
- Falta um mês só, como você
acertou?
- É que você tem cara de 22 anos.
- Sério? Como é a cara dos 22?
- Fácil de acertar. Acontece que os
22 anos, são os melhores anos.
Essa é a fila do banheiro do Bar da
Cachaça. Setembro. Lua Crescente. Está bem quente e é quase primavera. Ao meu
lado, há um homem apoiado no balcão, às vezes chego a me distrair da conversa
sobre idades para ouvi-lo papear com um rapaz que nem do rosto lembro mais, eu
não dependo de escrever não, ele diz, eu quero fazer algo diferente no mundo,
ele diz. Uma danada confusão de idiomas ao meu redor. O calor clamando pelas
chuvas de outubro, pelas chuvas que sempre deixam meu aniversário mais
desanimado e o meu nariz constipado enquanto eu me vejo aos 10 anos afirmando
que vou escrever coisas, assim, sem buscar subterfúgios ou algum plano B.
Narrar a minha infância é sempre reviver imagens, que não consigo achar nem
diante das fotografias guardadas debaixo da cama em meio ao pó de uma caixa de
sapato. Meu aniversário vai ter primavera e lua cheia. Meu aniversário
tá perto, mas não tão perto quanto a parede do bar que tem um texto do senhor,
que também já não lembro, mas sei que achei uma merda. Uma puta merda. Dizem
que sou compreensiva e gentil, mas no fundo é só fachada. Me vejam bêbada. Acho
as coisas uma grande bosta e ironizo conselhos, “Quando eu era jovem, eu
tinha umas ideias criativas, queria fazer essas coisas criativas, mas a gente
tem é que se bancar antes”, uma porção de professores diziam e eu ironizo, “Mas
você quer é morrer de fome?”, alguns conhecidos diziam e eu ironizo. I
didn't realise you wrote such bloody awful poetry, Mr. Shankly. Gracejo à
beça, mas sei que tô cheia de medo afundada em pequenas evasões.
É estranho perguntar a idade delas
enquanto a minha, aparentemente, está sendo exposta em cada fluído que coloco
pra fora. Eu tenho 26, Eu tenho 32 e uma mais maquiada com lábios vermelhos
ressaltados pelos cabelos mais curtos do que os meus em qualquer uma das minhas
fases de cabelos bem curtos, ela olha pra gente e diz com a sua voz rouca mais
vivida do que a da loira com inicio de sinuosas linhas de expressão na testa: “Eu
tenho 18”. Como assim 18, menina? 18. 18, 22, 26 e 32, números. Há algo, ou nos olhos marejados de
bebida, ou no sorriso esperançoso da noite, ou até mesmo na voz trêmula porém
nem sempre trêmula, ademais cheia de efêmeros momentos de fraquejamento que
alertavam estarmos perdidas, morando com os pais e só sabendo fritar ovo, eu
sei que nisso tudo, há algo. A idade é diferente, mas há algo, que apesar das
divergentes quantidades de maquiagem – nas mais velhas, essas camadas de base
iam se dissolvendo como prova da aceitação das imperfeições, vai ver –, que
apesar do peso talhado em nossa pele e nas nossas vozes, há algo que está muito
mais nos nossos olhares, que me diz que somos mulheres, que somos idênticas,
que queremos usar o banheiro e que eu, bem, eu tenho quase 22 anos e é a idade
mais feliz do mundo.
- Por que a mais feliz?
- Não se preocupe, você irá
descobrir.
Vejo uma foto minha, uma daquelas
fotos em que você parece ter exatamente a idade que possui. Um sorriso
desprevenido. Aquele sorriso honesto que calha de sair diante de quem você quer
se mostrar ou quando, não está muito preocupado em vir a ser qualquer coisa.
Uma mão com a metade para dentro do casaco e a outra metade pra fora dele, ela
está aberta; voltada pra frente. Eu uso preto, a mesma cor que enquanto teclo
vejo serem as que estão em minhas unhas, pára com preto e tenta lilás, a
manicure diz. Eu tenho 22 anos, está bem aqui, diante de mim, nessa imagem.
