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| foto: Karsan Haval |
Eu extremamente cansado e de mau humor em uma sexta feira comum, tendo que ir à rodoviária para subir a Serra. O humor só piora quando descubro que não iria de táxi até a rodoviária (mania absurda de besta essa); teria de pegar o 170.
De mochila nas costas pego o ônibus no Flamengo. Do nada o ônibus para no Largo do Machado. Passam-se uns minutos e as pessoas começam a se irritar com o “piloto” –Vambora, piloto! Tá quente aqui.
Eu reparo a polícia do lado de fora e começo a entender a situação – A mulher foi assaltada dentro do ônibus; eu digo para a jovem histérica que passava mal com o calor.
Todo mundo se cala ao entender a história, a polícia entra por trás e pergunta à vítima do assalto –É esse aqui? Antes de ouvir a afirmação dela eu me viro para dizer ao acusado que ele tinha o direito de se recusar à revista, mas me calo.
Me calo porque o garoto é curiosamente negro, visivelmente pobre e muito assustado. Me calo porque quem o revista é um policial ainda mais negro. Me calo ao perceber que obviamente o celular da senhora não está com ele.
E é calado que começo a chorar de ódio daquela mulher e de toda uma parcela calhorda da sociedade que ela representa quando diz: “Na verdade eu suspeitava de um senhor, mas ele já saiu. Era ele quem estava do meu lado.”
Lê-se em letras neon e garrafais na testa da mulher: “NA DÚVIDA ACUSE O POBRE, O PRETO, O INFERIOR". Parafraseando Ferreira Gullar, infelizmente essa mulher é brasileira que nem eu.
Depois desse curta-horror os passageiros soltam algumas frases de deboche à mulher. Ela, inferiormente superior, as ignora.
Não estou escrevendo isso como crítica, justificativa ou coisa parecida, mas como um relato-desculpa. Me dirijo ao menino revistado nesse momento para pedir perdão por ter me calado, por não ter me indignado, por não ter a capacidade de mudar, pelo menos, a cabeça daquela senhora.
Não posso te prometer que isso não irá acontecer novamente, menino. Porque sabemos que vai. Se não com você, com o seu vizinho, com a sua mãe ou com o meu irmão; com todos aqueles desafortunados e amaldiçoados com a marca da pobreza e da pele negra. Só que diferentemente do pensamento de certos pastores-deputados, essa maldição não vem de Deus, mas de quem o inventou: o homem.
Mesmo que isso tudo se repita e se perpetue, nas próximas seiscentas vezes eu vou me virar e gritar qualquer coisa que possa ajudar nessa luta da qual todos nós fazemos parte, mas que insistimos em ignorar.
Mil perdões pelo silêncio.
Um grande abraço.


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