
O ano era 1973. A repressão e a censura comendo solta. Muitos artistas, políticos, intelectuais no exílio. Desses exilados, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham acabado de voltar de uma "temporada forçada" em Londres, onde ficaram de 1969 a 1971. De lá, além da grande saudade de sua terra, também absorveram influências do rock e do reggae. Aliás, Caetano mandou grandes composições para artistas como Roberto Carlos ("Como 2 e 2"), Erasmo Carlos ("De noite, na cama") e, principalmente, Gal Costa ("London, London"). Já que os dois grandes artífices da Tropicália não poderiam fazer tanto barulho, a baiana Gal tratou de fazer por eles. E, naquele ano de 1973, ela lançou um de seus trabalhos mais ousados, musical e esteticamente: "Índia".
Antes,
alguns fatos: Nascida Maria da Graça Costa Penna Burgos na cidade de
Salvador (BA), em 26 de setembro de 1945, começou cantando suave, ao estilo da
bossa nova e de sua grande influência, que foi o também baiano João Gilberto.
Mas chegou 1968, e a Tropicália, um movimento multicultural que deixou marcas
mais profundas na música do que em outras artes, fez com que a jovem do canto
leve "desbundasse" de vez. Passou a usar a sua voz como um
instrumento, a ter consciência de sua potência vocal. Podendo ser delicada e
furiosa quando fosse necessário. E, já que Maria Bethânia, a irmã de Caetano,
preferiu se afastar desses movimentos musicais, Gal acabou se tornando a voz
feminina oficial da Tropicália. Claro que muito dessa mudança se deve ao poeta
Waly Salomão (1943-2003) e ao produtor Guilherme Araújo (1936-2007), que
transformaram Gal numa espécie de "Janis Joplin brasileira" - mas com
um estilo, um modo muito próprio de cantar e entoar seus afinadíssimos
gorjeios. Guilherme, inclusive, foi o responsável pela mudança de seu nome
artístico. Gal gravou seu primeiro compacto em 1965, com o nome Maria da Graça
(seu apelido era Gracinha), mas o produtor achou que "isso era nome de
cantora de fado".
Isto posto, vamos falar do
"Índia", transgressor até mesmo na sua capa: em pleno governo
militar, Gal apareceu, nas fotos da contracapa, seminua - isso mesmo, com os
peitos de fora. A capa mostra um close do umbigo da cantora e suas mãos
ajeitando uma tanga. A censura não gostou nada, e, já que muitas cópias do LP
já haviam sido prensadas com a capa já impressa, foi ordenado que o disco só
iria para as lojas se fosse envolvido num plástico escuro (ao estilo das
revistas eróticas à venda nas bancas). E isso acabou sendo um grande marketing:
a polêmica envolvendo essa capa acabou ajudando bastante na vendagem.

