Tesouro Para Um Flâneur, por Paula Amparo


 

          Em uma das minhas constantes passagens pelo Centro, antes de seguir ao meu destino que era o MAM, sempre com a ideia de: “é melhor ir cedo, pode ser perigoso”, fui passear pela Praça Paris, que me fascinou justamente por possuir essa tal ideia de “perigo”, esses ares de Paris, mas não a Paris do cartão postal e da torre Eiffel, ela tem todos os indícios da Paris a margem, aquela homenageada através de palavras por Baudelaire.
            Sentei-me em um banco na lateral da praça, que por conta das poucas árvores boas para sombra preferi não ficar localizada no centro, afinal eram 15 horas e o Sol brilhava com vontade, de início pareceu o tipo de local pouco atraente para um piquenique ou até mesmo para um passeio dominical devido ao fato de estarmos no Rio-40-graus. Não podemos nos dar ao luxo de passear por lugares com poucas árvores provedoras de sombra durante os nossos verões, por isso o receio. Rapidamente, meus olhos que avistavam o jardim foram para o céu, afinal, já que as poucas árvores impedem o “tampamento” dos raios solares, a ausência delas também é útil para total apreciação do céu, contemplei as nuvens com carinho, por uma mera questão pessoal. Elas são inconstantes, por isso gosto delas. Enquanto estava hipnotizada pelo jeito que elas ocupavam o céu em uma bela segunda-feira de Março, aos poucos fui me perdendo naquele espaço.
            Ao descer os olhos completamente desprevenida, reparei em um adulto maltrapilho aparentemente morador de rua, completamente sujo indo em direção a fonte que está localizada no centro da Praça Paris, aquele indivíduo totalmente alheio a mim e a parte do que normalmente vejo em maior quantidade no Centro, que geralmente são os engravatados a lotarem as ruas, principalmente no horário do almoço, quando eles saem dos diversos prédios que ali da Praça mesmo, nos é possível avistar. Enquanto a Praça Paris teve a sua inauguração em 1926, encontro prédios que mostram a inexorabilidade do tempo, a passagem do mesmo em um fluxo de construção da vida; a paisagem muda, afetando e sendo afetada por nós.
            Edifícios como o prédio do BNDES construído nos anos do Chumbo em 1974 com todas as marcas da ditadura militar que essa associação remete divide espaço com prédios cheios de elementos de outras décadas, a paisagem urbana que a Praça Paris me dá, é um percurso histórico que oferece anos de Rio de Janeiro e anos de prédios a crescerem cada vez mais.


