
Nick e Daisy são
idênticos quando querem algo, não se importam de não ser exatamente
"aquilo" que sempre esperaram, contanto que seja alguma coisa. Em
determinado momento, Nick que aparentemente deixou um passado mal resolvido no
Oeste se dá conta que não está apaixonado por ninguém, entretanto sente-se
feliz por ter Jordan ao seu lado para abraçar e quanto a Daisy, temos a
descrição do momento em que precisou esperar por Gatsby: na falta de retorno do
seu amado, voltou para festas e agarrou o melhor que pôde ao meio dessa
vontade, no caso, o endinheirado Tom, que servia como uma luva para a sua mão
por condizer com a sua situação. Afinal, ele era suficientemente rico.
Quando esboço que são
parecidos, admito que talvez não seja algo somente compartilhado por aqueles
primos, mas sim, pela geração americana que ali nascia. Viviam o auge. O inicio
dos anos 20, que de tão inebriados diante da própria beleza nem conseguiam
avistar o urubu voando por cima da neblina que viria em 29. E, no front
dessa esperançosa ostentação bem verde e luminosa, temos Gatsby. Tão de acordo
com o benquisto pelos seus contemporâneos, ele era amado. Os frequentadores de
suas festas chegavam a centenas mesmo sem sequer terem visto o anfitrião, porém
diante da intimidade dos espaços lotados e impessoais aparecia-se até sem
convite, sentiam-se agradecidos pela hospitalidade, mesmo com o ovacionado dono
da casa sendo visto como um homem “que matou um homem”, como diziam por
ai. Nesses tempos em que a Lei Seca estava mais fácil de burlar e que todos
queriam suas mentes borbulhando, seus pés dançando e as noites intermináveis –
não que tenha mudado muita coisa de lá pra cá, momento em que saliento essas
pequenas permanências mais cheia de um certo medo bem egoísta acerca do meu
próprio tédio, do que por conta daquela altruísta tristeza acerca da
humanidade.
Gatsby é aquele vizinho
que a gente quer pedir uma xícara de açúcar, mesmo com três sacos de União na
despensa. O charuto cubano apreciado quando se está satisfeito, porque ele em
hipótese alguma seria uma busca por consolo, esse papel geralmente fica com o
cigarro durante a primeira xícara de café nas manhãs ou na área aberta das
boates, quando as músicas e as pessoas parecem mais deprimentes do que você,
embora elas estejam sorrindo e dançando. Ele é o riso frouxo quase clandestino
que é solto quando se acha cinquenta reais no chão, na mesma semana em que
acabou de receber o pagamento, e a descoberta de que o brownie também vem com
calda de chocolate quente além daquela bola de sorvete de creme.
Acontece, que ele tem
bom gosto ou pelo menos, com um tal de Dan Cody, aprendeu a rolar os dados. Bon
Vivant de dinheiro indefinido que o gasta na melhor casa – ou pelo menos na
casa mais comentada –, em jardins bem cuidados, decorações exageradas, festas
megalomaníacas, além de tudo gosta de beber bem e comer bem, encomenda camisas
que até fazem chorar de “tão lindas”, convive com gente que é
endinheirada ou é interessante – fotógrafos, diretores, pequenos produtores,
grandes produtores, atrizes e todo o resto que representava aquela Hollywood e
as vantagens do american way of life com seus carros velozes, prontos
para serem destruídos de festa em festa –, aprecia música por isso tem aquele
piano em casa e aquele “hóspede” para tocá-lo quando for preciso, também
escolheu bem seu carro amarelo, seu penteado, seus ternos de cores duvidosas,
ele é um cavalheiro quiçá um verdadeiro Lord inglês – saiu de Oxford, mas
Oxford não saiu dele – e ele é lindo, tão lindo que foi interpretado por
Leonardo DiCaprio em 2013, talvez, uma das poucas atuações que eu concorde
naquele filme. Mas tudo que disse até então foi um grande rodeio, antes de
chegar ao âmago daquele charmoso sorriso que Nick descreve como o tipo de
sorriso que só temos acesso umas 4 ou 5 vezes na vida, indo ao porque dele ser the
great: acontece que Gatsby não se conforma.
Adaptável e intrigante;
fácil alvo para qualquer pessoa com uma espécie de flaneurismo mais
exaltado. Suas atitudes facilmente guiam os aspirantes ao mundo da escrita a
quererem sacar um bloquinho do bolso direito, uma caneta que também é chaveiro
do bolso esquerdo e começar a anotar, catalogar e estudar. É fácil entender o
fascínio de Nick, as páginas e páginas que aquele personagem quis escrever.
Diante da afirmação de Fitzgerald sobre ele chegar ao ponto de não saber quando
Zelda e ele, eram ou não eram, personagens de seus livros, acabo por ver Nick
como praticamente um retrato de seu criador, uma figura a ser sugada pelos
entretenimentos da noite até ser totalmente diluída na multidão. Pobre homem,
tudo devia parecer uma eterna atuação. Confusa fico a matutar: como separar a
realidade da ficção?
Ah, e devo admitir que
meu estranhamento com os filmes foi mais pelo distanciamento do Nick, ele
deveria ter sido mais protagonista e menos “o degrauzinho” por trás do
grande conquistador do mundo. Gatsby só é Gatsby porque passou pelo filtro das
percepções de Nick, ele é Gatsby porque Nick quis escrever assim. Gastby é
ideia tecida por um homem de 30 anos, sem muito dinheiro ou vocação para se
viver Wall Street e Hollywood, um homem que se embriaga para não se sentir
deslocado e principalmente, quem vai aceitar facilmente que “mulheres ricas
nunca se casam com homens pobres”. Como Gatsby não poderia ser fabuloso? Ele
é tudo que falta em Nick, ele é a coragem de não aceitar apenas o que o mundo
impõe, ele é a desonestidade em pessoa, exatamente, o tipo que poderá ser
qualquer personagem que a mente inventar. Ele é o medo de Tom e da aristocracia
que não quer miscigenar-se de jeito algum, que não quer ter seus traseiros
chutados de seus tronos pela possibilidade de qualquer tipo de ser, por mais “inferior”
que o seja, poder ganhar mais dinheiro que eles, porque agora vive-se em uma
sociedade em que sim, o dinheiro compra tudo.
Esse livro foi um bofetada em minha
cara, era um desgosto que eu tinha por todos, a mesma vontade de Nick de berrar
bem alto: “você é melhor do que todos eles juntos”. A melancolia de
visualizar a enorme casa, fatalmente, vazia e o coração também. Digo, chegar ao
fim e perceber que mesmo quando se ganha a fortuna e a garota, você ao fim,
acaba só renovando suas insatisfações; percorrendo a linha que vai do nada ao
nada muito bem finalizada em uma morte estúpida presenteada com um funeral
digno de um “grande filho da puta”. É irônico constatar que o tiro foi
disparado por um personagem secundário na trama, mais irônico ainda, saber que
nem haverá tempo de Gatsby “pagar” ao governo os erros do contrabando que
cometeu. Não é uma fábula, portanto não há lição. Não existe sentido. Não
existe salvação. Não há marido revoltado estrangulando amante ou suicídio por
rejeição, só há o cômico embora trágico, equivoco. Não existe diferença entre
esperar o fim chegar enquanto está na guerra sem fortuna ou boiando na piscina
com os raios solares a te lembrarem tudo o que você conquistou. No fim, morte
acaba sendo morte em qualquer lugar.

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