Reflexões De Um Dia Gelado - Por Dentro e Por Fora

                                                                                                                                                 Foto: Valentin Chenaille

            Com os pés gelados e sentindo a água entrar pela sola gasta, caminhei em direção à segurança de minha casa com passos rápidos e imprecisos. O guarda-chuva em minhas mãos tremia com o frio que me dominava e a força do vento, criando por alguns segundos o medo de o meu pouco peso não conseguir me manter no chão. O caminho longo parecia nunca ter fim, o que me deu tempo para pensar sobre alguma coisa além da dor que sentia nos pés, que a cada passo latejavam pelo frio. Então me lembrei do senhor-que-mora-na-praça e todos os meus problemas desapareceram.

            Aquele senhor nunca me disse seu nome, mas sempre senti por ele um carinho imensurável. Vendia algumas empadas de frango para poder comprar café e comida, e eu e sempre fiz questão de comprá-las quando comia carne. Nunca soube de onde aquelas empadinhas vinham, e a sua dificuldade de falar não ajudaria se perguntasse. Mas não o fazia menos gentil e não me impedia de sorrir ao pegar o embrulho de comida.

            Ao passar pela praça avistei o-senhor-que-mora-na-praça e senti meu peito doer. Estava dormindo embaixo de uma marquise, com um colchonete muito velho e um papelão por cima como cama e uma manta gasta como cobertor. Tinha muito frio e nada que pudesse protegê-lo. Não me aproximei por respeito, não saberia o que fazer. Não tinha um casaco que pudesse entregar naquele momento nem um cobertor inteiro. Não tinha nada além de um guarda-chuva e muita impotência.

            Atravessei a praça sem dor nos pés. Não conseguia sentir nada além do mal-estar de saber que teria uma casa para entrar, um banho quente para me aquecer e uma comida pronta esperando.

            Passei pelo senhor-que-mora-na-praça e tive certeza que a chuva não molha todos.

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