
Fui na sessão de 19h de
Before Midnight no Estação, ali encontravam-se obviamente diversos homens de
terno e algumas mulheres com roupas padronizadas em tons neutros, cabelos em
rabo de cavalo, provavelmente refugiavam-se no cinema da chuva e do trânsito que lá fora
atormentava. Os casais estavam aos montes, contudo me intrigava a idade deles:
todos acima dos 25 anos com suas blusas sociais, relógios de pulso em material
metalizado, cansaços, jeito confiante - mesmo assim lento - de caminhar,
pequenos sussurros para se comunicarem e sorrisos necessários, sorrisos
endereçados exclusivamente para o ouvinte e não para uma plateia invisível,
muito destoante daquele outro tipo de sorriso, um sorriso barulhento que é mais
comumente observado nos jovens de 16 anos que vemos lotar o cinema do Tijuca com seus diferentes uniformes escolares nas tardes de quarta.
Os últimos minutos do
filme, quando Jesse e Céline começam a brigar são os únicos em que os risos
altos são escutados, aparentemente, brigas são motivo de humor, ainda mais
diante do público já descrito. Quando as luzes acenderam, dava pra ver um casal
satisfeito cujo o homem beijava o rosto da mulher enquanto a abraçava dando a
entender que naquele dia só ia caber riso e enquanto eu me direcionava até a porta
pude escutar uma mulher de calça marrom e blusa branca falar para a provável
namorada, pois estavam de mãos dadas: “você faz igualzinho quando começa”.
Já do lado de fora, na minha espera pelo almejado sortilégio de ter acesso ao
banheiro, observei um rapaz que ao sair do lado masculino perguntou para a sua
esposa ou noiva – esses usavam alianças – visivelmente cansada e sob um salto,
se ela queria que ele segurasse a bolsa; o sorriso dele compensava a pitada de
mau humor dela, creio, que se dessem bem e só estavam um pouco chateados por
conta das filas.
Richard Linklater
consegue criar filmes que facilmente nos insere em seus contextos e sustenta
diálogos que não precisam muito dos filmes anteriores para serem absorvidos por
manter – mesmo que repetidamente – indagações bastante contemporâneas e algumas
até mesmo atemporais sobre as nossas fixações de bar como o meio ambiente, os
filhos, o casamento e o feminismo. Embrulhamos nossas dúvidas e as levamos para
casa para conseguirmos acompanhar o ritmo em que elas vão surgindo, tendência
essa que podemos confirmar em filmes que vão além da trilogia (“Dazed and
Confused” de 1993 e “Waking Life” de 2001, por exemplo. Vale
salientar a rápida aparição do casal por alguns segundos (vide). Aqui, ao
contrário daqueles jovens confusos de 23 anos que tínhamos em 1995, jovens
dispostos até mesmo a dar atenção para videntes e cartomantes para quem sabe,
terem algumas respostas, temos agora um casal com menos devaneios acerca do
destino e mais preocupações com o presente, eles de alguma forma, tentam
dialogar sobre como ajeitarem o que possuem. Não é mais uma falação sobre ter
filhos ou casar, essas temáticas que pareciam grandes demais, até mesmo
distantes demais, tornaram-se reais.
De início temos Céline
estressada com uma medida ambiental que foi negada por não ser esteticamente
agradável, frustrada e ainda diante de suas pequenas utopias abafadas para com
o meio ambiente, que de 2004 (“Before Sunset”) até 2013 obviamente não
melhoraram, entretanto enquanto a esposa está diante do desespero de estar
insatisfeita e sem saber qual emprego seguir, Jesse está de bem com a sua vida
profissional, seu último livro, não é tão elogiado quanto os dois primeiros que
são sobre o casal, mas vai bem, pelo menos para o amigo escritor que o
considera “ambicioso”. Pessoalmente, a minha cena predileta é ver Céline sempre
preocupada com a sua posição no mundo, reclamando que não queria estar na
Grécia, em um país em conflito com as chances de uma revolução ocorrer a
qualquer instante, eis então, que temos Jesse com uma toga simbólica,
reflexivo, rebatendo a afirmação da esposa com seus prognósticos de que nada
ocorrerá, porque nunca ocorre nada.
Um grande diferencial
desse filme, também é a mesclagem de opiniões: Linklater foi bastante ardiloso
ao nos colocar diante do jovem casal que jamais poderiam ter sido Céline e
Jesse, pois esses dois não deixaram a utopia trabalhar ao trocaram telefones
quando se conheceram e a tecnologia também os permitiu ir muito além, pois
passam as noites conversando através do computador, até mesmo, dormindo juntos
– tecnologia essa que impregna até a postura de Céline, que tem um celular em
mãos para flagrar Jesse comendo a maçã da filha deles ou na ajuda para que
pessoas unam-se até uma “revolução” eclodir.
Afinal, o jovem casal terá que esperar o destino os guiar ou até o velho
medo que não permitiu que Céline e Jesse trocassem cartas ou telefones, aquele
medo de se odiarem e enjoarem um do outro antes do tempo, ou que eles dois
acabem juntos, enfrentando as miudezas da vida conjunta. Há também o lado idoso
que teve o amado levado pela morte, emocionando todos os reclamões.
Trata-se de um emaranhado de diferenças e experimentações
que só conseguem se firmar com sucesso diante do intervalo que há entre um
filme e outro, essa trilogia tem a força de ter sido construída após muitas
vivências do próprio criador. Céline e Jesse são personagens
que com o tempo foram bem talhados, que após os anos juntos deixaram de ser
apenas palavras ao vento, agora lidam com o peso e com o convívio de questões
que inocentes matutaram sobre algum dia vir a acontecer. Por mais que
atualmente a vida deles gire em torno de muitos outros fatores que vão além do
encontro no trem, essas ramificações de temas como as gêmeas que casal teve ou
o filho de Jesse que está nos Estados Unidos, acabam virando objetos que a
gente escuta muito mais sobre do que vê em si, pois na primeira oportunidade
todos vão pro plano das palavras e das discussões, na prática, observamos
pouco, porque no fundo o tête-à-tête é o charme principal desses dois. E lembrem-se, silêncio no cinema.

Os três são clássicos, pequenas obras-primas. Mas o segundo ainda é o meu predileto. O tema do reencontro de alguém tão especial é algo que me atrai. Quantas pessoas que passaram de maneira tão fugaz e intensa pela nossa vida a gente não gostaria de reencontrar? =)
ResponderExcluirE "Before midnight" mostra um desses reencontros que deram certo, mas que deixou marcas no viver do casal. Ri e me emocionei na mesma proporção!!!
Adorei o texto, Paula. Saúde e paz!!!
Luis Guto D.
Meu predileto continua sendo o primeiro mesmo. Não aguento com aquela cena da cabine enquanto toca "Come Here": http://www.youtube.com/watch?v=nQpYHiB0k6k embora o segundo tenha a cena que acaba comigo, que é a da Julie Delpy cantando a "valsinha"; emocionante. Acho uma pena saber que o primeiro é baseado em fatos reais, mas o segundo, invencionice e um pouquinho de magia pra rotina. É uma pena saber que o reencontro nunca aconteceu (do diretor com a menina que ele conheceu).
ResponderExcluirE obrigada Guto, até breve!