Robert e aqueles tão iguais – como já disse, similares na superfície –, tão uniformizados.
            A base do sistema é desestabilizada quando duas adolescentes morrem de overdose por cocaína, Robert assiste a tudo, o enquadramento da câmera que o filma deixa em suspense o motivo do menino ter ficado parado sem gritar por ajuda. Ele é chamado para fazer um vídeo sobre a morte das gêmeas pois foi o único perto delas no momento final, o que nos leva para outro ponto alto do filme: os cortes que o garoto dá as cenas são criticados, não possuem música, mas são demasiados sinceros com a emblemática cena que só mostra os pais das meninas de costas. E a verdade, como o próprio coordenador do colégio propôs ao dizer que aquela cocaína foi oferecida diariamente, direta ou indiretamente, por todos os que rodearam as gêmeas.
            Os diretores sempre estiveram informados por mais de um ano, mas ignoraram. Desconfiam que a droga veio de dentro do colégio, mas ignoraram. Perceberam os transtornos de Robert, mas ofereceram medicação e ignoraram, para que tudo terminasse em absoluta normalidade obtida através de inúmeros esforços em esconder para debaixo do tapete o que incomoda, todos acabaram oferecendo assim, as costas.


Crítica de Lincon, por Vinícius de Vita



Título Original: Lincoln | Dretor: Steven Spielberg | Lançamento: Jan/2013
Lincoln estreou nos Estados Unidos na sexta-feira seguinte às eleições norte-americanas, nas quais Barack Obama foi eleito para mais um mandato de quatro anos. Sabe-se que o diretor Steven Spielberg e o ator Daniel Day-Lewis foram alguns dos principais doadores da campanha do presidente reeleito, e dias após sua vitória no pleito, houve uma exibição exclusiva de “Lincoln” na Casa Branca – apenas para Obama, sua família e convidados. 
Não à toa, o Abraham Lincoln de Spielberg tem um “quê” do atual presidente dos Estados Unidos. Embora de partidos diferentes – Lincoln era republicano e Obama é democrata -, ambos são frontrunners na luta por uma causa nobre. Em sua época, o “vermelho” Lincoln bateu de frente com a elite do Partido Republicano para proibir a escravidão nos Estados Unidos e, hoje, o “azul” Obama é declaradamente a favor da união entre casais do mesmo sexo. 
O democrata Steven Spielberg, aliás, não esconde seus ideais políticos em “Lincoln”, e muitas das cenas em que a abolição da escravatura é discutida são óbvias referências aos atuais debates envolvendo a legalização do casamento gay. Ora, Spielberg é assumidamente a favor da causa e Tony Kushner, o roteirista do filme, é assumidamente homossexual. Logo, o roteiro faz emergir uma série de ganchos que imediatamente remetem aos discursos proferidos pelos atuais membros do Tea Party – a ala mais conservadora do Partido Republicano. 
Este é o “Lincoln” nas entrelinhas. Em sua superfície, é um filme bem diferente daqueles que Spielberg está acostumado a fazer. Aqui, o diretor poupa o espectador de seu costumeiro sentimentalismo (o mesmo que arruinou O Resgate do Soldado Ryan) e entrega uma produção longa (150 minutos), seca e verborrágica. O diretor quase perde o fio da meada logo no início, quando apresenta dúzias de personagens em um espaço curtíssimo de tempo e joga informações demais para o público, seja por meio de diálogos, inserções ou discursos de personagens. “Lincoln” demora a engrenar, e talvez não tenha tido gás o suficiente para alcançar o status de “obra-prima”, mas certamente não decepciona. Na verdade, até surpreende. Quem poderia esperar um filme tão seco e sóbrio de Steven Spielberg?
Mas em pelo menos um aspecto, “Lincoln” se parece – e muito – com outras produções do cineasta norte-americano. Ele é conhecido por filmes que prezam pelo trabalho impecável da equipe artística, e “Lincoln” é a prova viva de que capricho sai caro, mas o resultado é recompensador. Ao todo, foram 12 indicações ao Oscar – muitas delas técnicas. E, apesar de só ter vencido em duas categorias (Melhor Ator para Day-Lewis e Melhor Direção de Arte), não há como negar que o trabalho de reconstituição de época em “Lincoln” é absurdamente bem feito. 

