
Em uma das minhas constantes
passagens pelo Centro, antes de seguir ao meu destino que era o MAM, sempre com
a ideia de: “é melhor ir cedo, pode ser perigoso”, fui passear pela Praça
Paris, que me fascinou justamente por possuir essa tal ideia de “perigo”, esses
ares de Paris, mas não a Paris do cartão postal e da torre Eiffel, ela tem
todos os indícios da Paris a margem, aquela homenageada através de palavras por
Baudelaire.
Sentei-me em um banco na lateral da
praça, que por conta das poucas árvores boas para sombra preferi não ficar
localizada no centro, afinal eram 15 horas e o Sol brilhava com vontade, de
início pareceu o tipo de local pouco atraente para um piquenique ou até mesmo
para um passeio dominical devido ao fato de estarmos no Rio-40-graus. Não
podemos nos dar ao luxo de passear por lugares com poucas árvores provedoras de
sombra durante os nossos verões, por isso o receio. Rapidamente, meus olhos que
avistavam o jardim foram para o céu, afinal, já que as poucas árvores impedem o
“tampamento” dos raios solares, a ausência delas também é útil para total
apreciação do céu, contemplei as nuvens com carinho, por uma mera questão
pessoal. Elas são inconstantes, por isso gosto delas. Enquanto estava
hipnotizada pelo jeito que elas ocupavam o céu em uma bela segunda-feira de
Março, aos poucos fui me perdendo naquele espaço.
Ao descer os olhos completamente
desprevenida, reparei em um adulto maltrapilho aparentemente morador de rua,
completamente sujo indo em direção a fonte que está localizada no centro da
Praça Paris, aquele indivíduo totalmente alheio a mim e a parte do que
normalmente vejo em maior quantidade no Centro, que geralmente são os
engravatados a lotarem as ruas, principalmente no horário do almoço, quando
eles saem dos diversos prédios que ali da Praça mesmo, nos é possível avistar.
Enquanto a Praça Paris teve a sua inauguração em 1926, encontro prédios que
mostram a inexorabilidade do tempo, a passagem do mesmo em um fluxo de
construção da vida; a paisagem muda, afetando e sendo afetada por nós.
Edifícios como o prédio do BNDES
construído nos anos do Chumbo em 1974 com todas as marcas da ditadura militar
que essa associação remete divide espaço com prédios cheios de elementos de
outras décadas, a paisagem urbana que a Praça Paris me dá, é um percurso
histórico que oferece anos de Rio de Janeiro e anos de prédios a crescerem cada
vez mais.
A imagem acima pertence ao acervo de
imagens da revista “Life”, uma fotografia de câmera analógica em preto e branco
contrastando com a imagem abaixo dela, uma foto colorida produzida por uma
câmera digital, nos mostrando os quase 100 anos de Praça Paris. Na de cima a
vemos no apogeu de sua inauguração, na debaixo vemos sua “reinauguração” nos
anos 90 e a introdução de grades ao seu redor. Grades para preservar, que de
certa forma destacam ainda mais esse pedaço de terra ao meio do cinza e do
asfalto, um método de apresentá-la como “a parte”, tal como o homem que lava as
mãos na fonte, dois marginais – a praça e seu visitante – no contexto urbano
geral que caracteriza o Rio de Janeiro.
Creio que toda essa
“clandestinidade” encheria de interesse nossos boêmios parisienses do século
XIX, imagino Lautrec arrebatado e completamente impelido a retratar as
prostitutas que permeiam a Avenida Augusto Severo, os anos passam juntamente
com as pessoas, porém, há algo nesses locais que sempre atrairão uma repetição
de esteriótipos humanos. As grades colocadas nos anos 90, talvez, além de
preservação também sirva para salientar o algo de animalesco que é despertado
nos que estão dentro dela.
Os mistérios do verde, dessa
natureza completamente moldada e controlada – humanamente controlada – que
segue esse estilo decorativo dominado pelo padrão da arte topiaria, que
instantaneamente me guiou até Versalhes como faria comumente uma típica aluna
de história da arte. As plantas artisticamente podadas demonstram uma natureza
por trás das grades, completamente presa e milimetricamente forçada ao ser
esculpida por tesouras de jardinagem. Essa praça idealizada pelo arquiteto
Alfred Agache me encantou, por ser tal como Versalhes, uma constatação do poder
humano desviado para o que consegue manter sob controle.
Mas quando volto a pensar nas
prostitutas e em Lautrec, vejo que nem tudo pode ser controlado, os instintos
são um exemplo, logo a alta concentração de seres marginais acumulados ao redor
de jardins, só me levam a pensar no quanto esses ambientes são propícios para a
libertação do que é dito como “civilizado”, do que faz parte do asfalto e dos
engravatados que almoçam pelo Centro quando o relógio tilinta 13 horas. Sem
dúvidas, esse tema seria benquisto por Baudelaire ou qualquer outro flâneur, o
submundo é exibido sem pudor ao imaginar-se longe desses tais olhares
civilizados que caminham pela rua durante o horário de expediente tradicional.
