Quem Quer Entender o Destino, Tem de Sobreviver a Ele




            Eu tinha 14 anos quando um conhecido da época do MSN e Orkut me passou o PDF de um livro que, segundo ele, muito provavelmente me agradaria. Eu já tinha ouvido falar de O Mundo de Sofia, mas não foi através dele que conheci Jostein Gaarder, conheci o autor norueguês através de uma carta escondida sob a manga, o curinga.
            Eu - na época, adolescente extremamente aquariana – comecei a ler O dia do curinga pelo computador, passei uma tarde inteira absorta na história do garoto Hans-Thomas, que sai de Arendal, pequena cidade norueguesa, em direção à Grécia junto com seu pai “à procura da mulher que os deixou oito anos antes”, uma mãe-esposa que se perdeu no mundo para se encontrar, surgindo nesse trajeto acontecimentos aparentemente sem pé, nem cabeça, na vida do menino. Naquela mesma tarde decidi parar de ler o livro, não porque ele era desinteressante ou qualquer coisa do gênero, muito pelo contrário, eu queria ter aquela história em minhas mãos, queria poder folhear e cheirar as páginas que carregavam a história de Hans-Thomas (e das cartas da paciência de Frode, e das várias outras situações que vão se desenrolando na narrativa). Não sei o porquê, mas – apesar de já ter esbarrado com esse livro em diversas livrarias e sebos – só fui lê-lo agora, depois de cinco anos. Se eu, inspirada - ou não - pelo livro, acreditar no destino, direi que esperei o tempo certo, e que ele parou em minhas mãos no momento mais adequado. Como eu acredito, assim o digo.
            Após terminar a leitura do livro – com aquele peso no peito que sempre se sente quando se acaba de ler uma história, a qual achamos que poderia ser para sempre -, percebi que, de fato, aos meus 14 anos, no auge da rebeldia, eu não conseguiria compreender – sem tendências pretensiosas – os pensamentos transmitidos por cada personagem apresentado na história de O Dia do Curinga. Hoje vejo que algumas afirmações feitas pelo jovem Hans-Thomas e seu pai podem soar um tanto peremptórias demais, um tanto insensíveis (quanto à mãe-esposa, mulher perdida no mundo), ou inflexíveis (quanto ao Tempo). Entretanto, nada disso ofusca a beleza dessas próprias reflexões, ou desvaloriza o mérito de tantas outras levantadas. Nessa história você pode perceber que ninguém é obrigado a concordar com qualquer frase dita devido ao efeito filosófico/poético que suas palavras carregam, e toda a leveza da narrativa te mostra que tais frases são apenas isso, apenas reflexões, através das quais o leitor começará a fazer as suas próprias. Essa, porém, não é a única magia do livro.
            A magia – também – está em sua organização, cada capítulo é uma carta do baralho, há inclusive o do curinga, obviamente. Para mim – admiradora de baralhos e de curingas – essa característica já seria o bastante para me encantar... O dia do Curinga carrega um mundo dentro de um mundo, dentro de outro mundo, dentro de outro mundo mais duas vezes, e tudo vem a se encaixar como num quebra-cabeça, como cartas espalhadas aleatoriamente que começam a serem organizadas por uma mão invisível que trança as vidas no Destino. O livro carrega uma história por vezes tão lúdica, tão fantasiosa, que você quer sim se agarrar nessa corda, acreditando com todas as forças na realidade dos peixinhos coloridos, da bebida púrpura. E, ao menos para mim, a grande jogada do curinga é você deslocar daquele universo as capacidades de observação e sensação, trazendo-as para cá. O dia do curinga encanta, porém encanta muito mais àquele que se dá ao prazer de observar, admirar e sentir os pequenos detalhes da vida, do cotidiano.

2 comentários:

  1. Por isso que eu amo a arte. Um filme, um livro, uma música, um disco, um quadro... Têm esse poder de fazer a gente ver o mundo com outros olhos.

    Adorei o texto! Saúde e paz. =)
    Luis Guto D.

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    1. Obrigada pelo carinho, Luis!
      Eu geralmente não costumo escrever sobre os filmes que assisto, ou livros que leio, porque sempre fico achando, depois que escrevo, que as palavras não foram o suficiente para explicar a minha experiência, sempre acho que algo acaba ficando oculto, ou perdido. Então é muito gratificante - apesar da minha paranoia com isso - ver que as pessoas conseguem compreender essa experiência, e, além disso, sentem vontade de vivenciá-la.

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