Babies, Por Paula Amparo



“Nada, no estado atual da ciência, permite afirmar a superioridade ou inferioridade intelectual de uma raça em relação a outra. […] Existem muito mais culturas humanas do que raças humanas.”
Claude Lévi-Strauss

O francês Thomas Balmès durante um ano documentou a vida de 4 crianças começando por filmar as mães grávidas fazendo os preparativos para a chegada dos personagens principais da trama “bebês” de 2010, eis que surgem os contrastes das barrigas na alternação das imagens: ora vemos a mãe africana pintando a sua com uma espécie de tinta vermelha, ora a mãe japonesa fazendo carinho na dela. Somos soterrados pelas galhofas infantis, porém, essa atmosfera descontraída permeada por fofura ambientada em belas imagens torna possível a compreensão de diferentes mundos por quem está assistindo a saga dos pequenos. Creio que Balmès usou uma sutileza deveras elegante para se expressar deixando bastante espaço para o pensamento livre, que corre solto enquanto formulamos opiniões através das instruções totalmente imparciais do longa. Imergir em “bebês” é um processo de autoanálise incrível, diria, necessário.
Temos Ponijão da Namíbia vivendo com outras crianças e mães em uma comunidade tribal, os homens raramente são vistos perto de seus filhos. Essas mães são retratadas como um grupo de mulheres sentadas a maior parte do filme observando seus filhos e cozinhando, não dá para saber quem é mãe de quem, as tarefas são exercidas coletivamente. Ponijão brinca com barro e “briga” com as outras crianças tornando suas brincadeiras mais brutas do que o rotulado como aceitável por nós, todavia, as mães nem se incomodam e os pimpolhos rapidamente ficam de bem. Na Mongólia aparece Bayar morador da zona rural levando sua infância rodeada por animais e claro, seus vários irmãos. Há uma cena em que Bayar leva uma lambida do cachorro, mesmo assim ninguém corre para passar álcool em gel nele, o que nos leva a imaginar o que fariam as mães de um contexto urbano característico das metrópoles mundiais que aflitas, sobem na cadeira mais próxima ao avistarem uma barata.
Representando esse tal contexto urbano há Hattie (EUA). Têm-se uma cena bastante marcante na qual a mãe de Hattie lê um livro chamado “Como ser a mãe que você deseja”, já em outra Hattie dá um pequeno tapa no rosto de sua mãe e a mãe reage mostrando para a filha um livro chamado “Sem bater”, a menina que mal sabe ler tenta entender a imagem na capa. Mesmo com todos os esforços dos pais de primeira viagem para educarem a filha da forma mais diplomática possível, algumas situações fogem do manual os deixando desastrados na hora de serem os pais que desejam, a falta de habilidade dos pais nessa área presenteia a pequena com o tombo mais memorável do documentário.
A outra família apegada à tecnologia é de Tóquio, pais de Mari. Mari se irrita brincando em um quarto repleto de brinquedos porque não consegue encaixar uma peça em um deles, exibindo demasiado nervosismo. Longe de tantos recursos para divertimento compostos de plástico, Bayar passa o dia explorando a fazenda, vivenciando aventuras incentivadora de acidentes, mas sempre saindo ileso delas: estresse passa longe do vocabulário quando nos referimos ao seu jeito de interagir com objetos.
  A mãe norte-americana diante da televisão encara-se no documentário, como se de fato  contemplasse pela primeira vez a si mesma: sentiu-se mal ao perceber o excesso de coisas que poderiam ser triviais ao desenvolvimento de Hattie, conclusão ratificada após assistir as mães da Namíbia. Na nossa sociedade atual, o essencial – comida e conforto – encontra-se de fácil, basta uma ida nossa ao mercado e temos comida congelada que após 10 minutos no micro-ondas está pronta, nosso jeito de obter o que desejamos é completamente diferente ao jeito dos moradores de uma sociedade tribal. Sobreviver não faz parte do nosso interesse primordial, já não precisamos inventar teorias para garantir nossa segurança – prédios com câmera,  policiais na rua e comida estocada na geladeira – fazendo-se comum vermos como indispensáveis símbolos que dependendo do ponto de vista são totalmente descartáveis.
No ambiente cultural no qual uma sociedade tribal está organizada, pode-se considerar besteira ler livros sobre “educar crianças”, contudo para uma mãe norte-americana absurdo seria deixar o seu filho rolar na lama. Eventos cotidianos intrínsecos à nossa natureza – tal como o corriqueiro ato de procriar – comprova que olhar a sociedade do outro é benéfico para entendermos a nós mesmos e principalmente, avaliarmos nossas prioridades. Obrigada Bàlmes, por essa reflexão.






