da Caravggio



            Ele matou pelo menos cinco pessoas, sendo que uma delas, matou duas ou três vezes. Caravaggio nasceu na Itália em 1571, no Ducado de Milão. Seu nascimento se deu sete anos após a morte de outro artista do qual ele recebeu o mesmo nome: Michelangelo.
            Nos diversos registros existentes é possível encontrar essa faceta assassina de Caravaggio. Talvez vocês só encontrem um único assassinato cometido por ele, mas eu gostaria de falar dos outros que não aparecem, e provar que esse artista genial se deliciava com decapitações.
            Michelangelo Merisi da Caravaggio, além de matar Ranuccio Tomassoni, decapitou pelo menos duas vezes o gigante Golias, uma vez Holofernes, uma vez a famosa Medusa e também São João Batista. É interessante olharmos para essa série de decapitações em especial, para tentar entender essa relação de agonia e prazer entre Caravaggio e a morte. Uma relação que ao mesmo tempo em que visava purgar os pecados do artista, que era usada para assumir seus crimes; também foi a relação que afirmou um espírito assassino e a predileção do mesmo pelo horror.
            Talvez Caravaggio estivesse usando essa sua atração pela morte e pela violência, como um meio de evidenciar essa mesma atração no coração de todo ser humano. Quando olhamos Judite e Holofernes, de 1599, é importante fazer uma pergunta: O que me incomoda mais: o fato de um homem ter a cabeça cortada na minha frente, ou o sangue dele acabar espirrando em mim acidentalmente? Eu não consigo responder essa pergunta, mas tenho certeza de que Judite está cortando a cabeça de Holofernes com todo o cuidado possível para que não caia sangue algum em sua pele. A bela Judite tem nojo e prazer ao cortar a cabeça do condenado. Percebe-se essa mistura de sentimentos quando paramos de observar sua expressão de nojo, para olhar logo abaixo, seus mamilos duros, marcando sua blusa. A velha assistente de Judite pode estar um pouco nervosa, mas a jovem moça está bem tranquila realizando seu desejo.
            Quando eu digo que Caravaggio matou todas essas personagens que estão representadas em seus quadros, eu quero tentar desmistificar essa ideia de que Caravaggio pintava incrivelmente bem, fazendo com que a luz e a sombra criassem um cenário teatral. É óbvio que ele pintava muito bem, mas acho que ele não se preocupava com a teatralização da imagem, mas com a tentativa de torna-la tão real ao ponto de sentir que era ele o carrasco.
            Quando o estudioso Simon Schama nos apresenta um artista que mata a Morte, como no quadro Cabeça de Medusa de 1598, podemos adentrar um pouco mais esse pensamento circular que é a mente de Caravaggio. Porque por mais confuso que pareça, o raciocínio desse artista é bem estruturado e até mesmo irônico. Pois quem, se não ele, para matar aquela que a todos matava? Antes que o chamem de arrogante por decidir o fim da própria Morte, Caravaggio nos mostrou a eternidade da mesma, declarando um detalhe simples: mesmo morta, a Medusa, com seu olhar, continuará matando. Talvez seja através dessa compreensão do ofício da Morte que ele, no ano seguinte, pinta Judite e Holofernes.
            Em 1605/6 ele pinta Davi com a Cabeça de Golias, um quadro misterioso onde ele mesmo se decapita. Caravaggio é a cabeça do gigante cruel nesse quadro. Anos após se declarar assassino pelos braços de Judite. Será que ele aceita as acusações? Aquelas acusações de que ele é realmente um homicida cruel e louco. Não é a toa que esse quadro é pintado na mesma época em que ele mata Ranuccio em uma das suas “diversões” com sua turma.
            Simon Schama vê essa decapitação de Golias como o maior pedido de desculpas feito por Caravaggio. Isso porque o quadro chega às mãos de Scipione Borghese após a morte do artista. Essa obra deveria ter chegado antes da morte de Caravaggio, já que fazia parte de um acordo entre ele e o Cardeal Scipione Borghese que tinha como objetivo livrar o artista das acusações de ter matado Ranuccio. A cabeça de Caravaggio estava posta a prêmio. É por uma brincadeira do destino que a cabeça dele, chega às mãos do cardeal depois de sua morte. Ele não só pede perdão, como se entrega, mostra-se frágil e destruído na imagem de Golias.
            Eu penso um pouco diferente quanto essa necessidade de pedir perdão de Caravaggio. Não creio que alguém como ele tenha se preocupado tanto com essas desculpas. Acho que ele procurava o próprio perdão, algo que viesse de dentro do Deus dele. Não é a toa que durante sua curta passagem pela ordem de São João, ele pinta A Decapitação de São João Batista. Um quadro grandioso e diferente de todas as outras decapitações feitas por ele. A maior cena de suspense da história. João Batista está deitado morto no chão, sua cabeça ainda junto ao corpo, esguicha sangue enquanto espera o carrasco retira-la para por na bandeja de prata de Salomé.
            Dessa vez, ninguém parece nervoso, impassível ou em êxtase. As pessoas estão tristes, confusas e tentam cumprir as ordens à risca para não ter que pensar muito. Acho que Caravaggio também ficou confuso, talvez ele tenha se sentido pela primeira vez, desconfortável com a morte, menos íntimo dela. Com dúvida e culpa, ele assina seu nome no sangue do santo, pede o perdão de Batista, de Deus, dele mesmo. Tenta se limpar com o mesmo sangue que tanto usou.
            Evidenciar o horror nas obras de Caravaggio é uma tarefa simples que qualquer um faz ao olhar para seus quadros que tratam desse assunto. Difícil é entender onde começou, e se um dia terminou essa estreita relação que ele tinha com a Morte e seus comparsas. 

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