Título Original: Les Misérables | Dretor: Tom Hooper | Lançamento: Dez/2012

            Sexta-feira, término de Carnaval no Rio de Janeiro. Uns amigos e eu tivemos de fazer uma pesquisa de campo para um dos trabalhos de final de período. Um belo dia, céu azul e sem nuvens, o calor não estava estarrecedor. Terminamos o trabalho, fomos comer algo, e, com uma troca rápida de meia dúzia de palavras, fomos correndo ao cinema mais próximo, sendo Les Misérables o filme sobre o qual eu vinha matutando há um certo tempo, fazendo uma certa questão de vê-lo.
            Atravessamos a rua, a sessão começava às 17:40hrs e o relógio já marcava a hora. Catamos nossas notas e moedas jogadas dentro das bolsas, compramos nossa água e fomos para a sala de exibição, o filme já havia começado há uns cinco minutos. Gosto dessas decisões repentinas, caros caríssimos, de tirar a moeda do bolso e jogar cara e coroa com a vida. E quando isso se mescla com a experiência cinematográfica, tudo parece mais intenso, mais mágico, e Les Misérables conseguiu incorporar-se nessa atmosfera dignamente.
            Pegamos um péssimo lugar na segunda fileira, o telão ficou durante um bom tempo jogando imagens em meus olhos, até chegado o momento no qual minhas pupilas foram se adequando à situação, então aconcheguei-me no banco e fui.
            A complexidade do filme não me permite ousar vir aqui e escrever uma resenha qualquer, ou um resuminho sobre o que se trata a história, é uma experiência altamente sensorial. Les Misérables é radicalmente uma obra do gênero musical, com pouquíssimas falas (que podem ser contadas em uma mão só) e quando você pensa “RÁ! Ele está falando!” surge de algum lugar uma musicalidade na fala da personagem, através da qual se é embalado. Não nego que esse é um filme cansativo e pesado, com dezenas de informações para serem absorvidas – e sentidas – pelo espectador, mas, apesar disso, merece todas as indicações que veio a receber.
            A fotografia retratava em muitas cenas – por exemplo, a das prostitutas no cais (uma das minhas favoritas por sinal) – a decadência de uma França do século XIX, que por sua vez fora realçada pela maquiagem e indumentária excepcionais; achei digníssima a atenção dada à sujeira das roupas e das próprias pessoas, fazendo com que de fato você sentisse uma repulsa por todo aquele nicho. Era quase possível sentir a sujeira e seu cheiro. Outra questão a ser ressaltada, certamente, é sobre os enquadramentos das cenas. Se falarmos do “B, A, BA” superficial, cinema pode ser definido como “técnica de projetar fotogramas de forma rápida e sucessiva para criar a impressão de movimento”, na minha opinião, os enquadramentos de certas cenas de Les Misérables eram capazes de criar uma obra pictórica (ou serem tidos como tal), na verdade. E posso afirmar, com plena convicção, que de todos os filmes que já vi, o dito cujo possui uma cena que entrou para a categoria de “cenas mais belamente enquadradas” (nada de spoiler, acalmem-se).
            A história foi fluindo, densa e vagarosamente - principalmente por causa da passagem de tempo dentro dela mesma, senti como se os anos também estivessem pesando sobre a minha pessoa -, mas fluindo de qualquer forma. Ao contrário de narrativas altamente clássicas que se desenvolvem para chegar num só clímax, Les Misérables possui diversos em sua trajetória. Ele desconstrói – e destrói – nossas esperanças românticas, desestabiliza o espectador e continua a seguir seu rumo, cabendo a nós mesmos termos de nos recompor e segui-lo. Filme difícil, mas instigantemente belo e sensível.
            Não me adentrarei nas questões das próprias personagens, pois acabaria por transformar um post num artigo, e tenho medo de julgá-las mal e de forma superficial, portanto minha opinião aqui publicada refere-se mais à obra como um todo.
            Les Misérables é um filme que lhes indico, caros caríssimos, entretanto, indico para que seja assistido numa sala de cinema. É uma obra grandiosa e pesada, cuja atmosfera e visualidade não cabem numa sala de estar e numa televisão comum, sendo pois, dependente do ritual do telão e da poltrona vermelha (ou azul) mergulhados no escuro do cinema.




2 comentários:

  1. Excelente crítica! Suave, gosto de escrita em forma de narrativa, ela prende você. Nessas palavras consigo pegar a experiência sensorial que dizes ser o filme. Além do ligeiro toque cômico na escrita, o que também traz leveza à leitura.

    Priscila Bravo

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  2. O coração pula uma batida pra cada pessoa que morre nesse filme.

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