       Aconteceu no último domingo a 85ª cerimônia dos Academy Awards, a mais imprevisível dos últimos tempos e que, no final, não foi tão surpreendente assim. Vamos aos comentários.
       Venceu quem todo mundo sabia que ia vencer. Apesar de não ter seu diretor Ben Affleck entre os indicados, "Argo" tornou-se o favorito após ganhar praticamente todos os prêmios que disputou.

       Ang Lee levou seu segundo Oscar pra casa. O primeiro veio em 2006 por seu trabalho extraordinário em "O Segredo de Brokeback Mountain". Este ano, por "As Aventuras de Pi", ele fez por merecer novamente. Fãs de Spielberg, acalmem-se, um dia ele ganha de novo. Mas ainda não era a hora de premiá-lo pela terceira vez.

       Daniel Day-Lewis, o "Lincoln", era a maior barbada da noite. Ele igualou o feito de Jack Nicholson e tornou-se o segundo ator da história a ganhar 3 Oscars - e todos na categoria Melhor Ator. Pra mim, nem era o que mais merecia. Joaquin Phoenix se superou em "O Mestre" e Hugh Jackman e Bradley Cooper surpreenderam em seus respectivos papeis. Mas Day-Lewis é Day-Lewis e, sei lá, algo que me diz que ele ainda vai ganhar de novo.

       Deu Jennifer Lawrence. Ela ganhou força na corrida pelo Oscar nas últimas semanas, mas sua vitória não era garantida. Uma tal de Emmanuelle Riva, a verdadeira merecedora do prêmio, andava ameaçando sua estatueta dourada. Infelizmente, a atriz francesa saiu de mãos abanando. Lawrence esteve ótima em "O Lado Bom da Vida", é muito jovem e ainda tem uma longa carreira pela frente. Talvez tenha ganho no momento errado. Mas isso só o tempo nos dirá.

       Christoph Waltz? De novo? Na mesma categoria? Por um filme do Tarantino? Mas ele não acabou de ganhar um Oscar? Pois é. Loucuras da Academia. Waltz ganhou em 2010, na categoria de Ator Coadjuvante, interpretando o coronel Hans Landa de "Bastardos Inglórios", também de Tarantino. Seu personagem de "Django Livre", Dr. King Schultz, pode não ser nada parecido com Hans Landa, mas a forma como Tarantino o desenvolveu no papel secou a fonte de possibilidades de Waltz para interpretá-lo de forma, digamos, diferente. O resultado é uma atuação brilhante, porém MUITO parecida com a que levou o Oscar em 2010 por "Bastardos". E este ano, Waltz nem indicado ao Sindicato dos Atores foi! Na teoria, por causa disso, suas chances de vencer o Oscar eram nulas. O favorito era Tommy Lee Jones, mas talvez ele nem tenha ficado tão chateado assim.

       Deu Anne Hathaway! Merecídissimo. Tinha pra ninguém, nenhuma outra concorrente poderia tirar o Oscar de suas mãos e assim foi. Sua performance em "Os Miseráveis" é simplesmente estarrecedora, venceu praticamente todos os prêmios que disputou na temporada de premiações e chegou lindíssima, toda trabalhada no vestido Prada, pra levar o primeiro Oscar da carreira. O primeiro, porque ela é ótima e ainda vai ganhar mais. 



