Vermelho Um Pouco Amargo

                                                                                                                                                                            Foto: Jinax



“Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se – em lágrimas – do paraíso, é condenar-se à liberdade. Houve, e só depois, o tempo da alegria ao enxergar o mundo como o mais absoluto e sucessivo milagre: fogo, terra, água, ar e o impiedoso tempo.” (QUEIRÓS, 2011, p.8)

Vermelho é a minha cor favorita; vermelho é a cor do nosso sangue, a cor da paixão. Mas e quando o vermelho é a cor da dor, é um profundo amargo que nos embaraça e causa uma angústia? O vermelho do tomate que é cortado lentamente e de maneira cirúrgica nos faz sentir como se estivéssemos sendo torturados a cada corte. É exatamente assim que nos percebemos quando lemos “Vermelho Amargo”, de Bartolomeu Campos de Queirós, que nos coloca em uma situação um tanto quanto difícil, pois somos levados por uma espécie de labirinto que em alguns momentos não sabemos como sair. Apenas sabemos que não vamos sair ilesos, e como diz o próprio autor, quando a dor é muita, ele escreve; Mais uma vez a escrita como um dos mecanismos de superação.

A narrativa conta a história de um menino que perdeu a sua mãe – pelo que parece – muito cedo, e teve que conviver de forma dolorosa com a ausência dessa figura. Em seu lugar, o garoto e seus vários irmãos têm a madrasta, que nem de longe lembra o carinho materno. O pai era alcoólatra, e não dava a devida atenção as suas crianças, deixando-os entregues a sorte. A linguagem do texto é delicada e metafórica, pois a cada fatia de tomate cortada era como se uma decapitação tivesse sendo feita. Os símbolos são recursos dotados de muita significação. E em alguns momentos nos sentimos presos e muito angustiados diante do que estamos lendo. Como podemos observar no fragmento abaixo, a dor é um dos sentimentos que norteará a escrita:

“É preciso muito bem esquecer para experimentar a alegria de novamente lembrar-se. Tantos pedaços de nós dormem num canto da memória, que a memória chega a esquecer-se deles. E a palavra – basta uma só palavra – é flecha para sangrar o abstrato morto. Há, contudo, dores que a palavra não esgota ao dizê-las.” (16-17)

Além dessa incansável sensação de abandono e profunda saudade de uma infância que estaria cheia de possibilidades – se não fosse à má sorte – o desencanto toma conta da narrativa. Em vários momentos percebemos um Bartolomeu incrédulo diante da vida e das próprias relações pessoais, como se o seu sofrimento fosse maior que tudo. Porém há uma esperança: a escrita e seu poder imaginativo para criação. As palavras salvam.

 No vídeo abaixo podemos ter uma prévia do que acontece de fato quando o autor se propõe a construir personagens e enredos, para poder dar conta de um universo dentro e fora dele:

   

7 comentários:

  1. Muito obrigada, Ana!!! Pra mim é uma honra que alguém como você elogie meu texto sobre o nosso saudoso Barto... beijão!

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  2. Querida Lou, amei o texto e a resenha do livro.
    Você sabe do meu apego com o "Vermelho Amargo", do querido Bartô.
    Parabéns!!

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  3. Ah, muito obrigada, Claudia! Eu tentei ser o mais sensível possível, mas dar conta de escrever os sentimentos nem sempre é fácil, né? Que bom que gostou!!!
    :)

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  4. Nossa Louise... Não estou dando conta sozinha da beleza do seu texto que me consome e me inscreve nas palavras de Bartolomeu.
    Falta-me o ar.

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  5. Lindo texto Louise. A sensibilidade precisa, para um tema que por si só já nos emociona.

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  6. Imagino o quão pesado deve ser esse livro...
    Não sei se eu teria condições emocionais de lê-lo.
    Mas deve ser maravilhoso, assim como é o teu texto, querida Lou Lou. =)
    Bjus do teu amigo Guto. =***

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