
Havia um filme misterioso na minha lista do torrent que eu baixei antes do recesso, mas que acabei assistindo durante o feriado, sem nenhum tipo de informação a respeito e eu adoro quando isso acontece. O filme é de 1979, pré o efeito gigantesco das redes sociais. Quando no filme era narrado que os dois passavam até 12 horas no telefone, pensei que era exagero, mas me toquei que hoje em dia passamos 12 horas sentados em frente ao computador conversando com pessoas que só existem naquele espaço virtual.
Le LeNavire Night ao pé da letra significa “O navio da noite”, mas se formos até o mundo subjetivo, podemos associar esse tal navio ao rumo desses dois seres que jamais se tocaram - em determinado momento no filme, temos a voz de narração afirmando: “Le Navire Night está parado sobre o mar. Ele não tem mais nenhum curso. Nenhuma rota.“. Eles se conhecem apenas no escuro, na noite. As ligações partem de F, ela é a única que consegue iniciar o contato devido ao fato de não ter passado para ele nenhuma informação como o nome todo ou o telefone, essas ligações não possuem curso, estão flutuando e ninguém sabe até aonde elas podem ir.
Na sinopse do filme, anuncia que são imagens de Paris no crepúsculo, tal informação pode ser levada a sério, inclusive ratifico que o filme segue bastante pictórico para os fãs de paisagens e por mais estranho que pareça, esse tipo de narrativa não cansa. Ela é necessária, afinal, os personagens só se conhecem por conta das vozes e dos locais públicos onde os encontros são marcados, mas que por diversos fatores nunca chegam a serem concretizados.
O atores são encantadores. A atriz, que tem olhos que eu vou classificar como em “formato de peixe” nos observa, e somos automaticamente absortos em uma bolha de placidez, uma espécie de serenidade, ainda mais com a palavra que é dita claramente enquanto ela nos observa: “Nada. Nenhuma imagem.”.
Como esse navio poderia ser guiado após um ver o outro? F o vê no parque em certa tarde - pelo menos é o que ela diz - porém ele, mesmo sendo fiel aos impulsos de ir vê-la, acaba tornando-se passivo, acaba por esperar que ela dê sempre o próximo passo. Ela envia uma foto juntamente com dinheiro, depois de um tempo, ela passa a mandar apenas o segundo item para ele. “O que o dinheiro paga? A história de amor, talvez. Algo é pago na história. Então, há um preço a pagar por algo na história”, diz a voz feminina. O caso é, as imagens são fortes demais. O ser humano gosta da ideia, facilmente amamos o que é impossível. É simples bem-querer uma ideia sem corpo.
“O desejo está morto. Morto por uma foto. Ele não consegue mais atender o telefone, ele tem medo. A partir da fotografia, ele não reconhece mais a sua voz. Quem é ela para ser tão imprevisível? É tarde demais para ela ter um rosto.”
Quanto aos rostos, quero voltar ao dos atores com seus olhos marmorizados de estátuas; durante o filme, não os percebi encarando a câmera, os olhos deles estão ali, transpassando existências e avistando o horizontes. Seus rostos são maquiados separadamente ao longo do filme, acho esses momentos especialmente belos – sou fã de retratos e rostos focalizados, por mais que eles talvez não me encarem, fico feliz por observá-los, afinal, em tempos que os horizontes são tão interessantes, rostos que nos prendem são cada vez mais raros. Belos com suas mascaras, que os ajudam a lidar com o abismo.
“É o apelo pelo abismo, o grito, que dispara o orgasmo. É o grito do outro, a resposta. Alguém grita. Alguém responde que ouviu o grito. É essa resposta que dispara a agonia.”. Agonia é o que antecede a morte e o que os cerca, o fim torna-se latente para esses dois que buscaram a ideia-abismo que construíram, ao juntos, comporem uma história.
Percebo que a minha resenha acabou virando uma narração com spoilers nas entrelinhas, mas creio que esse é o tipo de filme que a gente assiste muito mais pelo prazer estético do que pelos rumos que a história ganha. Esse jeito que assumi ao falar a respeito de Le Navire Night deve ter sido apenas um desejo de compartilhar sem complicações, o tipo de filme que nos deixa com uma espécie de apertinho no coração. Meu olhar ficou preso a tela. Com honesto carinho, espero assistir muitos outros relatos através da percepção de Marguerite Duras.



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