Título Original: Les Misérables | Dretor: Tom Hooper | Lançamento: Dez/2012

            Sexta-feira, término de Carnaval no Rio de Janeiro. Uns amigos e eu tivemos de fazer uma pesquisa de campo para um dos trabalhos de final de período. Um belo dia, céu azul e sem nuvens, o calor não estava estarrecedor. Terminamos o trabalho, fomos comer algo, e, com uma troca rápida de meia dúzia de palavras, fomos correndo ao cinema mais próximo, sendo Les Misérables o filme sobre o qual eu vinha matutando há um certo tempo, fazendo uma certa questão de vê-lo.
            Atravessamos a rua, a sessão começava às 17:40hrs e o relógio já marcava a hora. Catamos nossas notas e moedas jogadas dentro das bolsas, compramos nossa água e fomos para a sala de exibição, o filme já havia começado há uns cinco minutos. Gosto dessas decisões repentinas, caros caríssimos, de tirar a moeda do bolso e jogar cara e coroa com a vida. E quando isso se mescla com a experiência cinematográfica, tudo parece mais intenso, mais mágico, e Les Misérables conseguiu incorporar-se nessa atmosfera dignamente.
            Pegamos um péssimo lugar na segunda fileira, o telão ficou durante um bom tempo jogando imagens em meus olhos, até chegado o momento no qual minhas pupilas foram se adequando à situação, então aconcheguei-me no banco e fui.
            A complexidade do filme não me permite ousar vir aqui e escrever uma resenha qualquer, ou um resuminho sobre o que se trata a história, é uma experiência altamente sensorial. Les Misérables é radicalmente uma obra do gênero musical, com pouquíssimas falas (que podem ser contadas em uma mão só) e quando você pensa “RÁ! Ele está falando!” surge de algum lugar uma musicalidade na fala da personagem, através da qual se é embalado. Não nego que esse é um filme cansativo e pesado, com dezenas de informações para serem absorvidas – e sentidas – pelo espectador, mas, apesar disso, merece todas as indicações que veio a receber.
            A fotografia retratava em muitas cenas – por exemplo, a das prostitutas no cais (uma das minhas favoritas por sinal) – a decadência de uma França do século XIX, que por sua vez fora realçada pela maquiagem e indumentária excepcionais; achei digníssima a atenção dada à sujeira das roupas e das próprias pessoas, fazendo com que de fato você sentisse uma repulsa por todo aquele nicho. Era quase possível sentir a sujeira e seu cheiro. Outra questão a ser ressaltada, certamente, é sobre os enquadramentos das cenas. Se falarmos do “B, A, BA” superficial, cinema pode ser definido como “técnica de projetar fotogramas de forma rápida e sucessiva para criar a impressão de movimento”, na minha opinião, os enquadramentos de certas cenas de Les Misérables eram capazes de criar uma obra pictórica (ou serem tidos como tal), na verdade. E posso afirmar, com plena convicção, que de todos os filmes que já vi, o dito cujo possui uma cena que entrou para a categoria de “cenas mais belamente enquadradas” (nada de spoiler, acalmem-se).
            A história foi fluindo, densa e vagarosamente - principalmente por causa da passagem de tempo dentro dela mesma, senti como se os anos também estivessem pesando sobre a minha pessoa -, mas fluindo de qualquer forma. Ao contrário de narrativas altamente clássicas que se desenvolvem para chegar num só clímax, Les Misérables possui diversos em sua trajetória. Ele desconstrói – e destrói – nossas esperanças românticas, desestabiliza o espectador e continua a seguir seu rumo, cabendo a nós mesmos termos de nos recompor e segui-lo. Filme difícil, mas instigantemente belo e sensível.
            Não me adentrarei nas questões das próprias personagens, pois acabaria por transformar um post num artigo, e tenho medo de julgá-las mal e de forma superficial, portanto minha opinião aqui publicada refere-se mais à obra como um todo.
            Les Misérables é um filme que lhes indico, caros caríssimos, entretanto, indico para que seja assistido numa sala de cinema. É uma obra grandiosa e pesada, cuja atmosfera e visualidade não cabem numa sala de estar e numa televisão comum, sendo pois, dependente do ritual do telão e da poltrona vermelha (ou azul) mergulhados no escuro do cinema.





Título Original: Les adieux à la reine | Dretor: Benoît Jacquot | Lançamento: Mar/2012




“Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e a grande moderação à mesa geralmente anuncia costumes dissimulados e almas duplas.” 
Jean-Jacques Rousseau

