Título Original: Les adieux à la reine | Dretor: Benoît Jacquot | Lançamento: Mar/2012




“Sempre notei que as pessoas falsas são sóbrias, e a grande moderação à mesa geralmente anuncia costumes dissimulados e almas duplas.” 
Jean-Jacques Rousseau

O horror ao vazio do período Rococó nunca sairá de moda, o requisitamos em nossas vidas e obras, somos uns saudosistas pelo o que não tivemos, por isso as constantes visitas a esses tempos. Não o superamos, honestamente. Isso explica o sucesso atual do cabelo rosa algodão doce de Elizabeth Banks em Jogos Vorazes. Amamos o excesso visual, consequentemente, amamos a volta de Maria Antonieta - em um filme francês dessa vez, o “Adeus, minha rainha” de 2012 baseado no romance escrito em 2002 por Chantal Thomas. Trata-se de diversas vias a terminarem em um simbolo só.
No lugar da leveza de um quadro de Fragonard com seus amantes roubando beijos arriscados e as festas galantes nos jardins, temos o desfalecimento da vida em corte. O filme muitas vezes narrado em nervosas madrugadas iluminadas por velas, mostra a angústia dos dias antes da Revolução Francesa através do olhar de Sidonie Laborde, uma fictícia criada encarregada da biblioteca real cujo ofício é narrar livros para a rainha.
A câmera muitas vezes faz o percurso por detrás das costas de Laborde, andando pelo palácio em completa crise, a criada vira o público dos nobres misturados aos servos pelos corredores para trocarem informações a respeito do que acontece do lado de fora do mundo deles, um mundo no qual eles sempre pareceram imunes. O sentir-se pequeno ao ponto de ficar igual a todos os demais, emoldurado pelo medo daqueles que sentem o poder esvaindo de suas mãos sobrecarrega essas cenas.
Após o povo invadir a Bastilha, uma lista com mais de 200 nomes que devem ir para a forca aparece tornando-se impulsionadora para fuga dos nobres, eles abandonam assim, a rainha para trás vendo soçobrar o seu antes seguro status social. O filme é uma extensão de um momento abordado rapidamente no filme de Coppola, o momento em que têm-se uma Antonieta mais madura presenciando somente a crise de seu reinado. Há uma cena incrível no nível do fim de “Ligações Perigosas”, cujo a rainha após encarar austeramente os da corte ao lado do rei, dirigi-se para um local reservado ao lado de Polignac, ao ficar segura dos olhares remove a maquiagem de sua face substituindo a expressão fria por um choro guardado, começando a ser ela mesma; tirando de si, as famosas máscaras sociais do período Rococó e a latente necessidade de manter uma imagem.
São as sutilezas secundárias do desenrolar da trama que compõe o charme desse filme, uma delas é ver a criada sendo apoiada na escolha de “Confissões” de Rousseau para uma leitura tranquila no qual a rainha fosse deleitar-se, e lembrar que um dos maiores endossadores do discurso iluminista também era admirado por alguns de seus escritos na corte – grifando aqui, que a famosa citação dos brioches nunca foi de Antonieta (Fonte). A rainha, é um bebê mimado igual a famosa Antonieta de Coppola, o amor por moda é ressaltado quando a mesma tem uma ideia para um novo vestido: reúne-se nas cenas a belas roupas, os belos cabelos e a bela arquitetura, mas as famosas farras da corte francesa não acham espaço para instalar-se nessa ruína.
O filme poderia passar em branco, todavia torna-se interessante por abordar a suposta bissexualidade da rainha, assunto pouco discutido. O alvo para essas divagações é a Madame de Polignac, amiga intima ganhadora de diversas regalias para ela e a família, após uma repentina união com Antonieta. O último desejo da rainha é tirá-la do caos, o método para tal, trata-se de mais uma especulação atingida com a magia do cinema capaz de devanear até tornar interessante o que poderia ser estupidamente banal.

2 comentários:

  1. Já ouvi alguns comentários sobre esse filme, nenhum que soasse tão interessante e sincero como esse, parabéns, você escreve muito bem.

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  2. Muito obrigada! É fácil os comentários ficarem interessantes se tratando de um filme como esse, vale muito a pena assisti-lo. (:

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