Cato comida de madrugada revirando a
cozinha como se eu fosse uma formiga afoita a recolher migalhas ilícitas que
caem no carpete, me alimento de pizza velha e ruim, que pegou todo o sol do dia
calorento que passou. Pela rua, só vi
três figuras sumindo entre o amarelo incandescente da noite e dos postes, em
suburbanas esquinas. Na minha casa, silêncio. Mas não é o bonito silêncio das
ruas que me faz contemplar garotos perdidos, estrelas e a lua que está tímida,
é um outro, aquele sem nenhuma crença característico do ponto final, perpétuo e
trágico. Sem volta. Está silêncio e eu vou dormir. Está silêncio e eu vou
perder o sono com o barulho dos ponteiros do relógio da sala. Está silêncio e
estar em casa pode ser bastante claustrofóbico. Insone penso nas cores de
Watteau e as situações cheias de supetões de sua época. A quantidade de raptos
produzidos no período Rococó. A ilha de Citera vem até mim, mas também penso no
sétimo continente de Haneke, porque pensar é o que resta nessas situações.
O rapto é aquele momento no qual,
tudo pode ser modificado sem que você possua a menor chance de caminhar na
direção ao contrária, é um momento de total desconforto e perda de chão. Então,
por que o fascínio? O corpo pulsa atrás do que não sabe lidar. O corpo quer nos
levar até uma ilha com novos costumes, novos deuses, novas certezas. O meu
corpo prefere estar em um quadro de Watteau e distante de um filme do Haneke.
Meu corpo desliga e dorme. Meu corpo continuará cansado, até mesmo na segunda
diante dos barulhos dos aparelhos eletrônicos e dos trilhos de metrô. Esse
corpo, vai sentir-se massacrado pela rotina. Posso dormir por 12 horas, mas meu
corpo vai doer quando meus olhos caírem sob as pessoas que são outras, mas que
parecem as mesmas. Os meus sentidos estão entorpecidos por aquele sacolejo
único do vagão. Diante de mim, as figuras bem nítidas. O cara que masca
mecanicamente isopor Skinny, um casal cansado que dorme com as mãos repousadas
entre as pernas um do outro, um outro rapaz com uma espécie de TOC que o leva a
contrair os lábios nas mais ridículas configurações, um homem que reveza a
leitura do meia-hora com a leitura das próximas estações enquanto balança a
perna, dois amigos de trabalho que falam sobre as mães que já estão mais pra lá
do que pra cá e, como promessa de felicidade, estou sentada no mesmo vagão, com
os meus 22 anos impressos em meu rosto reluzente por anos dourados. As idades
são várias, são números e estamos todos no mesmo vagão. Igualmente catatônicos.


Paula, eu simplesmente fui raptada pelo seu texto! Que coisa! Esse fragmento me marcou: "Na minha casa, silêncio. Mas não é o bonito silêncio das ruas que me faz contemplar garotos perdidos, estrelas e a lua que está tímida, é um outro, aquele sem nenhuma crença característico do ponto final, perpétuo e trágico. Sem volta. Está silêncio e eu vou dormir." Sabe, sempre senti algo em relação aos pontos finais, e nunca tinha percebido ao certo o que era, mas essa sua descrição, que maravilha! E também tem uma identificação minha por ser suburbana e está sempre "perambulando" pelas conduções... Adoro silêncios, adoro seus textos, e temos que marcar de bater um longo papo, não acha?
ResponderExcluirPaula, eu simplesmente fui raptada pelo seu texto! Que coisa! Esse fragmento me marcou: "Na minha casa, silêncio. Mas não é o bonito silêncio das ruas que me faz contemplar garotos perdidos, estrelas e a lua que está tímida, é um outro, aquele sem nenhuma crença característico do ponto final, perpétuo e trágico. Sem volta. Está silêncio e eu vou dormir." Sabe, sempre senti algo em relação aos pontos finais, e nunca tinha percebido ao certo o que era, mas essa sua descrição, que maravilha! E também tem uma identificação minha por ser suburbana e está sempre "perambulando" pelas conduções... Adoro silêncios, adoro seus textos, e temos que marcar de bater um longo papo, não acha?
ResponderExcluirMuito amor, Paula!
ResponderExcluirObrigada Louise. Obrigada Lale.
ResponderExcluirE acho que sim, que nós devemos seriamente nos encontrar pra debater os transportes públicos e como tá complicado esse negócio de passar horas dentro do ônibus/metrô/trem. u_u Hahahahah
Caramba. Esse texto é, como costumo dizer, um petardo.
ResponderExcluirSó digo uma coisa: a idade está, sempre, dentro de nós.
Saúde e paz, sempre!
Luis Guto D.
Um "petardo" foi um elogio e tanto que tive que procurar no dicionário. Obrigada Guto!
ResponderExcluir