“Nós, pessoas razoáveis, não somos entendidas.”
Frase do filme “A Voz da Lua” de Fellini.

Odeio ecochatos e marx-chatos. Eles falam muito. Falam, falam, falam. O problema não é nem o tema; acho importante usar menos inseticida nas baratas, menos agrotóxicos na frutas, menos couro nos sapatos, menos carne na mesa, menos dióxido de enxofre nas chuvas, menos hormônios no leite, menos matadores de golfinhos no Japão, menos esgoto na Baía de Guanabara, menos  pele de chinchila nos casacos e claro, mais empregos decentes porque todo homem possui direito ao trabalho.
Agora, o que não entendo é a baixaria. Nunca tive forças para briga, confusão, dormir em ocupação, comício, passeata e todo o mimimi por trás de defender uma causa. Já fui, já participei, mas nunca senti o conforto de estar completamente dentro, sempre fora. Deslocada por não crer. Vivendo com os meus “poréns” tão característicos das contradições humanas em busca da utópica liberdade. Em busca de dias melhores, sorrisos melhores, amores melhores.
Pior do que a baixaria, só as pessoas. Toda a incoerência de reunião no qual uma boa-moça-usando-saia-da-Cantão berra que o inimigo é a burguesia ou o rapaz-adidas-no-pé com um poster do Che Guevara no quarto. Maldizem a si mesmos, jogam-se no bueiro daqueles que só possuem o direito de serem ovelhas: Ovelhas da Adidas, do Fidel e das empresas que propagandeiam o nosso dever de fechar a torneira para escovarmos os dentes, enquanto eles por direitos de estarem pagando-melhor-do-que-você liberam um montão de dióxido de carbono por uma chaminé cinza e feia.
Aí está a preguiça, está todo mundo tão certo das coisas. Não classifique meu discurso como o gracejo sofista da menina incapaz de desagradar os que pensam diferente dela, é que às vezes, eu honestamente não vejo verdade ou mentira, justamente por não ter nem ao menos pensado a respeito. Por ora, prefiro só escutar, sorrir e balançar levemente a cabeça. Se nada sei, mantenho a possibilidade de alguma coisa levar para digerir-refletir-contextualizar, muito obrigada por tudo, na minha casa.
Localizada na posição mais equidistante das ideias escolho sinceramente ficar a margem da própria vida pelo privilégio de mudar a opinião toda semana, tateando esse escuro-abismo de cair, misturar-se até diluir, no devastador mundo das reflexões incessantes. Sinto-me demasiado nova para ser adepta das escolhas perpétuas, não quero e não posso – jamais – fechar-me para tudo que ainda está por vir, e o que vem saltitando e cantando parece tão maravilhoso, que acaba por ficar o desejo de após beber vitamina de morango em uma manhã de sábado abraçar logo em seguida essa tal magia, afinal, já disse que acredito em utopias, né? Quem sabe, até faço uma escolha quando eu estiver preparada para sair da metade do caminho.



2 comentários:

  1. Menina vc está me surpreendendo a cada dia, nossa, isso me faz acreditar que amanhã sera um dia melhor, assim começo a acreditar que vão existir políticos honestos, que a saúde nesse país vai funcionar, que meus netos vão ter professores bem preparados e etc...por favor não pare de escrever nunca.

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    1. Acredito que o seu incentivo é uma das coisas que mais me motivem a escrever, tia, seus elogios até me fazem acreditar que estou no caminho certo. Sua sobrinha emprestada, te ama e derrete de saudades aqui no calor do Rio, até logo, o mais logo possível. Beijão.

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