O horror ao vazio do período Rococó nunca sairá de moda, o requisitamos em nossas vidas e obras, somos uns saudosistas pelo o que não tivemos, por isso as constantes visitas a esses tempos. Não o superamos, honestamente. Isso explica o sucesso atual do cabelo rosa algodão doce de Elizabeth Banks em Jogos Vorazes. Amamos o excesso visual, consequentemente, amamos a volta de Maria Antonieta - em um filme francês dessa vez, o “Adeus, minha rainha” de 2012 baseado no romance escrito em 2002 por Chantal Thomas. Trata-se de diversas vias a terminarem em um simbolo só.
No lugar da leveza de um quadro de Fragonard com seus amantes roubando beijos arriscados e as festas galantes nos jardins, temos o desfalecimento da vida em corte. O filme muitas vezes narrado em nervosas madrugadas iluminadas por velas, mostra a angústia dos dias antes da Revolução Francesa através do olhar de Sidonie Laborde, uma fictícia criada encarregada da biblioteca real cujo ofício é narrar livros para a rainha.
A câmera muitas vezes faz o percurso por detrás das costas de Laborde, andando pelo palácio em completa crise, a criada vira o público dos nobres misturados aos servos pelos corredores para trocarem informações a respeito do que acontece do lado de fora do mundo deles, um mundo no qual eles sempre pareceram imunes. O sentir-se pequeno ao ponto de ficar igual a todos os demais, emoldurado pelo medo daqueles que sentem o poder esvaindo de suas mãos sobrecarrega essas cenas.
Após o povo invadir a Bastilha, uma lista com mais de 200 nomes que devem ir para a forca aparece tornando-se impulsionadora para fuga dos nobres, eles abandonam assim, a rainha para trás vendo soçobrar o seu antes seguro status social. O filme é uma extensão de um momento abordado rapidamente no filme de Coppola, o momento em que têm-se uma Antonieta mais madura presenciando somente a crise de seu reinado. Há uma cena incrível no nível do fim de “Ligações Perigosas”, cujo a rainha após encarar austeramente os da corte ao lado do rei, dirigi-se para um local reservado ao lado de Polignac, ao ficar segura dos olhares remove a maquiagem de sua face substituindo a expressão fria por um choro guardado, começando a ser ela mesma; tirando de si, as famosas máscaras sociais do período Rococó e a latente necessidade de manter uma imagem.
São as sutilezas secundárias do desenrolar da trama que compõe o charme desse filme, uma delas é ver a criada sendo apoiada na escolha de “Confissões” de Rousseau para uma leitura tranquila no qual a rainha fosse deleitar-se, e lembrar que um dos maiores endossadores do discurso iluminista também era admirado por alguns de seus escritos na corte – grifando aqui, que a famosa citação dos brioches nunca foi de Antonieta (Fonte). A rainha, é um bebê mimado igual a famosa Antonieta de Coppola, o amor por moda é ressaltado quando a mesma tem uma ideia para um novo vestido: reúne-se nas cenas a belas roupas, os belos cabelos e a bela arquitetura, mas as famosas farras da corte francesa não acham espaço para instalar-se nessa ruína.
O filme poderia passar em branco, todavia torna-se interessante por abordar a suposta bissexualidade da rainha, assunto pouco discutido. O alvo para essas divagações é a Madame de Polignac, amiga intima ganhadora de diversas regalias para ela e a família, após uma repentina união com Antonieta. O último desejo da rainha é tirá-la do caos, o método para tal, trata-se de mais uma especulação atingida com a magia do cinema capaz de devanear até tornar interessante o que poderia ser estupidamente banal.


Título Original: Django Unchained | Autor: Quentin Tarantino | Lançamento: Jan/2013
            Depois de explodir um cinema com Hitler e os principais nomes do alto comando nazista dentro em "Bastardos Inglórios", Quentin Tarantino volta às telonas com mais um capítulo da história reescrito - à sua maneira, claro. Agora é a vez de escravos do sul dos Estados Unidos se vingarem de seus opressores. "Django Livre" tem muito do cinema de Tarantino, mas, como não podia deixar de ser, carrega uma tonelada de referências dos filmes que o diretor assistia quando ainda era um "rato de locadora".

            Aqui encontramos de tudo um pouco: dos westerns spaghetti de Corbucci até "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas. Tudo junto e misturado em mais uma daquelas bagunças tarantinescas que os fãs tanto amam, com banhos de sangue, diálogos longos, muita referência pop e edição ágil. Não há ninguém - repito, NINGUÉM - que faça um cinema tão original e autoral quanto Quentin Tarantino. 



           Mas aqui o destaque também é dividido com o elenco. Jamie Foxx, Christoph Waltz (indicado ao Oscar), Leonardo DiCaprio (indicado ao Globo de Ouro) e Samuel L. Jackson dão um show. Todos eles, sem exceção.

           Não está no nível de trabalhos anteriores do diretor, como "Pulp Fiction" e "Kill Bill", mas é sempre bom ver um cineasta com tanto talento em sua melhor forma. Agora, nos resta esperar pelo seu próximo filme. E a pergunta que fica é: quem Tarantino mandará pelos ares? Façam suas apostas. Ele está mais inspirado do que nunca.