Como ambiente de lazer, a praça
alcança sucesso: é um dos pontos turísticos principais do Rio de Janeiro,
principalmente para os admiradores de jardins. Por mais que não se compare a
Versalhes, ela é uma tentativa bastante atraente. Além do trabalho com as
plantas, temos o uso de estátuas que a embelezam juntamente com o desenho do
jardim, todos os elementos são bem dispostos como o esperado de um local
extremamente pensado carregando inúmeros simbolismos em sua composição plena.
Na escultura em bronze do Marechal Deodoro da Fonseca reflito: Seria a Praça
Paris um jardim tão “civilizado” e “controlado” demonstrando o poder do homem
que está nele? Afinal, tal como Versalhes
impôs/representou o poder e grandiosidade do rei, creio que a figura
representada aqui, também precisaria impôr sua importância de algum maneira, ou
melhor, da maneira que permita o engradecimento de sua imagem.
Têm-se outras esculturas que
representam as estações dispostas pela praça, um tema bastante adequado para o
imaginário dos jardins, no qual o cair das folhas das árvores sinalizam
“outono” com facilidade por termos um recorte no meio da cidade. Acho que estar
em contato com um espaço como esse nos ajuda a entender a passagem do tempo e
das estações, pois cada vez mais conseguimos enganar a noite e o dia, o frio e
o calor e tantos outros fatores por causa do tempo que passamos dentro de
nossos recipientes de concreto.
Esses recipientes provavelmente
seriam pouquíssimo atraentes para Monet, que preferiria juntamente com
Baudelaire observar aqueles que se colocam contra o estilo de vida “normal” e
visto como psicologicamente adequado e nobre, os que vagueiam inquietos pelos
cantos. Quando os humanos submetem ao seu bel-prazer esses elementos naturais,
chega a ser irônico ver que diante dos instintos somos completamente selvagens
inquietos, mais primitivos do que essa “natureza” esfinge. Ouvimos o barulho
dos jatos de água do chafariz, dos carros que passam na avenida e de pássaros,
todos coexistindo em conjunto com as nuvens e os cheiros, todos intrigantes por
formarem essa aura mágica, dignas do pincel de Monet que brincaria com todos
eles.
Nos minutos que estive vagueando
pela Praça Paris, senti-me bem, principalmente por essa ativação do sensorial,
que nos torna aptos a utilizar as faculdades do sensível para absorver o mundo
ao redor, implicando naquele mágico momento em que as cores parecem misturadas
a todos os elementos que ligam-se a todos os nossos sentidos. Sem dúvidas, estar
em contato com esse pedaço de natureza – embora moldado e pequeno – traz
benefícios por nos deslocar durante alguns segundos para outra esfera, ora
misteriosa, ora acolhedora.
Ratifico que por alguns segundos,
enquanto estive na Praça Paris observando os passantes e os carros rápidos do
outro lado da grade, permeada por tudo aquilo, acho que pude ver o mundo como
Monet, e outros pintores dos XIX que ao jogarem-se no objetivo de passarem para
as telas suas percepções alteraram todo o fluxo do considerado de praxe.
Senti-me também mais próxima das poesias de Baudelaire, a cultura marginal como
força motriz e matéria me atraiu ao longo desse ensaio, meus olhos só
conseguiam cair sob tudo aquilo que eu não observava normalmente, tudo aquilo
que eu na verdade, sempre evitei olhar. Mas naquela Praça, parecia correto e
necessário encarar. Enquanto penso nos detalhes cotidianos que encarei – muitas
vezes esquecidos por conta de evitar o confronto –, sou levada até Courbet:
como o mesmo exteriorizaria seus sentimentos ao ver um morador de rua naquele
espaço?
Bastante curiosa sou impelida a
imaginar Manet retratando um piquenique, Monet e o movimento das águas naquela
fonte, Lautrec e as mulheres que de noite tentam a sorte; penso em muitos
outros, penso e imagino como eles lidariam com essa paisagem, com esses
personagens, com as luzes, com os prédios, a priori, com todos os elementos que
hoje compõe o que chamamos de Rio de Janeiro, essa mistura de períodos e marcas
deixadas na arquitetura, nas esculturas, nas pinturas e na literatura. São
tantas as perguntas que eu precisaria fazer, mesmo no fundo guardando a certeza
de que nenhum deles se decepcionaria com esse projeto de Paris que aqui
tentaram compor, afinal, conteúdo inspirador não faltaria por conta dos ares
boêmios impostos pela noite.
Encerro meu ensaio com um quadro de
Manet, ainda com a ideia luxuriante de imaginá-lo retratando um piquenique,
como um flâneur ao invés do XIX, do XXI. Afinal, creio que não tenha mudado
tanta coisa acerca da natureza humana - aquele âmago selvagem guardado em
nossos instintos, de certa forma, ele mantêm-se constante, apenas um tanto
quanto moldado e reprimido tal como as árvores da Praça Paris.



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