
Sobre escrever nem sei tanto, agora sobre reescrever, nossa, que luta. É foda. As ideias começam em um bloquinho maltratado que uso nas aulas ou em um dos três caderninhos que tenho espalhados em cantos estratégicos da minha rotina: um moleskine com uma gravura em estilo ukiyo-e impressa na capa que deixo no bolso lateral da minha bolsa maior, um bloquinho médio com um poster de “Le Notti di Cabiria” impresso na capa e que fica em cima dos meus DVDs localizados aqui na escrivaninha aonde geralmente escrevo, penso e como, e um terceiro de origem mais pomposa porque foi um presente que um amigo trouxe de Paris com uma gravura do Léonce Burret na capa, por ser menor e no estilo bloco, até me sinto uma jornalista pelo modo rápido que copio o que escuto nele, enquanto ele fica perfeitamente alojado na minha mão. Fora os papéis velhos que uso como rascunho, os caderninhos antigos que dou uma verificada/modificada e os documentos de bloco de notas que salvo com títulos sem pé nem cabeça na minha área de trabalho, são palavras pra tudo quanto é lado e no meio delas, em total desespero, lá estou eu, tentando juntar as ideias que resolveram surgir aos fragmentos, algumas enquanto eu estava me revirando na cama, outras com a ajuda de algum amigo ou professor durante alguma aula, tête-à-tête de boteco, correria nos transportes públicos, nas imagens ao longo do caminho de casa até o Jardim Botânico.
Esses dias mesmo, fiquei
completamente inspirada quando uma professora afirmou, – com todo aquele
gingado que parece vir de brinde com o doutorado – que não existe uma
metodologia correta, o que existem são autores que você usa como apoio pra
enfrentar os problemas que aparecem. Isso após ela falar de uns três nomes
diferentes que abordaram brilhantemente uma mesma questão, enquanto sorria, ela
dizia, pra verificarmos incansavelmente, desconfiarmos dos outros e
principalmente, do que sai do nosso próprio punho. Senso crítico é como bom
senso, faz bem e te deixa bonito na foto.
Por mais que tenhamos
ponderado muito um viés de pensamento ou outro e mesmo o tendo buscado em
fontes maravilhosas, precisamos ser críticos em relação a esses nomes muitas
vezes imersos em respeito, por um currículo Lattes bem recheado. Precisamos
lutar contra o nosso ego de aluno de humanas, ego que nos faz cair na armadilha
de achar os comentários alheios infundados ao irem contra os nossos, porque
afinal de contas, “somos muito bons no que estamos fazendo”. Ai que
geralmente caio. Digo, ao mesmo tempo que necessito de um pouco de convicção no
que faço, também preciso de aceitação, mas até aonde essa aceitação é boa para
o meu senso crítico? Será que eu percorro o caminho correto ao aceitar tudo que
escuto – se é que há um caminho para ser seguido –?
Esse meu desejo de
transbordar aqui as minhas inseguranças, partem a priori de um sábado a noite
no qual eu fiz um resumo para faculdade de um texto do Hume chamado: “Do
Padrão do Gosto”, que encontra-se no livro “A Arte de Escrever Ensaio e
Outros Ensaios”.
Quando o crítico não tem delicadeza,
julga sem nenhuma distinção e só é afetado pelas qualidades mais grosseiras e
palpáveis do objeto: os toques mais finos não são notados e levados em conta.
[...] A generalidade dos homens trabalha sob uma ou outras dessas imperfeições,
e é por isso que o verdadeiro juiz nas artes finas é um caráter raro de ser
observado, mesmo durante as épocas mais polidas; só um senso forte, unido a um
delicado sentimento, aprimorado pela prática, aperfeiçoado pela comparação e
despido de todo preconceito, pode dar aos críticos um direito a esse caráter
valoroso; e a confluência de tudo isso ao veredicto, onde quer que ela se
encontre, é o verdadeiro padrão de gosto e beleza. (HUME, p.186)
Esse texto, foi bem
complicado para mim, no sentido de lidar com as minhas próprias prepotências no
momento em que tenho uma caneta na mão, diante das diversas citações que
fazemos para parecermos “estudados”, para “encorparmos” os nossos
ensaios, os momentos que esquecemos das gafes que cometemos ao generalizar
demais. A relativização e o bom senso são os melhores amigos na hora de vermos
nossa vaidade com altas chances de ser massacrada, avassalada e tão
estraçalhada quanto pombo no asfalto que não soube voar na hora certa; por isso
abro essa frase para a vaidade aqui, ela é a que mais sofre no momento em que
passamos do bloquinho na estante para as mãos de terceiros. Mas, voltando a
relativização e seus problemas, quando se é indecisa como eu, como é que fica? Caio no medo de estar sendo
evasiva nos meus textos como sou na vida, por exemplo, mais de uma vez me
perguntaram porque eu pareço ficar confusa lá pro quarto parágrafo dos meus
escritos mais livres, chegando a dar entender que eu não faço ideia do que eu
estou falando, e sim, o caso é, eu não faço a menor noção. A relativização ao
mesmo tempo que exerce o bom senso, exerce o subterfúgio.
É, a gente lê tanto pra no fim não saber de
nada com nada. Por isso o terror iminente e suspenso no ar como uma fumaça que
vai nos intoxicar se a deixarmos se espalhar, terror daquele artigo que precisa
ser feito, teclado, terminado. Ali, o documento de word aberto pelo domingo, a
janela do facebook com aquele barulhinho de alerta, o desdobramento do processo
criativo com diversos pensamentos a dilatar a nossa caixola cheia de miolos –
por não conseguirem materializarem-se em palavras –, ideias a chacoalhar dentro
de mim em um samba inútil e triste de quarta-feira de cinzas e que, tudo
escrito do segundo paragrafo pra baixo parece um monte de lixo. O título é
obsoleto demais, óbvio demais, um enorme clichê. A gente sabe das regras, mas
enxerga o jogo como impossível de ser levado até o final, aliás, as nossas mãos
até travam e desistem de rolar os dados antes da sexta rodada.
As fontes bibliográficas que só crescem para
nos lembrar que esse negócio de que vai ficar tudo bem é uma baboseira, logo lá
nela, temos Hume, às vezes Baudelaire, quem sabe Sartre, Bergson, Deleuze,
Pierce, Danto, Jameson, o badalado Foucault e na estante, a gente encara
Vinícius, Drummond, Lorca e Neruda, a gente se curva para todos eles, a gente
se vê quase arrogante por citá-los, a gente se vê indefeso e a gente se vê
inseguro demais da conta: “eu to tentando fazer o mesmo que essa gente fez,
não sei se posso”. É um caos tão dilacerante que às vezes não sei como
lidar, encaro os nomes simbolicamente pesados, encaro a minha incapacidade,
encaro todas as vezes que mudei de opinião, sinto o peso da solidão no barulho
imponente do ventilador e nesses momentos, em que me encontro maravilhada e
horrorizada por todos aqueles que admiro, aqueles que se abrem pra mim e até me
dão uma chance de fazer o mesmo que eles fizeram, nesses momentos melancólicos,
até agradeço ao barulho de alerta que me faz abrir a inbox do Facebook e
descansar um pouco desse rebuliço todo na minha cabeça.


Nenhum comentário:
Postar um comentário