
Ao chegar no alto do Morro do Salgueiro, nosso grupo
caminhou com calma pelas ruas até o Centro Cultural. As pessoas estavam a nossa
espera – principalmente as crianças. Como minha idade mental se iguala a de uma
criança de oito anos, fez todo o sentido me designarem para ficar com eles.
Fomos eu, um rapaz com a idade mental de três – e corpo de 30 – e uma outra
Julia, com uma idade mental mais avançada que a nossa.
Por duas horas fui
chamada de tia por crianças tão adoráveis que não me incomodou. Eles só queriam
atenção e proximidade, o que era exatamente o nosso objetivo. Pintamos e
colorimos até o fim do dia, com as oito crianças que apareceram.
No dia seguinte não eram
oito, eram trinta. E nessa ficamos eu e Marcelo no dever de entreter. Muita
correria e brincadeira de cansar para que ninguém ficasse parado ou triste. Os
que não queriam correr desenhavam num cantinho. As brigas eram tão frequentes
quanto as corridas, sendo a única resposta que aquelas crianças conheciam para
resolver problemas. Fomos tios, professores e juízes. Mas sobrevivemos.
Enquanto decidíamos como
resolver as brigas no dia seguinte, conversamos sobre a atenção que deveríamos
dar a eles. Era só isso que queriam e nós não podíamos negar a nenhum. Pensamos
e decidimos o que fazer no último dia.
Vieram mais do que no
dia anterior, mas eles sabiam que as brigas não ajudavam em nada quando estavam
conosco. Não brigaram. Eles entenderam nosso recado silencioso e se esforçaram
tanto quanto nós. Foi uma troca surpreendente. Nesse dia não fomos juízes,
fomos cúmplices de um universo que ninguém conhecia até aquele momento.
O carinho que aquelas
pequenas crianças tiveram por pessoas totalmente desconhecidas em tão pouco
tempo é a prova de que um pouco de carinho e atenção podem fazer a diferença –
para todos.


Oi, Julia. O nome disso é CARIDADE pura e simples. Parabéns a todos e continuem assim.
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