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Parem Com o Slut-Shaming

 

            Com toda a polêmica girando ao redor da Miley Cyrus e seu chamado surto, tem ocorrido discussões sérias sobre a quantidade de celebridades que já tiveram algum tipo de reação similar, como Lindsay Lohan ou Britney Spears. Ou até mesmo Marilyn Monroe.
            A exposição midiática pode ser uma arma letal ou uma utilidade, se você souber lidar com todos os custos. As "crianças Disney" sofrem uma exposição precoce ao mundo de Hollywood e, como alguns exemplos mostram, tem consequências drásticas. É difícil lidar. Miley foi Hannah Montana por tanto tempo que talvez essa fosse a forma mais sincera dela se afastar daquilo que já foi. Ou fosse uma reação tardia ao que a mídia faz com seus "brinquedos", ou qualquer outro motivo que ela tenha.
            A grande questão que incomoda é a falta de senso das pessoas em falar disso. A menina não é mais a Hannah Montana. Na verdade, ela nunca foi. A obrigação que ela tem para com seus fãs adolescentes é nula, criada por pais revoltados com a visão que tinham de uma pessoa que nem conhecem sendo modelo de seus filhos. O que a mulher Miley Cyrus faz com a vida dela é problema dela, não de uma filha de alguém que ficará traumatizada com o clipe novo que saiu.
            Não importando se ela está exagerando, saindo do controle ou se perdendo no caminho da exposição extrema, a vida é dela e ela tem direito a escolher o que quiser. Ela, assim como milhares de mulheres que nunca decidiram ser exemplo de nada para ninguém, tem o direito de lamber um martelo em um videoclipe, se assim quiserem.

O Grito No Silêncio



            Aos 12 anos assisti, por acaso, um filme sobre um rapaz chamado Matthew Shepard, cuja história foi tão traumática que até hoje não a esqueci. Matthew tinha a idade que tenho hoje, era universitário e inteligente. Um rapaz extremamente comum para sua pequena cidade, se não fosse gay.  O filme começa após a internação em estado grave no hospital local e seus agressores presos. O primeiro choque foi o motivo. Testemunhas declararam que o rapaz em nada importunou os agressores, que retrucaram que ele se insinuara para ambos.
            O rapaz morreu depois de quatro dias internado, com a população dividida entre a barbárie e a revolta. Seus assassinos foram a julgamento, sendo salvos da cadeira elétrica pelos pais do assassinado. Essa cena se repete em tantos lugares que não há palavras que descrevam o horror que a realidade causa.
O Brasil mente em dizer que aceita todos. Aqui, por mais que a mentalidade não seja tão assustadoramente assassina como é em Uganda ou em estados retrógrados dos Estados Unidos, situações de constrangimento, agressão verbal e física as pessoas são frequentes. O motivo: falta de costume. Incômodo pelo diferente. Ignorância.
A solução encontrada pelos ativistas que decidiram colocar a cara à tapas é de simplesmente fazê-los se acostumarem. Um ato poético como um beijaço ou uma intervenção urbana que trouxesse os olhos do espectador para a visão do lutador. A Parada Gay foi o auge da conquista, mas hoje é vista apenas como um carnaval pesado. Não tem feito mais efeito para conscientização.
O medo que tive aos 12 anos ainda existe, assim como as pessoas que causaram esse medo. Mas se o silêncio se mantiver como resposta, nunca existirá o som da mudança.

Tia, Você Vai Brincar Com a Gente?



Ao chegar no alto do Morro do Salgueiro, nosso grupo caminhou com calma pelas ruas até o Centro Cultural. As pessoas estavam a nossa espera – principalmente as crianças. Como minha idade mental se iguala a de uma criança de oito anos, fez todo o sentido me designarem para ficar com eles. Fomos eu, um rapaz com a idade mental de três – e corpo de 30 – e uma outra Julia, com uma idade mental mais avançada que a nossa.
            Por duas horas fui chamada de tia por crianças tão adoráveis que não me incomodou. Eles só queriam atenção e proximidade, o que era exatamente o nosso objetivo. Pintamos e colorimos até o fim do dia, com as oito crianças que apareceram.
            No dia seguinte não eram oito, eram trinta. E nessa ficamos eu e Marcelo no dever de entreter. Muita correria e brincadeira de cansar para que ninguém ficasse parado ou triste. Os que não queriam correr desenhavam num cantinho. As brigas eram tão frequentes quanto as corridas, sendo a única resposta que aquelas crianças conheciam para resolver problemas. Fomos tios, professores e juízes. Mas sobrevivemos.
            Enquanto decidíamos como resolver as brigas no dia seguinte, conversamos sobre a atenção que deveríamos dar a eles. Era só isso que queriam e nós não podíamos negar a nenhum. Pensamos e decidimos o que fazer no último dia.
            Vieram mais do que no dia anterior, mas eles sabiam que as brigas não ajudavam em nada quando estavam conosco. Não brigaram. Eles entenderam nosso recado silencioso e se esforçaram tanto quanto nós. Foi uma troca surpreendente. Nesse dia não fomos juízes, fomos cúmplices de um universo que ninguém conhecia até aquele momento.
            O carinho que aquelas pequenas crianças tiveram por pessoas totalmente desconhecidas em tão pouco tempo é a prova de que um pouco de carinho e atenção podem fazer a diferença – para todos.

Reflexões De Um Dia Gelado - Por Dentro e Por Fora

                                                                                                                                                 Foto: Valentin Chenaille

            Com os pés gelados e sentindo a água entrar pela sola gasta, caminhei em direção à segurança de minha casa com passos rápidos e imprecisos. O guarda-chuva em minhas mãos tremia com o frio que me dominava e a força do vento, criando por alguns segundos o medo de o meu pouco peso não conseguir me manter no chão. O caminho longo parecia nunca ter fim, o que me deu tempo para pensar sobre alguma coisa além da dor que sentia nos pés, que a cada passo latejavam pelo frio. Então me lembrei do senhor-que-mora-na-praça e todos os meus problemas desapareceram.

            Aquele senhor nunca me disse seu nome, mas sempre senti por ele um carinho imensurável. Vendia algumas empadas de frango para poder comprar café e comida, e eu e sempre fiz questão de comprá-las quando comia carne. Nunca soube de onde aquelas empadinhas vinham, e a sua dificuldade de falar não ajudaria se perguntasse. Mas não o fazia menos gentil e não me impedia de sorrir ao pegar o embrulho de comida.

            Ao passar pela praça avistei o-senhor-que-mora-na-praça e senti meu peito doer. Estava dormindo embaixo de uma marquise, com um colchonete muito velho e um papelão por cima como cama e uma manta gasta como cobertor. Tinha muito frio e nada que pudesse protegê-lo. Não me aproximei por respeito, não saberia o que fazer. Não tinha um casaco que pudesse entregar naquele momento nem um cobertor inteiro. Não tinha nada além de um guarda-chuva e muita impotência.

            Atravessei a praça sem dor nos pés. Não conseguia sentir nada além do mal-estar de saber que teria uma casa para entrar, um banho quente para me aquecer e uma comida pronta esperando.

            Passei pelo senhor-que-mora-na-praça e tive certeza que a chuva não molha todos.