Quando a Cor Deprime



            Você provavelmente deve ter uma capa de celular dele, ou uma mala de viagem, talvez um jogo de cartas ou até mesmo um vestido. Estou falando do mundialmente conhecido Romero Britto. O brasileiro de 49 anos que produz uma série de imagens bem coloridas e estilizadas.
            Britto se confessa um artista inspirado pelo Cubismo e a Pop Art. Mesmo eu não gostando muito do movimento que foi a Pop Art, sou solidário à dor que Warhol estaria sentindo caso acompanhasse as pobres produções de Romero Britto “inspiradas” em seu trabalho.
            Não podemos negar que hoje em dia Romero Britto é realmente pop; só acho triste termos alguém como ele sendo chamado de artista. Não só pela pobreza da técnica e dos símbolos que formam os seus quadros, mas pelo completo vazio que existe entre o espectador e sua obra. Vazio esse que deveria ser preenchido por conceitos, discussões, sentidos, emoções.
            Britto diz que sua obra fala sobre a alegria de viver, por isso ele trabalha sempre com cores “alegres” e com formas “felizes”, como gatinhos, coraçõezinhos, solzinhos, marezinhos, florzinhas, eteceterazinho. E não me sinto nem um pouco constrangido em dizer que essa série de “zinhos” mais parece uma decoração para creches e capas de livros de autoajuda. Pobres crianças! Infelizmente, por mais arrogante que pareça, não consigo confiar, gostar ou sentir qualquer outra coisa produtiva frente a uma representação da alegria composta por clichês mal construídos, mal “coloridos”.
            Como podemos comprar um quadro de um cara que diz odiar Caravaggio? “Não gosto por causa da violência extrema. As obras dele sempre retratam pessoas torturadas e gente cortando a garganta umas das outras.” É uma declaração que evidencia buracos enormes na formação de Romero Britto enquanto “artista”. Fica claro que ele não tem a devida noção de arte e conhecimento das questões, discussões e descobertas fundamentais para o mundo que pessoas, como Caravaggio, fizeram. Ou pior, se tem essa noção, ele simplesmente a ignora e a descarta da mesma forma que faz com o valor das cores quando as usa em seus quadros. Essa alegria de viver que ele diz perseguir para fugir dessas “pessoas torturadas” me mostra um pensamento fraco diante das discussões importantes que a arte nos leva, as questões políticas e existenciais. Arte não é um conto de fadas.
            Por sorte, ou só para deixar ainda pior, Romero Britto gosta de Matisse, dizendo que ama suas cores e sua alegria de viver. Alguns podem considerar como um elogio meio raso, mas eu vejo como extremamente agressivo reduzir Matisse, ou qualquer contemporâneo do mesmo, à “alegria de viver”.
            Esse texto, um pouco revoltado e talvez bem arrogante, é uma tentativa de dar o devido respeito aos artistas de verdade; aos que morreram e aos que ainda vivem. Que se mantém discutindo, se empenhando e se rasgando para produzir coisas que façam mais sentido impressas em nossas almas do que em nossos celulares.
            PS: Esse texto não terá nenhuma imagem da obra do Romero Britto, não consigo olhar muito tempo para elas. Por isso decidi ilustra-lo com Caravaggio, quem realmente sabia o que estava fazendo. Judite e Holofernes-1599-óleo sobre tela.

3 comentários:

  1. Esse comentário que ele fez sobre Caravaggio reflete no vazio de suas obras. Pop Art: ele está fazendo isso ERRADO.

    Bom texto, Camilo!
    Um abraço,
    Luis Guto D.

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  2. Acho as cores os "zinhos" do Romero uma palhaçada, mas fico me perguntando o que é arte: se se faz arte apenas com embazamentos literários, quando se tem história e técnica na cabeça. Eu vejo beleza e considero arte um monte de coisa que não tem muita técnica e estudo por trás, mas que consegue se comunicar comigo, simplesmente. Pra mim a bobagem das obras de Romero está no vazio da sua expressão, muito bem explicado no texto. Essa falta de conteúdo é o que me amola. E o pior de tudo não é ele se considerar um Picasso, é sim o grave erro dessa mídia e de seus admiradores de interpretá-lo como tal. Essa revolta eu compartilho, mas a "talvez arrogância" certamente presente no texto não. E Bispo do Rosário? Artista?... Longa discussão, né. Discussão que deixo para os artistas enquanto eu vou estudar.
    Grande beijo, Camilo, adoro seus textos.
    Juliana Brasil

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  3. Ju, muito obrigado pelo comentário e estava esperando mesmo pontos contra. Eu entendo sua colocação mas quero deixar claro aqui, já que não ficou no texto, que a falta de conteúdo e discurso do Romero me incomoda por que ele é uma pessoa formada pelos meios comuns da sociedade e não é considerado louco. O que me doi é o mal aproveitamento disso e a arrogância por trás disso. Quanto a Bispos, Estamiras e etc, a formação deles é outra, assim como a linguagem e o discurso. Na minha opinião a arte, além de muitas coisas, ela cria pontes entre o um mundo outro e o nosso. Não acho que os ditos loucos façam isso por dois motivos simples: não os interessa e o processo é diferente. Não existe ponte e nem precisa. Acho que por muitas vezes considerar seus trabalhos como arte é uma incompetência nossa de classificar algo que para mim é muito maior que a nossa arte. Pois quando fazemos a ponte, perdemos muitos elementos do outro mundo para torna-lo compressível. portanto, é óbvio que Bispo e outros têm mais tutano e força que um Romero. Mas a discussão é outra.

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