            A imagem acima pertence ao acervo de imagens da revista “Life”, uma fotografia de câmera analógica em preto e branco contrastando com a imagem abaixo dela, uma foto colorida produzida por uma câmera digital, nos mostrando os quase 100 anos de Praça Paris. Na de cima a vemos no apogeu de sua inauguração, na debaixo vemos sua “reinauguração” nos anos 90 e a introdução de grades ao seu redor. Grades para preservar, que de certa forma destacam ainda mais esse pedaço de terra ao meio do cinza e do asfalto, um método de apresentá-la como “a parte”, tal como o homem que lava as mãos na fonte, dois marginais – a praça e seu visitante – no contexto urbano geral que caracteriza o Rio de Janeiro.
            Creio que toda essa “clandestinidade” encheria de interesse nossos boêmios parisienses do século XIX, imagino Lautrec arrebatado e completamente impelido a retratar as prostitutas que permeiam a Avenida Augusto Severo, os anos passam juntamente com as pessoas, porém, há algo nesses locais que sempre atrairão uma repetição de esteriótipos humanos. As grades colocadas nos anos 90, talvez, além de preservação também sirva para salientar o algo de animalesco que é despertado nos que estão dentro dela.
            Os mistérios do verde, dessa natureza completamente moldada e controlada – humanamente controlada – que segue esse estilo decorativo dominado pelo padrão da arte topiaria, que instantaneamente me guiou até Versalhes como faria comumente uma típica aluna de história da arte. As plantas artisticamente podadas demonstram uma natureza por trás das grades, completamente presa e milimetricamente forçada ao ser esculpida por tesouras de jardinagem. Essa praça idealizada pelo arquiteto Alfred Agache me encantou, por ser tal como Versalhes, uma constatação do poder humano desviado para o que consegue manter sob controle.
            Mas quando volto a pensar nas prostitutas e em Lautrec, vejo que nem tudo pode ser controlado, os instintos são um exemplo, logo a alta concentração de seres marginais acumulados ao redor de jardins, só me levam a pensar no quanto esses ambientes são propícios para a libertação do que é dito como “civilizado”, do que faz parte do asfalto e dos engravatados que almoçam pelo Centro quando o relógio tilinta 13 horas. Sem dúvidas, esse tema seria benquisto por Baudelaire ou qualquer outro flâneur, o submundo é exibido sem pudor ao imaginar-se longe desses tais olhares civilizados que caminham pela rua durante o horário de expediente tradicional.
            Como ambiente de lazer, a praça alcança sucesso: é um dos pontos turísticos principais do Rio de Janeiro, principalmente para os admiradores de jardins. Por mais que não se compare a Versalhes, ela é uma tentativa bastante atraente. Além do trabalho com as plantas, temos o uso de estátuas que a embelezam juntamente com o desenho do jardim, todos os elementos são bem dispostos como o esperado de um local extremamente pensado carregando inúmeros simbolismos em sua composição plena. Na escultura em bronze do Marechal Deodoro da Fonseca reflito: Seria a Praça Paris um jardim tão “civilizado” e “controlado” demonstrando o poder do homem que está nele?  Afinal, tal como Versalhes impôs/representou o poder e grandiosidade do rei, creio que a figura representada aqui, também precisaria impôr sua importância de algum maneira, ou melhor, da maneira que permita o engradecimento de sua imagem.
            Têm-se outras esculturas que representam as estações dispostas pela praça, um tema bastante adequado para o imaginário dos jardins, no qual o cair das folhas das árvores sinalizam “outono” com facilidade por termos um recorte no meio da cidade. Acho que estar em contato com um espaço como esse nos ajuda a entender a passagem do tempo e das estações, pois cada vez mais conseguimos enganar a noite e o dia, o frio e o calor e tantos outros fatores por causa do tempo que passamos dentro de nossos recipientes de concreto.
            Esses recipientes provavelmente seriam pouquíssimo atraentes para Monet, que preferiria juntamente com Baudelaire observar aqueles que se colocam contra o estilo de vida “normal” e visto como psicologicamente adequado e nobre, os que vagueiam inquietos pelos cantos. Quando os humanos submetem ao seu bel-prazer esses elementos naturais, chega a ser irônico ver que diante dos instintos somos completamente selvagens inquietos, mais primitivos do que essa “natureza” esfinge. Ouvimos o barulho dos jatos de água do chafariz, dos carros que passam na avenida e de pássaros, todos coexistindo em conjunto com as nuvens e os cheiros, todos intrigantes por formarem essa aura mágica, dignas do pincel de Monet que brincaria com todos eles.          
            Nos minutos que estive vagueando pela Praça Paris, senti-me bem, principalmente por essa ativação do sensorial, que nos torna aptos a utilizar as faculdades do sensível para absorver o mundo ao redor, implicando naquele mágico momento em que as cores parecem misturadas a todos os elementos que ligam-se a todos os nossos sentidos. Sem dúvidas, estar em contato com esse pedaço de natureza – embora moldado e pequeno – traz benefícios por nos deslocar durante alguns segundos para outra esfera, ora misteriosa, ora acolhedora.
            Ratifico que por alguns segundos, enquanto estive na Praça Paris observando os passantes e os carros rápidos do outro lado da grade, permeada por tudo aquilo, acho que pude ver o mundo como Monet, e outros pintores dos XIX que ao jogarem-se no objetivo de passarem para as telas suas percepções alteraram todo o fluxo do considerado de praxe. Senti-me também mais próxima das poesias de Baudelaire, a cultura marginal como força motriz e matéria me atraiu ao longo desse ensaio, meus olhos só conseguiam cair sob tudo aquilo que eu não observava normalmente, tudo aquilo que eu na verdade, sempre evitei olhar. Mas naquela Praça, parecia correto e necessário encarar. Enquanto penso nos detalhes cotidianos que encarei – muitas vezes esquecidos por conta de evitar o confronto –, sou levada até Courbet: como o mesmo exteriorizaria seus sentimentos ao ver um morador de rua naquele espaço?
            Bastante curiosa sou impelida a imaginar Manet retratando um piquenique, Monet e o movimento das águas naquela fonte, Lautrec e as mulheres que de noite tentam a sorte; penso em muitos outros, penso e imagino como eles lidariam com essa paisagem, com esses personagens, com as luzes, com os prédios, a priori, com todos os elementos que hoje compõe o que chamamos de Rio de Janeiro, essa mistura de períodos e marcas deixadas na arquitetura, nas esculturas, nas pinturas e na literatura. São tantas as perguntas que eu precisaria fazer, mesmo no fundo guardando a certeza de que nenhum deles se decepcionaria com esse projeto de Paris que aqui tentaram compor, afinal, conteúdo inspirador não faltaria por conta dos ares boêmios impostos pela noite.
            Encerro meu ensaio com um quadro de Manet, ainda com a ideia luxuriante de imaginá-lo retratando um piquenique, como um flâneur ao invés do XIX, do XXI. Afinal, creio que não tenha mudado tanta coisa acerca da natureza humana - aquele âmago selvagem guardado em nossos instintos, de certa forma, ele mantêm-se constante, apenas um tanto quanto moldado e reprimido tal como as árvores da Praça Paris.




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